Há cidades que se impõem pelo excesso de cor, outras pelo movimento incessante. São Paulo, entretanto, revela sua potência também no silêncio das sombras. É justamente essa dimensão que o fotógrafo João Rocha captura na exposição Texturas e Camadas, em cartaz na Casa Bontempo, na capital paulista.
A mostra reúne imagens inéditas do projeto Cidade Cinza 23, série que investiga a arquitetura, os vazios urbanos e o ritmo quase coreográfico das construções paulistanas. Ao optar pelo preto e branco, Rocha não elimina a cidade — ele a depura. Assim, as fachadas deixam de ser apenas edifícios e passam a funcionar como planos, linhas e sobreposições.
O resultado é uma narrativa visual que dialoga diretamente com quem observa os espaços urbanos com atenção ao detalhe.
Cidade Cinza 23: arquitetura como matéria-prima
No projeto Cidade Cinza 23, a arquitetura deixa de ser pano de fundo e assume protagonismo. Concreto aparente, estruturas metálicas, marquises, escadas externas e janelas alinhadas formam composições quase abstratas. Contudo, não se trata de um exercício puramente estético.
A escolha pelo preto e branco intensifica contrastes e evidencia texturas que, muitas vezes, passam despercebidas no cotidiano. A luz natural, ao incidir sobre superfícies irregulares, cria camadas visuais que sugerem profundidade e movimento.
Ao observar as imagens, percebe-se que a cidade não é capturada como caos, mas como sistema. Há ordem nos enquadramentos, há ritmo na repetição das formas. A exposição propõe, dessa forma, uma pausa para enxergar São Paulo além da pressa.
Texturas e Camadas: mais do que fotografia
A exposição Texturas e Camadas marca a quinta mostra da carreira de João Rocha e inaugura a primeira itinerância da Casa Bontempo desde sua abertura, em 2025. O espaço, conhecido por abrigar obras de nomes como Tomie Ohtake, Vik Muniz e Véio, passa a integrar fotografia autoral ao seu circuito.
Essa aproximação entre fotografia e artes visuais amplia a experiência do visitante. Ao caminhar pela exposição, o público encontra imagens que dialogam com o próprio ambiente expositivo, criando uma conversa entre obra e arquitetura.
Aliás, a escolha da Casa Bontempo como cenário reforça a proposta do projeto. Situada na Avenida Rebouças, em Cerqueira César, a casa está inserida em um dos eixos mais dinâmicos da cidade. Assim, o visitante sai da rua, atravessa o espaço expositivo e retorna ao exterior com outro olhar.
Preto e branco como linguagem urbana
Em tempos dominados por filtros saturados e imagens digitais instantâneas, o uso do preto e branco soa quase como manifesto. João Rocha investe na escala de cinza para valorizar estrutura, volume e contraste.
A ausência de cor desloca a atenção para a composição. Linhas diagonais, jogos de sombra e recortes arquitetônicos passam a conduzir o olhar. Consequentemente, o espectador percebe que a cidade também pode ser lida como desenho.
Esse tratamento reforça a ideia de que arquitetura e fotografia compartilham princípios: proporção, equilíbrio e tensão visual. O fotógrafo não registra apenas prédios; ele interpreta a cidade como linguagem.
Serviço da exposição
A exposição Texturas e Camadas está em cartaz até 14 de fevereiro, na Casa Bontempo, localizada na Avenida Rebouças, 1.669, Cerqueira César, em São Paulo. A visitação ocorre de segunda a sexta, das 10h às 19h, e aos sábados, das 10h às 14h. A entrada é gratuita.





