Nem toda inovação nasce da tecnologia de ponta. Às vezes, ela brota do solo. Ao observar o crescimento silencioso das plantas, a designer britânica Zena Holloway encontrou não apenas matéria-prima, mas uma nova linguagem estética para o design sustentável. Em vez de recorrer a processos industriais ou materiais sintéticos, ela permite que as próprias raízes definam forma, textura e estrutura de suas criações.
O resultado são peças decorativas ecológicas, esculturas e luminárias que parecem emergir do oceano ou de florestas ancestrais. Contudo, por trás da beleza orgânica, existe uma pesquisa minuciosa sobre biodesign, materiais regenerativos e economia circular.
Do fundo do mar ao biodesign com raízes de plantas
Antes de fundar o estúdio Rootfull, Zena construiu sua carreira como fotógrafa subaquática. Foram mais de duas décadas registrando o universo marinho — e, inevitavelmente, documentando também sua degradação. Assim, a urgência ambiental deixou de ser apenas um tema estético e tornou-se motor criativo.

A transição começou de maneira experimental. Em seu próprio porão, ela montou um espaço para estudar micélio — rede subterrânea de fibras que funciona como cola biológica. Entretanto, o verdadeiro ponto de virada aconteceu ao observar as raízes de um salgueiro à margem de um rio. Ali surgiu a pergunta decisiva: seria possível conduzir o crescimento radicular para criar um material ecológico e biodegradável?
Essa inquietação deu origem ao método que hoje caracteriza seu trabalho.
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O processo: quando a natureza assume o papel de designer
A base da técnica é simples, porém engenhosa. Sementes de trigo são plantadas em moldes de cera de abelha — muitos deles desenvolvidos com apoio de impressão 3D. Durante cerca de duas semanas, as raízes crescem e se entrelaçam, formando uma malha densa e resistente.
Ao contrário de um tecido industrial, aqui não há fios artificiais. As raízes funcionam como um tear vivo, expandindo-se, torcendo-se e preenchendo vazios conforme encontram resistência no molde. O material resultante é biodegradável, neutro em carbono e livre de plásticos.
Como a própria designer descreve:
“As raízes crescem para baixo, sempre mudando e se adaptando ao ambiente. Elas encontram os espaços nos moldes de cera e preenchem os vazios.”
Esse comportamento orgânico garante que cada peça seja única. Não existe repetição absoluta — a natureza imprime sua assinatura.
Estética orgânica e inspiração marinha
Visualmente, as obras remetem a águas-vivas, corais e organismos suspensos no oceano. A porosidade do material permite absorver corantes naturais, criando tons terrosos, profundos e sofisticados.

Na série Medusa, por exemplo, pigmentos extraídos de plantas resultam em tapeçarias etéreas que parecem flutuar. Entretanto, o impacto vai além da estética. O processo produtivo reaproveita água da chuva, utiliza materiais locais e reintegra resíduos ao ciclo natural.
Em um cenário onde a indústria da decoração ainda depende amplamente de polímeros e resinas sintéticas, esse método surge como alternativa concreta.
Raízes como alerta poético sobre sustentabilidade
O trabalho da designer britânica que usa raízes de plantas não é apenas experimental. Ele aponta para uma mudança de mentalidade no design ecológico contemporâneo.
Segundo o arquiteto Kengo Kuma:
“As telas leves permitem que a luz e o ar circulem, criando equilíbrio entre dentro e fora.”
Embora ele se refira tradicionalmente às estruturas japonesas, o princípio se aplica aqui: materiais naturais podem redefinir nossa relação com o espaço.
Da mesma forma, a arquiteta Juliana Pippi observa que estruturas leves e orgânicas convidam à desaceleração e ao equilíbrio entre natureza e arquitetura. Essa reflexão ecoa no trabalho de Zena: suas peças não impõem presença; elas dialogam com o ambiente.
O futuro das peças decorativas ecológicas
A pesquisa com sistemas radiculares abre novas possibilidades para o design de interiores sustentável. As raízes se comportam de maneira distinta conforme o molde, permitindo desde estruturas densas e escultóricas até superfícies delicadas semelhantes a rendas naturais.
Além disso, o método elimina o uso de derivados de origem animal e reduz drasticamente a pegada de carbono. Em um mercado cada vez mais atento a materiais regenerativos, esse tipo de inovação aponta para um futuro em que a natureza deixa de ser recurso explorado e passa a ser colaboradora.
Assim, a obra não é apenas um objeto decorativo. É um manifesto silencioso sobre como podemos produzir — e habitar — de forma mais consciente.





