Neutralidade demais esvazia um espaço e é justamente aí que o estilo kitsch na decoração reaparece com força como ferramenta narrativa. O que antes era visto apenas como exagero hoje é reconhecido como expressão e expressão, quando bem conduzida, é projeto.
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Durante décadas, o kitsch ocupou um território ambíguo no design de interiores. Ao desafiar padrões de bom gosto e questionar convenções estéticas, ele provocou desconforto. Contudo, no cenário contemporâneo, marcado por uma busca crescente por identidade e memória afetiva, essa estética ganha nova leitura. O que realmente faz a diferença não é a soma de cores ou estampas, mas a intenção por trás delas.
Maximalismo com propósito: a potência do excesso bem calculado
Vivemos um período em que o minimalismo dominou o décor, abusando de linhas retas, paletas neutras e superfícies limpas criaram ambientes silenciosos e funcionais. O maximalismo (um dos pilares do estilo kitsch contemporâneo), surge como resposta a esse silêncio, trazendo personalidade de volta ao espaço.
Segundo a arquiteta Mari Milani, “com suas cores fortes e cômodos com produção irreverente, fica impossível não se atrair pelos focos de atenção”. O ponto central, entretanto, está na leitura espacial. O ponto central está na leitura espacial, em estabelecer pontos estratégicos de impacto visual, com intenção e hierarquia.
Projeto: Mari Milani Arquitetura | FOTO: Mariana Camargo
Um espelho orgânico em tom rosa na entrada, por exemplo, organiza a circulação, amplia a percepção do ambiente e carrega significado pessoal. O que sustenta a estética kitsch é a coerência interna do projeto e é isso que transforma cada escolha em linguagem.
Aliás, o uso de objetos de valor afetivo é um dos recursos mais potentes dentro dessa linguagem. Quando uma ametista se transforma em puxador de porta, o gesto ultrapassa a função. Ele cria memória, provoca surpresa e constrói narrativa.
Papel de parede e revestimentos: quando a parede deixa de ser coadjuvante
Se existe um elemento que traduz a essência do estilo kitsch na decoração, é o papel de parede estampado. Mas não qualquer estampa. Falamos de desenhos em grandes escalas, padrões geométricos ousados ou composições que evocam natureza e fantasia.
FOTO: Mariana Camargo
No lavabo com referências geométricas que dialogam com a Bauhaus, o impacto não vem apenas da estampa, mas do contraste com os demais elementos. O ambiente se torna um cenário. E cenários precisam de intenção.
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Através das estampas do papel, e até de revestimentos cerâmicos que reproduzem fielmente esses desenhos, realçamos sentimentos e traços da personalidade do morador, analisa Mari Milani.
FOTO: Julia Herman
Essa afirmação revela algo fundamental: o kitsch fala de identidade. Aqui, o cuidado técnico é indispensável, onde um piso neutro, uma iluminação bem distribuída e uma marcenaria limpa funcionam como contrapeso visual. Sem essa estrutura, o resultado cai no ruído.
Mix de cores e estampas: liberdade exige projeto
Combinar azul com rosa, azulejos hexagonais com metais dourados ou texturas contrastantes exige domínio técnico. Esse “risco calculado”, é parte do processo criativo.
Projeto: Mari Milani Arquitetura | FOTO: Julia Herman
Uma das propostas mais interessantes do estilo kitsch revisitado é justamente provocar sensações subjetivas. O mix, quando bem resolvido, gera camadas de leitura. O olhar percorre o espaço, descobre detalhes, identifica referências.
Mari Milani reforça que “para afinar essa contextualização, é fundamental contar com apoio profissional para que, em um projeto 3D, o cliente visualize as variações possíveis do mix”. Essa etapa técnica evita excessos descontrolados e garante harmonia.
Cuidado com o excesso de informação sem hierarquia. Definir um ponto focal e trabalhar os demais elementos como apoio é o que transforma ousadia em sofisticação
Talvez o aspecto mais relevante do kitsch na decoração seja sua capacidade de transformar memórias em arquitetura. Itens herdados, lembranças de viagem, peças garimpadas ou até objetos considerados “fora de padrão” ganham protagonismo.
FOTO: Mariana Camargo
Quando inseridos com critério, esses elementos criam profundidade emocional. Um cristal reaproveitado como maçaneta é assinatura, se tornando algo que nenhum projeto neutro consegue replicar..
Projeto: Mari Milani Arquitetura | FOTO: Mariana Camargo
O que diferencia um ambiente carregado de informação de um espaço com identidade está na curadoria. O projeto precisa entender quem mora ali. A estética, nesse caso, nasce do repertório pessoal.
Cláudio P. Filla é comunicador social e especialista em mídias digitais, com mais de 11 anos de atuação na curadoria de tendências para o mercado de arquitetura e decoração. Como editor-chefe do Enfeite Decora, Cláudio lidera um conselho editorial composto por arquitetos, designers de interiores e paisagistas registrados (CAU/ABD), garantindo que cada artigo combine inspiração visual com rigor técnico e normativo. Sua missão é traduzir o complexo universo da construção e do design em soluções práticas, sustentáveis e acessíveis, sempre sob o respaldo de profissionais renomados do setor brasileiro.
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Formada em arquitetura e urbanismo em 2009, pós-graduada em master arquitetura em 2012, com mais de 300 projetos realizados em lares e negócios, Mari Milani está sempre presente nas maiores feiras e eventos de design do mundo acompanhando e trazendo as últimas tendências de mercado para seus clientes.
Para ela, a construção de um ambiente transformador vai além de erguer paredes e distribuir cômodos; é a habilidade de criar um espaço que reflita a personalidade e os sonhos de cada cliente, pensando sempre no conforto e segurança. Cada projeto é uma oportunidade de criar sensações diferentes e únicas, seja por meio da iluminação, do formato ou da decoração.
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