É difícil caminhar pelas ruas de São Paulo sem notar a quantidade de prédios sendo erguidos. Das regiões periféricas aos grandes eixos financeiros, os canteiros de obra fazem parte da paisagem. O mesmo movimento se repete em boa parte das capitais brasileiras — e os números confirmam o que os olhos já enxergam.
No terceiro trimestre de 2025, a construção civil acumulava alta de 1,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). Em 2024, o setor fechou com crescimento de 4,3% e um PIB setorial acima de R$ 359 bilhões, superando as próprias projeções da entidade. O desempenho se explica pelo dinamismo da economia, pela movimentação no mercado de trabalho e, sobretudo, pela retomada das obras do programa Minha Casa, Minha Vida. O que diferencia o Brasil do restante do mundo, porém, vai além do volume de obras.
O diferencial que coloca o Brasil à frente
Enquanto a construção civil responde por até 40% das emissões de carbono em países desenvolvidos, no Brasil esse índice cai para 5,3% das emissões nacionais. O dado, levantado pela ABRAINC em parceria com a consultoria Deep ESG, revela uma vantagem estrutural que começa antes mesmo de qualquer decisão de projeto.
“Essa vantagem competitiva é sustentada por fatores estruturais, como uma matriz elétrica majoritariamente renovável e condições climáticas favoráveis que reduzem a necessidade de sistemas de calefação”, explica Luiz França, presidente da Associação Brasileira de Incorporadoras.
A questão, segundo França, não é mais comprovar que o Brasil parte de um ponto melhor que os demais — isso já está dado. O desafio atual é converter essa posição em uma estratégia industrial de baixo carbono que envolva toda a cadeia produtiva, do fornecedor de cimento ao incorporador que assina o projeto. Afinal, de nada adianta usar concreto com menor pegada de carbono se o edifício ignora infraestrutura para energia solar ou reuso de água pluvial.
O setor também carrega uma dimensão social que não pode ser ignorada. Com um déficit habitacional de 6 milhões de moradias no país, crescer não é apenas estratégia de negócio — é resposta a uma necessidade real. E, no Brasil, essa expansão encontra um ambiente técnico propício para ocorrer com baixa intensidade de emissões.
Mais obras, menos carbono por metro quadrado
O grande erro seria imaginar que crescer em volume e reduzir impacto são objetivos opostos. As maiores construtoras do país estão provando o contrário — com dados auditados.
A Tegra lançou 36 novos empreendimentos e entregou outros 50 entre 2021 e 2025. No mesmo período, a intensidade de carbono por metro quadrado construído caiu cerca de 20%. Em 2020, a emissão média era de 197,31 kg de CO₂ equivalente por m². Em 2024, esse índice chegou a 158,06 kg de CO₂e por m², considerando 179 mil metros quadrados construídos no ano.
“Esse resultado é fruto de um trabalho estruturado de controle, segregação e destinação adequada dos materiais, com monitoramento contínuo nos empreendimentos”, afirma Vitória Damasceno, gerente de sustentabilidade da Tegra.
A MRV apresenta trajetória similar. Com crescimento de 12,7% na produção de unidades habitacionais entre 2024 e 2025, a construtora reduziu a intensidade de emissões por unidade de 5,89 toneladas de CO₂ em 2022 para 3,17 toneladas em 2024. Raphael Lafetá, diretor-executivo de relações institucionais e sustentabilidade da companhia, adianta que os dados de 2025 apontam para uma redução absoluta de 21,78% em relação ao ano anterior.
A lógica que une esses resultados é a mesma: trocar volume por desempenho. “Basta projetar melhor, medir melhor e operar melhor os nossos edifícios”, sintetiza Enzo Tessitore, diretor de operações do Green Building Council Brasil.
O nó da cadeia de valor
Resolver a pegada de carbono de um edifício exige olhar para além das paredes do canteiro. A maior parte das emissões no setor está concentrada no chamado Escopo 3 — aquele que engloba fornecedores, insumos e toda a cadeia produtiva indireta.
Na MRV, das 112,3 mil toneladas de CO₂ equivalente emitidas em 2024, mais de 100 mil estão ligadas à cadeia de valor. “Esses dados refletem o esforço da companhia em reduzir a pegada de carbono com produtos mais sustentáveis e buscar um maior engajamento dos fornecedores com o tema”, conta Lafetá. A construtora mantém um grupo permanente de pesquisa voltado ao desenvolvimento de matérias-primas alternativas para aço e concreto, os dois insumos de maior impacto ambiental no setor.
Na Tegra, o cenário é parecido: cerca de 70% das emissões de 2024 são provenientes de insumos como aço, cimento, concreto e argamassa. A resposta da empresa passa pela priorização de materiais de menor intensidade carbônica e por critérios socioambientais rigorosos na seleção de fornecedores. “Exigimos certificações como FSC para madeira e práticas de logística reversa e reaproveitamento de resíduos”, conta Damasceno. Parcerias com empresas como ArcelorMittal, Portobello e RioMix viabilizam operações concretas de reaproveitamento de aço, embalagens cerâmicas e sacarias de cimento.
A referência de mercado, segundo Nelson Sarti, vice-presidente de meio ambiente e sustentabilidade da CBIC, é que “a emissão média de carbono na construção de edificações no Brasil gira em torno de 220 kg de CO₂ equivalente por metro quadrado construído, um indicador que sustenta a necessidade de ação estruturada para reduzir emissões incorporadas”.
Gestão de resíduos: do canteiro à economia circular
Um canteiro de obras gera resíduos por anos — projetos de médio e grande porte costumam se estender de três a oito anos até a entrega. Controlar esse volume exige muito mais do que um contêiner na entrada da obra.
A Tegra alcançou em 2024 o índice de 88% de resíduos reciclados, resultado de um sistema estruturado de controle, segregação e destinação. A meta da empresa é aumentar em 15% o uso de materiais de fontes renováveis até 2030, dentro de uma lógica de economia circular que começa na escolha dos insumos e não apenas no descarte final.
A MRV gerou 342 mil metros cúbicos de resíduos em 2024 e destinou cerca de 15 mil metros cúbicos para reutilização, doação ou venda. A construtora opera um programa que exige dos canteiros a adoção obrigatória de ao menos três práticas sustentáveis entre quatro opções, como redução de materiais, reaproveitamento de resíduos, logística reversa e uso de materiais reciclados.
O que o morador ganha com tudo isso
Sustentabilidade na construção não é pauta apenas para o mercado corporativo. Quem compra um imóvel sente os efeitos no bolso — ou deixa de senti-los, dependendo das escolhas feitas na fase de projeto.
A Tegra instalou em seus empreendimentos sistemas que entregam 22% de economia no consumo de energia, 48% de redução no uso de água nas áreas comuns e 29% nas unidades autônomas, em comparação a um edifício convencional. Essas reduções não vêm de tecnologias mirabolantes. Medição individualizada, dispositivos economizadores, iluminação LED, melhor desempenho da envoltória para conforto térmico e aproveitamento de ventilação natural são soluções já consolidadas no mercado.
A MRV vai além e oferece, por meio de um marketplace próprio, descontos de até 25% na conta de luz para clientes em 13 estados, fruto de parcerias com empresas de geração distribuída. Em 2024, certificou 23 empreendimentos em critérios de economia de energia, orientação solar e elevadores eficientes — e reaproveitou mais de 1.098 m³ de água nas obras.
O argumento de que construção sustentável encarece o produto final perdeu força. “O que encarece não é a sustentabilidade em si, mas quando essas decisões são feitas de forma tardia. Quando essas estratégias são incluídas no início, isso permite que as equipes integrem arquitetura, engenharia e orçamento de uma forma mais inteligente”, explica Tessitore, do Green Building Council.
A lógica, como ressalta Damasceno, é estruturar o edifício para que o morador tenha custo operacional menor ao longo do tempo — e não apenas um imóvel com selos verdes na fachada. “As certificações são um ponto positivo inclusive em linhas de financiamento com condições mais atrativas oferecidas por instituições financeiras parceiras”, acrescenta.
Metas e o que ainda falta avançar
A MRV tem metas formais: reduzir 28,8% das emissões de Escopo 1 e 2 e 27,5% do Escopo 3 até 2030. Desde 2015, compensa emissões próprias com créditos de carbono. Em 2024, já havia alcançado 25% de redução no Escopo 3 frente ao ano anterior.
A Tegra mira corte de 50% nas emissões de Escopo 1 e 2, redução de 15% nas emissões indiretas e compensação de 110% das emissões residuais.
Os números são expressivos — e o ponto de atenção está nos incentivos. Tessitore observa que, nos países onde as soluções de menor impacto escalam com rapidez, existe uma combinação clara de exigências de desempenho com benefícios fiscais e critérios de financiamento que premiam quem reduz o risco ambiental. “No Brasil isso ainda é mais pontual”, afirma. A ausência de instrumentos econômicos sistemáticos pode manter as ações sustentáveis no nível das iniciativas individuais, em vez de transformar o setor como um todo.
Sarti, da CBIC, reforça que o ciclo de vida é onde a conta fecha. “Quando avaliamos o consumo de energia e água, manutenção, saúde e bem-estar dos ocupantes, há ganhos tangíveis: redução de custos operacionais em médio e longo prazo, valorização patrimonial por desempenho ambiental superior e melhor acesso a financiamentos verdes e incentivos públicos”, aponta.
O Brasil já tem a vantagem estrutural. Tem companhias com metas sérias e resultados auditados. O próximo passo é transformar isso em política setorial — e não apenas em diferenciais de mercado de cada empresa.





