Nem sempre uma carreira no mercado imobiliário começa dentro de um escritório de arquitetura ou de uma construtora tradicional. Em muitos casos, ela nasce da necessidade — e é justamente essa origem que muda a forma de enxergar o morar, o consumo e o próprio desenho das cidades.
A trajetória do engenheiro Washington Vasconcelos mostra como experiências pessoais podem moldar decisões empresariais capazes de influenciar diretamente a produção habitacional contemporânea. Filho de trabalhadores da zona leste de São Paulo, ele viveu ainda jovem uma situação que marcaria sua relação com o mercado imobiliário: o despejo da própria família após a perda da renda principal da casa. Décadas depois, tornou-se fundador de uma incorporadora responsável por centenas de apartamentos e um faturamento anual próximo dos R$ 100 milhões.
Mais do que uma história de superação individual, o caso ajuda a entender uma transformação silenciosa no setor da incorporação imobiliária, especialmente nas regiões periféricas das grandes capitais brasileiras.
Quando a experiência pessoal muda a visão sobre moradia
A relação de Vasconcelos com vendas começou antes mesmo da vida profissional. Observando a mãe negociar produtos para complementar o orçamento doméstico, ele aprendeu conceitos básicos de margem, giro e percepção de valor — elementos que hoje são centrais no funcionamento do mercado imobiliário contemporâneo.
Esse aprendizado informal acabou influenciando uma leitura diferente sobre habitação. Enquanto grandes incorporadoras tradicionalmente focavam regiões centrais, ele passou a observar a zona leste paulistana sob outro ponto de vista: não como área secundária, mas como território de demanda reprimida.
O que realmente faz diferença nesse tipo de leitura é compreender que o comprador não busca apenas metragem ou acabamento. Ele procura previsibilidade financeira e sensação de conquista — dois fatores frequentemente ignorados em projetos excessivamente padronizados.
Assim, o negócio começou a ganhar forma a partir de uma lógica simples: produzir unidades compatíveis com a realidade econômica local, mas sem abrir mão da percepção de valorização urbana.
Da venda informal à mentalidade de escala
Antes de entrar definitivamente no setor imobiliário, o empreendedor experimentou o comércio de varejo em pequena escala. Um investimento inicial modesto em roupas íntimas revelou algo decisivo: o crescimento não vinha apenas da venda direta, mas da capacidade de multiplicar vendedores.
Essa lógica de escala — comum no varejo — mais tarde seria aplicada ao lançamento de empreendimentos residenciais. Em vez de depender exclusivamente de imobiliárias tradicionais, ele estruturou redes próprias de corretores e equipes comerciais, ampliando rapidamente o alcance dos lançamentos.
No mercado de construção civil, onde o tempo entre investimento e retorno costuma ser longo, acelerar vendas significa reduzir riscos financeiros. Foi justamente essa estratégia que permitiu viabilizar o primeiro prédio quando surgiu a oportunidade inesperada de assumir um terreno cujo incorporador original desistiu do projeto.
O grande erro nesse momento teria sido esperar condições ideais. Em vez disso, a decisão foi agir rapidamente e transformar a pressão financeira em estratégia comercial.
O nascimento da incorporadora e a leitura do território urbano
A criação da incorporadora Yonder, em 2020, coincidiu com um período de mudanças importantes no comportamento imobiliário. Apartamentos compactos, boa localização e valores mais acessíveis passaram a ganhar força, especialmente em bairros com infraestrutura consolidada, mas ainda subvalorizados.

A empresa concentrou atuação justamente nesse cenário. Em poucos anos, foram construídas centenas de unidades residenciais, com projetos variando de studios a apartamentos maiores, atendendo diferentes perfis familiares.
Percebe-se aqui uma tendência clara do design urbano contemporâneo: empreendimentos deixam de ser apenas edifícios isolados e passam a funcionar como peças de reorganização do bairro. Pequenos comércios, serviços próximos e mobilidade acessível tornam-se parte da estratégia de valorização.
Dessa forma, arquitetura e negócio passam a caminhar juntos. O produto imobiliário deixa de ser apenas construção e passa a ser experiência urbana.
Estratégia de vendas aplicada ao mercado imobiliário
Um dos pontos mais curiosos da trajetória está na forma como técnicas comerciais foram adaptadas à venda de imóveis — um setor tradicionalmente mais conservador.
Em vez de apostar apenas em anúncios ou visitas espontâneas, a estratégia priorizou presença física no bairro, contato direto com moradores e criação de senso de oportunidade. A lógica parte de um princípio conhecido no comportamento do consumidor: pessoas reagem mais ao medo de perder uma oportunidade do que à promessa de ganho.
Essa abordagem influenciou inclusive o desenho dos espaços comerciais. Centrais de vendas com salas envidraçadas, por exemplo, permitem que novos clientes observem negociações acontecendo, criando percepção de movimento e demanda real.
Na prática, o ambiente arquitetônico também passa a ser ferramenta de venda — algo cada vez mais comum em lançamentos imobiliários atuais.
Diversificação e o conceito de ecossistema imobiliário
Com o crescimento da incorporadora, o modelo evoluiu para algo maior: um ecossistema integrado de negócios ligados ao morar. Marcenaria planejada, imobiliária própria, construção, comércio e serviços passaram a funcionar de maneira complementar.
Essa estratégia acompanha uma tendência global do setor: empresas deixam de vender apenas imóveis e passam a oferecer soluções completas de habitação. Quem compra um apartamento geralmente precisa de móveis, serviços e infraestrutura — antecipar essa jornada aumenta o valor percebido do empreendimento.
Além disso, terrenos ainda não construídos passaram a ser utilizados temporariamente como estacionamentos, gerando receita antes mesmo do início das obras. Trata-se de uma leitura urbana inteligente, que transforma espaços ociosos em ativos produtivos.





