Projetar um lar para mais de uma pessoa nunca é apenas sobre revestimentos, cores ou composição de móveis. Muitas vezes, o que está em jogo é um imaginário afetivo construído ao longo da vida de referências acumuladas, preferências, memórias e certezas estéticas que se tornam quase inegociáveis.
Em um horizonte como esse, conciliar gostos pode parecer, à primeira vista, um missão complicada. Mas a arquiteta Cristiane Schiavoni enxerga um outro atributo que faz completa diferença no trabalho que realiza. “Todo profissional de arquitetura também tem, na verdade, um pouco de psicólogo”, diz ela completando que, antes de abordar escolhas específicas, é preciso compreender o campo emocional.
Ela conta que, geralmente, quando um casal dá início a um projeto, paira no ar a existências de concessões que podem ser dolorosas para as partes. Com suas mais de duas décadas de experiência, a profissional afirma que essa lógica parte de um equívoco. “Não se trata de uma guerra de braços e minha tarefa é descobrir o que existe de comum entre as duas pessoas. E posso afirmar que sempre existe”, diz.
Para Cristiane, essa sintonia não nasce apenas do discurso explícito dos clientes, mas surge também dos silêncios, gestos, reações diante de imagens, materiais e referências. “Muitas divergências estéticas têm raízes que vão além da obra e que se refletem em perfis, hábitos, inseguranças e até desacordos antigos que encontram no projeto um novo palco para aparecer”, explica.
Por isso, ela sempre investe no tato e bom senso para a realização de conversas profundas e uma observação atenta que a ajudarão a descobrir aquilo que realmente une o casal para orientar o projeto.
A ligação entre rústico e o sofisticado
Na reforma de um apartamento com 140 m², Cristiane se viu à frente de dois perfis: enquanto a esposa apontou seu apreço rústico, o emprego de materiais naturais e o crochê, seu marido apresentou uma inclinação mais ligada |à sofisticação e o conforto.

A sala de estar foi a protagonista da discussão entre os dois, já que o sofá e o painel da TV impossibilitavam o reposicionamento dos móveis. A solução para o impasse de delimitar o ambiente foi projetar a estante de serralheria que esconde as costas do sofá e promove sua separação com a varanda.

Arquitetura | Foto: Carlos Piratininga
Cristaleira afetiva no living
Mesmo em um apartamento marcado por cores intensas como o azul e a atmosfera descontraída digna da localização – a praiana Riviera de São Lourenço, no litoral sul de São Paulo –, Cristiane precisou inserir um objeto que acompanhava a moradora desde antes do seu casamento: uma cristaleira antiga e carregada de memórias.

Dentro do décor contemporâneo, ela posicionou o móvel na sala como um elo entre a história pessoal da cliente e o novo momento do casal. “O importante aqui foi mostrar para o esposo como elementos afetivos podem e devem coexistir com propostas atuais”, argumenta.
Apartamento retrô-industrial
No entendimento da arquiteta, o melhor dos mundos é fazer com que inclinações opostas dialoguem e não incorram em conflitos. Para um casal com gostos distintos – ela, apaixonada pela atmosfera retrô que exala delicadezas e ele na expectativa do industrial com seus traços mais rígidos e urbanos.

A saída encontrada por ela foi costurar as duas linguagens sem hierarquia, concebendo um ambiente em que metais, texturas aconchegantes e cores se sintonizam naturalmente. “Agora eles vivem em ambientes em que os contrastes bem conduzidos deixam de ser conflito para se tornarem identidade”, verbaliza.
Varanda com ilha de inox e madeira
Na varanda deste apartamento localizado na capital paulista, o antagonismo também ficou evidentes. De um lado, ele rejeitava qualquer coisa com cara de antigo, quanto ela valorizava o clássico e o rústico.

Para atender os dois lados, a profissional estabeleceu uma solução híbrida: a ilha enaltece o inox que reveste a bancada de trabalho e o aparador de madeira maciça tornou-se o espaço para as refeições rápidas. O viés moderno é prontamente percebido pelos eletros, a churrasqueira e o revestimento 3D aplicado em toda área gourmet.
“A combinação fez cada um se reconhecer no espaço sem abrir mão de suas preferências”, diz.
Mesa rústica com tampo de vidro

A mesma lógica de conciliação seguiu para a sala de jantar. Para a mesa, Cristiane entregou uma peça que sintetiza os dois universos: a base em madeira rústica atende o gosto dela por elementos naturais, enquanto o tampo de vidro revela a linguagem moderna que ele prefere. A peça se tornou o ponto de encontro simbólico dos estilos, reforçando como soluções personalizadas transformam divergências em composição.





