Na teoria estrutural, o ideal é claro: concretar o pilar de uma só vez, garantindo homogeneidade total da peça. Na prática de obra, entretanto, a dinâmica é outra. A alvenaria sobe, o pilar é concretado parcialmente para travamento, depois o restante é finalizado. Assim nasce a chamada junta de concretagem, um ponto que costuma gerar dúvidas — e, muitas vezes, receios desnecessários.
A pergunta direta é inevitável: isso compromete a estrutura?
Junta de concretagem em pilares: problema ou procedimento comum?
Em pilares, a execução em etapas é uma prática relativamente comum. O que realmente determina a segurança não é o fato de haver uma interrupção na concretagem, mas sim como essa interrupção é tratada.
Quando o traço do concreto é mantido, o adensamento é correto e não há presença de material segregado ou “requeimado”, a continuidade estrutural é preservada. Afinal, o pilar continua trabalhando como elemento de compressão, sem prejuízo significativo de desempenho.
Como explica o engenheiro Pietro, da Petrun | Gerenciamento e Engenharia, “em pilares, a junta de concretagem não representa um problema estrutural quando o concreto é bem executado, com adensamento adequado e sem falhas de compactação”.
Ou seja, o risco não está na junta em si, mas na má execução.
O que realmente compromete um pilar
O grande erro aqui é acreditar que o problema está na etapa de concretagem dividida, quando, na verdade, o que compromete a peça estrutural são falhas como:
- adensamento insuficiente
- segregação do concreto
- uso de traço diferente na continuidade
- superfície mal preparada antes da retomada
Se a primeira etapa endureceu, a superfície deve estar limpa e regularizada antes da segunda aplicação. Além disso, o uso do mesmo traço é fundamental para garantir compatibilidade mecânica.
O que realmente faz a diferença é a leitura técnica do momento da obra e não se trata de improviso, mas de decisão fundamentada.
Veja também: Telhado de piaçava na arquitetura: como funciona, quanto dura e quando vale a pena investir
Pilares não são vigas: e isso muda tudo
É importante diferenciar situações. Em pilares, que trabalham predominantemente à compressão, a junta vertical tende a ter menor impacto estrutural quando comparada a elementos como vigas, que sofrem esforços de flexão e cisalhamento mais intensos.
Nesses casos, o cuidado precisa ser redobrado. O ponto de parada deve ser estrategicamente escolhido e, quando necessário, pode-se recorrer ao uso de adesivo estrutural para concreto, garantindo melhor aderência entre as etapas.
Segundo Pietro, “o mundo ideal da engenharia prevê concretagem monolítica, mas o mundo real da obra exige decisão técnica. O importante é que essa decisão seja consciente e bem executada”.
Essa distinção é fundamental, especialmente para quem está construindo ou reformando e busca entender se a obra está dentro de um padrão seguro.
O impacto disso no projeto arquitetônico
Pode parecer um tema puramente estrutural, mas ele dialoga diretamente com o design de interiores e com a arquitetura contemporânea. Afinal, muitos projetos valorizam pilares aparentes, concreto exposto ou elementos estruturais integrados ao décor.
Quando o pilar fica aparente, a junta pode se tornar perceptível visualmente se não houver cuidado na execução. Dessa forma, além da questão estrutural, entra o aspecto estético. O concreto aparente exige planejamento de paginação, uniformidade de cor e controle rigoroso de execução.
Aliás, em projetos que exploram o concreto como linguagem arquitetônica, qualquer falha de adensamento ou diferença de textura se torna evidente sob a luz natural — principalmente no final da tarde, quando o sol rasante revela imperfeições que passariam despercebidas ao meio-dia.
Essa é a Dica de Ouro que pouca gente comenta: se o pilar for aparente, peça para verificar a superfície na luz lateral antes da retirada total das formas. A iluminação revela o que o olhar distraído não vê.
O ideal versus o possível
Na engenharia, existe o cenário ideal e existe a realidade do canteiro. Concretar tudo de uma vez é tecnicamente desejável. Contudo, o cronograma, a logística e a dinâmica da obra muitas vezes impõem etapas.
Isso não significa improviso. Significa adaptação com critério.
Desde que haja controle de qualidade, continuidade de traço e cuidado no adensamento, concretar pilar em mais de uma etapa não é, por si só, um problema estrutural. O problema surge quando a execução é negligenciada.
No fim das contas, mais importante do que seguir uma regra rígida é garantir que a decisão técnica seja tomada com responsabilidade. A estrutura não perdoa descuido, mas também não exige perfeccionismo teórico desconectado da realidade.
Construção não é apenas cálculo. É leitura de contexto, precisão na execução e, sobretudo, respeito à técnica.





