Nem sempre a escolha mais visível em um projeto é a que recebe maior atenção — e esse é justamente o erro mais comum quando o assunto são esquadrias. Durante uma obra ou reforma, muitos focam em revestimentos e mobiliário, mas esquecem que portas e janelas são responsáveis por definir luz, ventilação, conforto térmico e até a forma como o espaço é percebido visualmente.
Na prática, a esquadria funciona como a interface entre interior e exterior. É ela que controla a entrada de luminosidade, regula a circulação de ar e determina o nível de isolamento acústico. Assim, muito além de fechar vãos, esses elementos participam ativamente da experiência de morar — influenciando desde a temperatura dos ambientes até a sensação de amplitude.
O papel das esquadrias no desempenho da casa
Em projetos contemporâneos, percebemos uma mudança clara: as esquadrias na arquitetura residencial deixaram de ser apenas componentes técnicos para se tornarem protagonistas da composição estética. Grandes panos de vidro, perfis mais delgados e integrações com áreas externas mostram como elas moldam a relação entre casa e paisagem.

O que realmente faz diferença é entender que cada decisão interfere no uso diário do espaço. Uma abertura mal posicionada pode gerar excesso de calor, ruído constante ou ventilação insuficiente. Já uma especificação correta melhora o conforto sem depender tanto de ar-condicionado ou iluminação artificial.
Como explica a arquiteta Patrícia Pomerantzeff, “a esquadria precisa ser pensada junto com o projeto arquitetônico, porque ela determina como a luz entra e como o ambiente respira ao longo do dia”. Ou seja, não se trata apenas de escolher um modelo bonito, mas de prever o comportamento da casa ao longo das estações.
Materiais de esquadrias: estética e desempenho caminham juntos
A escolha do material costuma gerar dúvidas porque cada opção responde de maneira diferente ao clima, ao estilo do projeto e à manutenção necessária.

O alumínio permanece como um dos materiais mais utilizados justamente pela versatilidade. Leve e resistente à corrosão, adapta-se bem a projetos contemporâneos e exige pouca manutenção. Perfis mais finos permitem maiores áreas envidraçadas, favorecendo iluminação natural e integração visual.
Já a esquadria de madeira traz outra leitura espacial. A textura natural aquece o ambiente e cria uma atmosfera mais acolhedora, especialmente em projetos que valorizam materiais orgânicos. Entretanto, exige manutenção periódica. Sem proteção adequada, a umidade e o sol comprometem a durabilidade — detalhe frequentemente ignorado durante a escolha.

O ferro e o aço aparecem em propostas industriais ou em projetos que buscam maior robustez estrutural. Transmitem solidez visual e suportam grandes dimensões, porém pedem pintura anticorrosiva constante, principalmente em regiões úmidas.
Nos últimos anos, o PVC ganhou espaço por oferecer excelente isolamento térmico e acústico. O material não enferruja, não precisa de pintura e apresenta ótimo desempenho energético. O investimento inicial costuma ser maior, mas o custo de manutenção reduzido compensa ao longo do tempo.
Segundo o arquiteto Bruno Bordon, “o erro mais comum é escolher apenas pelo preço inicial. Quando analisamos manutenção e conforto térmico ao longo dos anos, o material mais barato nem sempre é o mais econômico”.
Tipos de abertura: quando a funcionalidade define o projeto
Se o material influencia o desempenho, o sistema de abertura determina a relação do morador com o espaço. Cada modelo responde a necessidades específicas — e ignorar isso compromete o uso cotidiano.
As esquadrias de correr são frequentes em apartamentos e ambientes compactos porque economizam área de circulação. Entretanto, costumam oferecer abertura parcial do vão, o que reduz a ventilação total.

Já as janelas de abrir, apoiadas em dobradiças, permitem maior entrada de ar e facilitam a limpeza, e por isso funcionam muito bem em quartos e áreas onde ventilação cruzada é prioridade.
As versões pivotantes criam impacto arquitetônico imediato e são frequentemente usadas em portas de entrada, valorizando o acesso principal e reforçando a sensação de escala do projeto.

Modelos maxim-ar e basculantes aparecem com frequência em banheiros e áreas de serviço, onde ventilação constante e privacidade são essenciais. Enquanto isso, sistemas camarão ou sanfonados ampliam a integração entre ambientes internos e externos, permitindo aberturas quase totais.
O grande erro aqui é escolher apenas pelo visual, afinal, uma abertura inadequada pode bloquear a circulação de ar ou dificultar o uso diário — algo que só se percebe depois da obra concluída.
Onde cada tipo de esquadria funciona melhor
Nos quartos, o controle de luz e ruído é prioridade e por isso, modelos com venezianas ou persianas integradas ajudam a escurecer o ambiente e melhoram o conforto acústico quando combinados com vedação eficiente.
Na cozinha e na área de serviço, esquadrias de correr costumam funcionar melhor por não interferirem na circulação. Já em banheiros, aberturas superiores garantem ventilação sem comprometer a privacidade. Por outro lado, em salas e varandas, as portas amplas (pivotantes ou camarão) criam continuidade visual e reforçam a sensação de amplitude. É nesse ponto que a esquadria deixa de ser detalhe técnico e passa a atuar como elemento de design.
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Custos e o que realmente deve entrar na conta
O valor das esquadrias varia conforme material, dimensões, ferragens e complexidade da instalação. Porém, analisar apenas o preço de compra costuma gerar decisões equivocadas.
Além do produto, é essencial considerar:
- instalação especializada,
- manutenção ao longo dos anos,
- eficiência térmica e acústica,
- durabilidade em relação ao clima local.
Em regiões litorâneas, por exemplo, a aplicação de tratamentos anticorrosivos não são opcionais, devido a ação da maresia, eles são indispensáveis para evitar substituições precoces.
Manutenção: o detalhe que prolonga a vida útil
Pouca gente comenta, mas a durabilidade das esquadrias depende mais da manutenção do que do material em si. Trilhos acumulam sujeira, borrachas ressecam e ferragens perdem eficiência quando não recebem cuidados básicos.
Limpeza com produtos neutros, inspeção periódica das vedações e lubrificação dos mecanismos evitam infiltrações e garantem funcionamento suave. Uma dica prática — quase sempre ignorada — é observar como a luz bate nas esquadrias durante o dia: o excesso de sol direto costuma indicar necessidade de proteção adicional ou revisão do acabamento.





