Resumo
• Construtora catarinense desenvolve sistema patenteado que permite estacionar o carro no mesmo pavimento do apartamento, sem elevador veicular.
• Projeto Park Haus, em Florianópolis, aposta em rampas internas e acessos independentes para unir mobilidade, conforto e segurança no dia a dia dos moradores.
• O modelo reduz a necessidade de garagens subterrâneas, diminui escavações e facilita a implantação de soluções sustentáveis e de infraestrutura inteligente.
• Com pé-direito ampliado e circulação tipo “rua”, o sistema permite acesso de ambulâncias, caminhões de mudança e veículos de grande porte diretamente aos andares.
• O investimento previsto é de R$ 1,1 bilhão em três empreendimentos, posicionando o conceito como referência nacional em inovação na arquitetura residencial.
Ter o carro estacionado a poucos passos do sofá sempre pareceu um privilégio restrito a mansões com grandes garagens térreas. Em Florianópolis, porém, esse cenário está prestes a ganhar versão verticalizada. A construtora catarinense Beco Castelo acaba de registrar no INPI um sistema considerado inédito no país que leva o estacionamento dentro do apê, conectando o veículo diretamente à unidade por meio de rampas internas e acessos em cada pavimento.
Batizado de Park Haus, o conceito nasce como uma resposta ao desejo de unir conveniência, segurança e arquitetura mais humana. Em vez de separar rigidamente garagem e residência, o edifício passa a tratar o carro como um elo entre a cidade e a vida doméstica, sem depender de elevador veicular ou outros equipamentos mecânicos complexos.
Segundo o registro no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), trata-se do primeiro sistema desse tipo no Brasil, o que garante à empresa o direito de exploração e de cobrança de royalties por até vinte anos. Nesse período, a construtora poderá licenciar a tecnologia para outras incorporadoras, ampliando a presença do conceito em diferentes cidades.
Park Haus: quando a vaga de garagem vira extensão do apartamento
Localizado no bairro Cacupé, em Florianópolis, o primeiro empreendimento com o Park Haus tem lançamento previsto para 2026. Até lá, a incorporadora deve detalhar número de unidades, metragem, tipologias e valores, mas o plano global já está definido: somando esse edifício a outros dois projetos com o mesmo conceito, o investimento chegará a R$ 1,1 bilhão nos próximos anos.
A ideia central é simples, mas profundamente transformadora para o desenho tradicional dos prédios residenciais. Em vez de descer diversos pavimentos até um subsolo, o morador acessa o edifício, percorre rampas internas e chega diretamente ao seu andar, estacionando junto à porta de casa. As áreas de circulação de veículos em cada pavimento funcionam como ruas internas, com ventilação e exaustão naturais, faixas de pedestres e sinalização inspiradas em vias urbanas reais.
Como explica o sócio-fundador José Castelo Deschamps, idealizador do sistema, a demanda veio de um público que busca mais autonomia e conforto no dia a dia: famílias que desejam chegar em casa com compras, crianças ou animais de estimação sem percorrer longos trajetos internos e pessoas com mobilidade reduzida, que ganham uma solução mais direta e previsível de acesso ao lar. “Nós observamos uma tendência e uma crescente demanda por soluções em que é possível acessar a casa com o carro, sem a dependência de equipamentos mecânicos, de forma segura e autônoma”, afirma.
Do apagão de 2003 à patente no INPI: o caminho da inovação
O embrião do Park Haus não surgiu apenas de um exercício teórico sobre mobilidade, mas de um evento concreto da cidade. Em 2003, um apagão deixou grande parte de Florianópolis sem energia por três dias. Sem elevadores, moradores de andares altos enfrentaram uma rotina exaustiva, carregando compras, água e itens básicos escada acima.
O episódio acendeu um alerta em José Castelo Deschamps, que passou a se questionar sobre como os edifícios poderiam oferecer acessos mais resilientes. Ao longo dos anos, ele estudou alternativas que melhorassem a acessibilidade em pavimentos elevados sem depender totalmente de sistemas mecânicos. O estacionamento dentro do apartamento surgiu como resposta a esse desafio: se o carro já é parte importante da mobilidade urbana, por que não integrá-lo de forma inteligente ao desenho do prédio?
“Nosso objetivo não é colocar o carro como protagonista, mas sim como um meio de oferecer uma experiência residencial mais humana e integrada — em que o morador tem o controle do tempo, do conforto e do seu espaço”, ressalta o empreendedor.
Rampa, fluxo e conforto: como funciona o estacionamento dentro do apê
A lógica do Park Haus é organizar o edifício como uma sequência de platôs acessados por rampas internas com fluxos independentes para subida e descida. Essa solução, além de aumentar a segurança, reduz cruzamentos perigosos e diminui pontos de conflito entre moradores e visitantes.
Cada pavimento conta com uma espécie de rua interna, onde os veículos circulam até as vagas privativas localizadas junto à unidade. A partir dali, o morador entra diretamente em casa, sem elevadores e sem grandes deslocamentos. A arquitetura valoriza um piso de alta resistência, pensado para o tráfego de veículos leves e pesados, e uma camada de atenuação acústica que evita que ruídos de motor e pneus invadam as áreas íntimas.
O pé-direito ampliado é outro diferencial. Ele permite o acesso de ambulâncias, veículos de mudança e caminhonetes de grande porte, o que agiliza emergências e facilita mudanças, entregas e serviços. Para garantir compatibilidade com as exigências de segurança, o sócio-fundador visitou pessoalmente o Corpo de Bombeiros para conferir as dimensões das viaturas de resgate e assegurar que tudo estivesse contemplado no projeto.
Menos subsolo, mais cidade: impactos urbanísticos e sustentáveis
Além da experiência de uso, o estacionamento dentro do apartamento traz efeitos relevantes na forma como o edifício se relaciona com o terreno. Ao dispensar garagens subterrâneas, o Park Haus reduz a necessidade de escavações profundas, o que diminui o impacto no solo, simplifica a fundação e pode gerar menos movimentação de terra e de caminhões durante a obra.
A formatação arquitetônica pensada pela Beco Castelo também favorece a implantação de infraestruturas inteligentes e sustentáveis, já que o edifício passa a contar com áreas técnicas mais acessíveis e organizadas ao longo da torre, e não concentradas em subsolos compactos. Em projetos de longa vida útil, isso significa mais facilidade para manutenção de redes, eventual instalação de novas tecnologias e adaptação a futuras demandas de mobilidade urbana, como pontos de recarga para carros elétricos integrados às vagas.
Para o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Santa Catarina (CREA-SC), a solução dialoga com o que se espera de cidades que buscam ser mais inteligentes e centradas nas pessoas. O presidente do conselho, Kita Xavier, destaca que o sistema aproxima a construção civil de um modelo em que eficiência, sustentabilidade e qualidade de vida dividem o mesmo protagonismo.
Reconhecimento da arquitetura e da engenharia
O impacto do Park Haus ultrapassa o universo local de Florianópolis. A presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR), Patrícia Sarquis Herden, fez questão de ver de perto o projeto, viajando da Coreia do Sul até a capital catarinense para conhecer os detalhes da solução. Ela conta que, à primeira vista, imaginou que se tratasse de mais uma proposta de elevador para veículos, tecnologia já conhecida em alguns empreendimentos de alto padrão.
Ao analisar a proposta, porém, Patrícia percebeu que o sistema ia além da simples verticalização da garagem. Em suas palavras, trata-se de uma “autêntica novidade” que “redefine o conceito de morar, priorizando as pessoas”, justamente por incorporar o carro à experiência residencial sem transformá-lo em protagonista absoluto.
Esse olhar da arquitetura reforça uma leitura importante: o estacionamento dentro do apê não é apenas uma solução para quem deseja comodidade, mas também uma forma de repensar a própria tipologia dos edifícios residenciais, integrando circulação, mobilidade e bem-estar no mesmo gesto de projeto.
Mobilidade, segurança e vida cotidiana no mesmo desenho
Na prática, o Park Haus reorganiza diversos momentos do cotidiano. Voltar tarde da noite com compras, crianças e bagagens passa a ser uma experiência mais direta, com menos deslocamentos em áreas comuns. Em dias de chuva, o trajeto entre o carro e o sofá é encurtado, mantendo o morador protegido o tempo todo.
Para famílias com pessoas idosas ou com mobilidade reduzida, a solução reduz degraus, rampas internas e longas esperas em elevadores. Já para quem trabalha em casa, a possibilidade de fazer entregas grandes, receber mobiliário ou equipamentos pesados diretamente ao pavimento simplifica rotinas e diminui riscos.
Ao mesmo tempo, o sistema preserva a ideia de que o carro é um meio e não um fim. Uma vez estacionado, ele se recolhe e abre espaço para uma residência que continua priorizando layout fluido, iluminação natural, integração com varanda e áreas de estar bem resolvidas — pontos que continuam no centro da discussão sobre qualidade arquitetônica.
Tradição e inovação na trajetória da Beco Castelo
Fundada em 1978, a Beco Castelo já entregou 43 empreendimentos, somando mais de 2.200 unidades residenciais e cerca de 350 mil metros quadrados construídos. O VGV do último lançamento ultrapassou os R$ 200 milhões, o que mostra uma trajetória consolidada no mercado imobiliário catarinense.
Com o Park Haus, a empresa dá um passo além: em vez de apenas seguir tendências, decide criar um sistema próprio, patenteado, capaz de influenciar novos modelos de empreendimentos no país. Ao investir R$ 1,1 bilhão em edificações que adotam o estacionamento dentro do apartamento, a construtora sinaliza uma aposta ousada em um estilo de morar que mistura mobilidade, conforto e inovação arquitetônica.
Assim, mais do que um novo produto imobiliário, o conceito se apresenta como um laboratório de futuro: um edifício que testa, na escala da moradia, como as cidades podem integrar carro, casa e bem-estar sem abrir mão de segurança, eficiência e desenho contemporâneo.





