Não é todo festival que consegue, aos 15 anos, ampliar o próprio escopo sem perder o fio condutor. A DW! Semana de Design de São Paulo, que ocorre entre 5 e 22 de março, chega à edição comemorativa com o tema Legado Criativo e coloca no centro do debate uma pergunta que atravessa toda a programação: o que o design brasileiro deixa para trás — e o que ele carrega para o futuro?
Com oito distritos físicos espalhados pela capital paulista, cerca de 1.500 criativos, 150 marcas e mais de 400 atividades — majoritariamente gratuitas —, o festival transforma São Paulo em um laboratório vivo de design de interiores, arte, arquitetura e cultura material. A seguir, os destaques de instalações e mostras do circuito que valem a visita.
Ressignificar como conceito e produto: a mostra da by Kamy
Há algo de preciso na escolha do verbo “ressignificar” como mote de uma exposição têxtil. A by Kamy não usa a palavra como adorno — usa como método. A mostra convida os artistas Noemí Carpu, Carina Camargo, Lucie Socrate, Ju Amora e Rodolpho Guttierrez para refletirem sobre pausa, silêncio e desaceleração por meio de peças autorais que reutilizam fragmentos têxteis do ateliê da by Kamy Verde (BKV).
O grande diferencial está na materialidade: os tapetes da marca são produzidos em nylon com o fio EcoNyl®, desenvolvido a partir de redes de pesca descartadas e regeneradas. Noemí Carpu, em especial, traz uma investigação sobre o corpo feminino como território moldado por normas aprendidas — e o tecido, aqui, é tanto suporte quanto discurso.
Serragem nas Veias: quando a história familiar vira linguagem visual
A Florense apresenta uma das mostras mais afetivas do circuito. Serragem nas veias parte da memória da família fundadora da marca para construir uma narrativa sobre legado, continuidade e afeto. O coração ocupa o centro simbólico da instalação, com tecidos que se expandem como veias condutoras de vida — uma metáfora direta e bem resolvida entre matéria e memória.
Para quem acompanha o design de mobiliário planejado brasileiro, a Florense é uma referência histórica. Ver a marca traduzir sua própria trajetória em linguagem expositiva é um gesto que vai além do institucional.
Casa Brasileira: 14 designers, uma identidade em construção
Na Boobam de Pinheiros, a mostra Casa Brasileira reúne lançamentos de 14 designers de diferentes regiões do país — entre eles A’Iune, Barbara d’Avila, Bekka Studio, Dengô, Ellis Monteiro, Felipe Madeira, Oslo Design e Vinicius Siega, entre outros. O recorte é claro: design nacional contemporâneo que experimenta com formas e materiais a partir de uma perspectiva de identidade brasileira.
O grande valor da mostra está na diversidade geográfica da seleção. Não é um olhar concentrado no eixo Rio-São Paulo, mas uma varredura da produção criativa espalhada pelo Brasil — o que, por si só, já é uma declaração de intenção alinhada ao tema do festival.
A Design Journey: Marcel Wanders reinventa o banheiro como sala de estar
Uma das presenças internacionais mais comentadas da edição é a instalação da Laufen, idealizada pelo designer holandês Marcel Wanders. A proposta é direta: transformar bacias sanitárias, banheiras e metais nos protagonistas de uma sala de estar inesperada, reposicionando o olhar sobre o espaço mais íntimo da casa.
“O cotidiano ganha novas camadas de significado quando deslocamos os objetos do seu contexto habitual”, sintetiza a proposta da experiência imersiva. Wanders, reconhecido por seu repertório que mistura narrativa, artesanato e tecnologia, entrega aqui uma leitura provocadora sobre os limites entre os cômodos — e sobre como a linguagem dos metais e louças sanitárias pode carregar sofisticação quando tratada como mobiliário.
Mutualismos: arte, tecnologia e interdependência contemporânea
Com curadoria de Fernando Velázquez e Lucas Bambozzi, do coletivo MOOLA, a mostra Mutualismos na Estar Móveis é uma das propostas mais densas do circuito. Quinze artistas e coletivos de projeção internacional — entre eles Alÿs, Eder Santos e Raquel Kogan — ocupam o espaço para discutir as redes de interdependência que estruturam a vida contemporânea.
“A exposição parte de uma reflexão sobre como os sistemas vivos — biológicos, sociais, tecnológicos — se sustentam através de trocas mútuas. O design, nesse contexto, deixa de ser apenas estético para se tornar relacional”, explica Velázquez sobre o conceito que norteia a seleção das obras. A interseção entre arte contemporânea, design e tecnologia raramente é explorada com essa profundidade dentro de um festival de design — o que torna a visita obrigatória para quem acompanha o campo além da superfície.
Brasil com S: um manifesto de sofisticação genuína
A 789 Design apresenta Brasil com S — Terras Raras como um manifesto. A instalação defende que a sofisticação nasce do que é genuíno — das formas orgânicas, dos materiais naturais e da presença do mármore nacional como protagonista. A reapropriação da matéria e da cultura brasileira é tratada como ato político tanto quanto estético.
O grande acerto do projeto está em recusar a cópia de referências externas para celebrar o que o Brasil tem de singular. Aliás, é exatamente esse movimento que o tema Legado Criativo do festival convida a fazer.
Impermanência: processo criativo fora das lógicas comerciais
Em duas casas geminadas dos anos 1940 em Pinheiros, a mostra Impermanência reúne 63 criativos em torno de uma premissa que soa quase filosófica: “Nada novo debaixo do sol: sempre a mesma coisa, só que agora diferente.” Idealizada por Francio de Holanda, Paulo Goldstein, Antonia Almeida e outros quatro colaboradores, a iniciativa retorna à DW! com uma proposta de continuidade narrativa.
O que distingue a Impermanência de outras mostras do circuito é o recorte: ela existe fora das lógicas comerciais tradicionais, valorizando o design autoral, o experimento e a investigação do processo criativo. As duas casas históricas funcionam, elas mesmas, como parte da curadoria — a arquitetura dos anos 1940 em Pinheiros dialoga diretamente com o tema da reinvenção.
Espaço de Transição: Kohler repensa sua linguagem no Brasil
Assinada pela organização criativa VERSA, a instalação da Kohler parte de três elementos estruturantes — pedra, camadas e o fluxo da água — para materializar um momento de amadurecimento da marca no país. A flagship serve de cenário para uma reorganização de linguagem, experiência e posicionamento.
Para quem trabalha com projetos de banheiro e arquitetura de interiores, a leitura da instalação vai além da estética: é um exercício de como uma marca de louças e metais pode construir narrativa visual sem recorrer ao catálogo.
Raízes em Permanência: ancestralidade como estrutura viva do design
Na Praça da República, no Centro Histórico de São Paulo, a mostra idealizada por Michele Wharton reúne mais de 25 artistas afro-latinos e indígenas para demonstrar que a ancestralidade não é passado — é estrutura viva do design contemporâneo brasileiro. O formato híbrido entre exposição e pop-store combina arte contemporânea, cerâmica, escultura têxtil, mobiliário, joalheria autoral e vestuário, além de rodas de conversa que aprofundam os temas abordados pelas obras.
Raízes em Permanência — Ancestralidade como Futuro Coletivo é, talvez, a mostra que melhor traduz o que o tema Legado Criativo pode significar quando levado a sério: não como nostalgia, mas como fundação para o que ainda será construído.
