O grande erro ao pensar a distância da TV e do sofá é tratá-la como uma regra genérica, copiada de tabelas prontas ou replicada sem leitura do espaço. Em projetos de interiores bem resolvidos, essa relação não nasce de um número fixo, mas de um conjunto de decisões técnicas que envolvem tamanho da tela, altura de instalação, campo de visão e, sobretudo, a forma como as pessoas realmente usam a sala.
É justamente nesse ponto que o projeto deixa de ser apenas estético e passa a ser funcional. Uma sala visualmente bonita, mas que exige esforço para enxergar a tv ou postura desconfortável, falha em sua função básica: acolher.
Aliás, não é raro encontrar ambientes amplos onde a TV está distante demais do sofá, criando uma sensação de desconexão, ou salas compactas em que a tela domina o campo visual, tornando o uso cansativo. Em ambos os casos, o problema não está no tamanho da sala, mas na falta de critério técnico.
Proporção, não metragem fixa
A distância ideal entre a TV e o sofá começa no tamanho da tela, mas não termina nele. Telas maiores permitem distâncias maiores sem prejuízo visual, enquanto modelos menores exigem aproximação. Contudo, essa conta precisa considerar também a resolução do equipamento e a altura em que a TV será instalada.
Nesse sentido, o arquiteto Bruno Moraes resume bem esse cuidado técnico ao afirmar que “a relação entre a distância da TV e o sofá é um dos pontos técnicos mais relevantes no desenho da área de estar. Mais do que uma medida fixa, ela deve considerar o tamanho da tela, a altura de instalação e a dinâmica de uso do ambiente, garantindo conforto visual e uma experiência adequada no dia a dia”.
Perceba que o foco não está apenas em ver a tela, mas em ver sem esforço. O campo de visão precisa ser natural, com a linha dos olhos levemente direcionada ao centro da imagem, evitando inclinações excessivas do pescoço ou da cabeça. Dessa forma, o conforto visual se mantém mesmo em longos períodos de uso.
Ergonomia e campo de visão: onde muitos projetos falham
Outro equívoco recorrente é ignorar a ergonomia do sofá na definição da distância. Sofás mais profundos, por exemplo, recuam naturalmente o corpo, aumentando a distância real do espectador em relação à tela. Já modelos mais compactos aproximam o usuário, mesmo que o móvel esteja na mesma posição no layout.
Consequentemente, a distância deve ser pensada a partir da posição real dos olhos, e não apenas do encosto ou da parede onde o sofá está apoiado. Esse detalhe muda completamente a percepção do ambiente.
Nos projetos bem planejados, essa relação é ajustada para evitar fadiga ocular e preservar a postura. Como destaca Bruno Moraes, “o posicionamento do sofá respeita o campo de visão ideal, enquanto o painel de TV é integrado à marcenaria de forma proporcional, mantendo equilíbrio entre funcionalidade e leitura espacial”. Aqui, o painel deixa de ser apenas um suporte e passa a atuar como elemento organizador da sala.
Marcenaria, painel e leitura do espaço
A distância da TV e do sofá também influencia diretamente o desenho da marcenaria. Painéis muito robustos em salas pequenas tendem a achatar o espaço, enquanto soluções mais leves, com recuos e nichos bem dimensionados, ajudam a manter a profundidade visual mesmo quando a distância é reduzida.
Além disso, integrar a TV à marcenaria permite esconder cabos, organizar equipamentos e controlar a proporção do conjunto, evitando que a tela “flutue” sem relação com o restante do ambiente. O que realmente faz a diferença é quando o painel dialoga com o sofá, com a iluminação e com os fluxos de circulação.
Cuidado, portanto, com o excesso de informação visual atrás da TV. Texturas muito marcadas ou cores contrastantes tendem a competir com a imagem, especialmente quando a distância é menor. Em salas de estar, menos estímulo ao redor da tela costuma resultar em mais conforto.
Dica de ouro: teste antes de fixar. Um detalhe que poucos contam, mas que faz toda a diferença, é testar a distância entre a TV e o sofá antes da instalação definitiva. Posicionar temporariamente a tela, sentar no sofá em diferentes horários do dia e observar como a luz natural interfere na imagem ajuda a evitar erros irreversíveis.
Além disso, vale simular o uso real: assistir a um filme, acompanhar um jogo ou até navegar em menus. Se, após alguns minutos, o corpo pede ajustes ou os olhos cansam, algo está fora do ponto. Ajustar nessa fase é simples; corrigir depois de a marcenaria pronta costuma ser caro e limitado.
Conforto visual é projeto bem feito
No fim, acertar a distância da TV e do sofá não é sobre seguir uma fórmula rígida, mas sobre entender o espaço, o usuário e a rotina. É esse cuidado técnico, quase invisível, que diferencia uma sala apenas bonita de um ambiente realmente confortável.
Quando proporção, ergonomia e leitura espacial caminham juntas, o resultado aparece no uso diário — sem esforço, sem desconforto e sem aquela sensação de que “algo não funciona”, mesmo quando tudo parece esteticamente correto.





