Como a decoração transforma a vida de crianças e adolescentes em abrigos

A atuação da Decor Social mostra como ambientes acolhedores podem impactar a autoestima e o desenvolvimento de jovens em situação de vulnerabilidade

Como a decoração transforma a vida de crianças e adolescentes em abrigos

Mais do que uma questão estética, a decoração pode ser uma poderosa ferramenta de transformação social — especialmente quando aplicada em espaços que acolhem crianças e adolescentes afastados de suas famílias. Essa é a premissa da Decor Social, uma ONG paulistana que, desde 2018, realiza reformas completas em abrigos para jovens em situação de vulnerabilidade, devolvendo a esses espaços não apenas a funcionalidade, mas também o afeto que tantas vezes lhes falta.

Fundada por um grupo de arquitetos e designers liderados por Kátia Perrone, a iniciativa surgiu do incômodo diante de uma realidade crua: muitos dos imóveis que acolhem essas crianças estão degradados, mal iluminados, desorganizados — refletindo o abandono que elas já vivenciaram.

“A ideia vai muito além de deixar os espaços bonitos. A intenção é que tudo fique mais organizado para melhorar a vida das crianças e o serviço dos profissionais dos abrigos”, explica Kátia.

Um projeto de arquitetura com propósito

Com foco exclusivo na cidade de São Paulo, a Decor Social coordena cada obra de forma voluntária e cuidadosa. A ONG escolhe abrigos que estão precisando de reforma, realiza o planejamento da intervenção e convida profissionais — arquitetos, paisagistas, designers — a assumirem a revitalização de cada cômodo, como se fosse uma mostra de decoração.

As reformas priorizam reparos estruturais essenciais, melhorias na iluminação, reorganização dos móveis, pintura, revestimentos e ambientações pensadas para que cada quarto, sala ou brinquedoteca se torne um espaço de acolhimento real. “Não saímos derrubando estruturas. Nosso foco é a revitalização consciente”, explica Kátia.

Um dos momentos mais significativos de cada projeto, segundo ela, é o diálogo com as próprias crianças. A ONG reúne os jovens para ouvir suas ideias, desejos e sonhos sobre o novo lar. E, nesse momento, os adultos precisam apenas ouvir. “Pedimos que os profissionais dos abrigos não interfiram nos pedidos. Queremos que elas expressem suas vontades para que tenham voz e possam sentir que aquele espaço é verdadeiramente delas”, conta.

Decoração como ferramenta de autoestima

O impacto das reformas vai muito além das paredes. Segundo a fundadora da Decor Social, a transformação dos ambientes reverbera diretamente no comportamento, no humor e no vínculo que essas crianças estabelecem com o espaço.

Ela relata que, após a revitalização de uma das casas, o próprio responsável pelo abrigo percebeu a diferença entre os comportamentos dos jovens que estavam no imóvel reformado e os que ainda viviam em uma estrutura antiga. “As crianças ficaram mais tranquilas para acompanhar os estudos e as tarefas do dia a dia”, revela.

Por isso, Kátia é enfática ao afirmar: moradia digna é uma necessidade básica, não um luxo. Um espaço bem pensado, limpo, bonito e iluminado ajuda a criar uma sensação de pertencimento e segurança. E isso, para uma criança em acolhimento institucional, pode ser o primeiro passo para a reconstrução da autoestima.

Um futuro com mais dignidade

Hoje, a ONG Decor Social atua exclusivamente na capital paulista, com o objetivo de reformar seis abrigos por ano. No entanto, já recebeu pedidos de expansão para outras cidades do Brasil. A demanda existe, mas o desafio é grande: além da gestão da obra, é preciso atuar com muita responsabilidade junto às equipes dos abrigos e às crianças acolhidas.

Durante a pandemia, a ONG teve que interromper temporariamente as obras e passou a direcionar seus esforços para campanhas emergenciais. A pausa só reforçou a importância do trabalho. “A quarentena evidenciou como é necessário ter um ambiente agradável, acolhedor e bem iluminado para viver e trabalhar”, diz Kátia.

O futuro da Decor Social caminha para a expansão de impacto. Há o desejo de atender novas instituições e, quem sabe, desenvolver um modelo replicável para que outras cidades também possam oferecer ambientes mais humanos e dignos para suas crianças acolhidas.

  • Cláudio P. Filla é comunicador social e especialista em mídias digitais, com mais de 11 anos de atuação na curadoria de tendências para o mercado de arquitetura e decoração. Como editor-chefe do Enfeite Decora, Cláudio lidera um conselho editorial composto por arquitetos, designers de interiores e paisagistas registrados (CAU/ABD), garantindo que cada artigo combine inspiração visual com rigor técnico e normativo. Sua missão é traduzir o complexo universo da construção e do design em soluções práticas, sustentáveis e acessíveis, sempre sob o respaldo de profissionais renomados do setor brasileiro.

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