Em um momento em que o excesso de estímulos digitais e a aceleração da rotina impactam diretamente o nosso estado emocional, a casa deixou de ser apenas um espaço funcional. Ela passou a exercer um papel ativo no equilíbrio mental. É nesse contexto que surge o Earthy Vibrancy, uma tendência de decoração que combina materiais naturais, tons terrosos e cores vibrantes estratégicas para criar ambientes restauradores.
Mais do que estética, trata-se de um posicionamento: transformar os interiores em refúgios sensoriais. A proposta não é minimalista no sentido frio da palavra, tampouco maximalista em exagero cromático. Ela equilibra base neutra e estímulos pontuais — e é justamente aí que mora sua força.
Como explica Mariana Santiloni, Head of Client Success da WGSN, “O Earthy Vibrancy cria uma atmosfera acolhedora, sensorial e cheia de vida. Os espaços transmitem calma por meio dos tons naturais, enquanto os pontos vibrantes adicionam energia e dinamismo”.
A base: tons terrosos que estabilizam o olhar
A estrutura cromática do Earthy Vibrancy parte de uma paleta de baixa refletância. Estamos falando de ocres, siena, terracota, areia, bege quente e cinzas amadeirados. Essas cores absorvem luz em vez de refletir intensamente, o que reduz o ofuscamento e promove conforto visual.

Segundo Loyde Abreu, professora da FAU Mackenzie, “A paleta utiliza tons terrosos de baixa refletância para estabilidade, enquanto os acentos vibrantes funcionam como estímulos dopaminérgicos em pontos focais”.
Essa observação revela algo essencial: o estilo não busca apenas beleza, mas resposta neuroemocional. Ambientes muito claros ou monocromáticos podem gerar fadiga visual. Por outro lado, excesso de contraste eleva a tensão. O Earthy Vibrancy atua justamente no meio-termo.
Aplicação prática:
- Paredes em terracota suave ou areia quente
- Estofados em linho bege
- Tapetes artesanais com textura natural
- Cortinas de fibras orgânicas que filtram a luz
O resultado é uma base que acolhe, desacelera e prepara o olhar para os próximos estímulos.
O contraste estratégico: cores que energizam sem agitar
A “vibração” do Earthy Vibrancy não vem do exagero, mas do contraste calculado. Almofadas em verde oliva, objetos em azul profundo, cerâmicas em vermelho oxidado ou um sofá em verde musgo inserido em um cenário neutro criam pontos de interesse.

Loyde explica que “a vibração nasce do contraste estratégico entre neutros e acentos quentes, que mantêm o cérebro engajado sem elevar o estresse”.
Isso significa que o uso da cor não deve dominar o espaço. Ele deve ser pontual — quase como uma pausa rítmica na composição.
Na sala de estar, por exemplo:
- Um sofá em madeira clara com almofadas azul densas
- Um quadro com pinceladas avermelhadas
- Um tapete texturizado com fios naturais e fios coloridos discretos
Assim, o ambiente permanece equilibrado, mas nunca monótono.
Materialidade honesta: a força dos elementos naturais
Outro pilar do Earthy Vibrancy é a escolha consciente dos materiais. Madeira, pedra natural, cerâmica artesanal, fibras vegetais, metais patinados e vidro reciclado aparecem não como ornamento, mas como linguagem. Granito bruto na bancada, marcenaria em freijó, objetos de barro, mantas de lã e pisos em pedra natural reforçam a conexão com a natureza.
Mariana destaca que “há valorização da sustentabilidade, do uso de materiais naturais e da autenticidade nos ambientes”. Essa autenticidade não é apenas estética. Ela comunica permanência, qualidade e responsabilidade ambiental. Além disso, texturas naturais estimulam o tato, ampliando a experiência sensorial do espaço.
Formas orgânicas: o desenho que reduz tensão
Se a paleta estabiliza e a cor energiza, as formas orgânicas completam a equação. Mobiliário de linhas curvas, mesas com bordas arredondadas, poltronas envolventes e layouts fluidos reduzem a sensação de rigidez espacial.

Loyde observa que “formas sinuosas facilitam o fluxo e reduzem a percepção de ameaça cognitiva provocada por ângulos retos agressivos”.
Isso explica por que ambientes com muitas quinas aparentes podem parecer visualmente tensos. Já as curvas remetem à natureza — e, inconscientemente, o cérebro as interpreta como mais seguras.
Iluminação dinâmica: respeitando o ciclo biológico
A iluminação no Earthy Vibrancy acompanha o ritmo do dia. Durante o período ativo, luz branca neutra nas áreas de foco. À noite, transição para iluminação amarelada nas áreas de descanso.
“A mudança cromática respeita o ciclo biológico, favorecendo a produção de melatonina e garantindo restauração física”, aponta Loyde.
Cortinas de linho e fibras naturais ajudam a filtrar a luz natural durante o dia, criando jogos de sombra suaves. À noite, luminárias de mesa e arandelas com temperatura mais quente reforçam o clima de acolhimento.
Como aplicar o Earthy Vibrancy em cada ambiente

Na sala de estar, priorize madeira clara, estofados neutros e um ponto vibrante bem definido.
No quarto, cabeceira estofada em terracota, roupa de cama em algodão natural e iluminação quente criam atmosfera restauradora.
Na cozinha, bancadas de pedra natural contrastam com marcenaria verde profundo ou azul acinzentado.
No banheiro, cerâmicas artesanais e metais envelhecidos adicionam textura sem pesar.
Dica Enfeite Decora: “A regra é simples: base natural + contraste pontual + textura autêntica”.
Earthy Vibrancy é tendência ou novo padrão?
O que diferencia o Earthy Vibrancy de outras tendências é sua fundamentação emocional. Ele surge em um momento em que a arquitetura deixa de ser apenas funcional para atuar como ferramenta de saúde mental.
Não se trata apenas de estética 2026. Trata-se de uma nova consciência sobre como os espaços afetam comportamento, produtividade e bem-estar. E talvez seja exatamente isso que explica sua força.





