Há projetos que vão além da estética. Este apartamento garden no Panamby, em São Paulo, é um desses casos em que a arquitetura atua como narrativa — revelando trajetórias, afetos e o prazer de viver o espaço. Com 310 m² e pé-direito generoso, o imóvel passou por uma reforma completa assinada por Juliana Casacaes Arquitetura, cujo desafio não era apenas atualizar acabamentos, mas ressignificar a experiência de morar.
Os proprietários, um casal com três filhos adultos que hoje vivem fora, desejavam algo mais profundo do que um simples upgrade visual. Queriam um refúgio acolhedor, preparado para receber, celebrar e guardar histórias. Assim, o projeto partiu daquilo que já existia de mais potente: a vocação natural do garden para evocar a sensação de casa.
Integração como estratégia de convivência
Antes da intervenção, o excesso de branco e a escassez de mobiliário criavam uma atmosfera impessoal. Havia amplitude, mas faltava pertencimento. A partir dessa leitura, o layout foi completamente redesenhado.

A integração dos ambientes tornou-se eixo central da reforma. As circulações ganharam pequenos pontos de estar, reforçando a vocação social do apartamento. Em vez de corredores meramente funcionais, surgiram áreas que convidam à pausa, à conversa e à permanência.
Dessa forma, o projeto de interiores passou a favorecer encontros espontâneos — algo essencial para um casal que valoriza receber amigos e familiares.

Essa reorganização espacial também fortalece a conexão com a área externa, característica marcante de um apartamento garden, aproximando interior e natureza sem rupturas visuais.
Memórias de viagem como elemento de projeto
O fio condutor da reforma foi a história do casal. Apaixonados por viagens, eles acumulam objetos e peças adquiridas ao redor do mundo. No novo projeto, esses elementos deixam de ser meros adornos para assumir protagonismo.

Um baú de família organiza lembranças afetivas. Obras e objetos ganham enquadramento cuidadoso na marcenaria. O papel de parede Missoni Casa, trazido da Itália, surge como assinatura sensível — repetido estrategicamente no lavabo para criar unidade e impacto visual.
A arquitetura, nesse contexto, atua como curadoria. Cada escolha foi pensada para valorizar a memória sem comprometer a elegância. O resultado não é um ambiente carregado, mas sim equilibrado, onde narrativa e sofisticação caminham lado a lado.
Materiais que aquecem e estruturam a identidade
A base material privilegia a atemporalidade. Painéis em lâmina de madeira natural percorrem os ambientes, promovendo unidade visual e aquecimento sensorial. O piso original foi preservado — uma decisão que respeita a história do imóvel e reduz intervenções desnecessárias.

Pontualmente, texturas contemporâneas introduzem contraste. O porcelanato com efeito aço cortén, aplicado atrás do sofá e no hall de entrada, acrescenta profundidade e reforça o caráter urbano do projeto. Assim, a paleta equilibra tons quentes e superfícies sofisticadas, evitando monotonia.
Além disso, a rotina da casa foi considerada com atenção. A presença de dois gatos orientou a escolha de tecidos pet friendly, resistentes e adequados ao uso intenso — prova de que funcionalidade e estética não precisam competir.
Pé-direito duplo e iluminação como protagonistas
Na área social com pé-direito duplo, a iluminação assume papel escultórico. A composição de pendentes Mush, assinados por Jader Almeida, distribuídos em diferentes alturas, cria ritmo visual e reforça a verticalidade do espaço.

A luz dialoga com o espelho fumê e com a marcenaria sob medida, intensificando a sensação de acolhimento. Aliás, em projetos com grande altura, trabalhar camadas de iluminação é fundamental para evitar frieza excessiva. Aqui, o equilíbrio entre luz difusa e pontos focais transforma amplitude em intimidade.
Design autoral e celebração do convívio
O mobiliário reforça a personalidade do casal. O banco Cheig, também de Jader Almeida, soma-se às poltronas com palhinha posicionadas próximas ao SPA, criando um cenário de relaxamento e contemplação. A mesa lateral BB vermelha introduz um ponto de cor que quebra a neutralidade com elegância.

Entre os destaques, a adega com capacidade para mais de 700 garrafas revela muito sobre o estilo de vida dos moradores. Mais do que armazenamento, trata-se de um manifesto: a casa foi pensada para encontros, celebrações e permanência.
No lavabo, o retorno do papel de parede Missoni Casa fecha o ciclo narrativo do projeto. É ali que memória, cor e textura se unem de forma mais intensa, criando uma experiência sensorial marcante.
Um garden que traduz essência
Este apartamento garden reformado no Panamby demonstra que arquitetura de qualidade não é sobre tendências passageiras. Trata-se de compreender quem habita o espaço e traduzir essa essência em forma, material e atmosfera.
Ao transformar um imóvel amplo e impessoal em um refúgio afetivo, o projeto evidencia que o verdadeiro luxo está na coerência — entre história, função e estética. Assim, o garden deixa de ser apenas metragem generosa e passa a ser território de pertencimento.
E é justamente aí que a arquitetura cumpre seu papel mais sofisticado: transformar espaço em memória viva.




