Poucos elementos do design de interiores comunicam tanto quanto a forma de um móvel. Quando a inspiração vem da dança, a coisa fica ainda mais interessante. A coleção Ginga, criada pela designer Daniela Ferro, nasce exatamente dessa provocação: traduzir o corpo em movimento, a cadência e a espontaneidade da dança contemporânea brasileira em peças funcionais que habitam a sala de estar sem impor uma única maneira de usá-las.
O resultado é uma coleção composta pelo sofá modular Ginga e por três versões de mesas auxiliares, todas com um traço estético muito claro: a presença da madeira trabalhada em ripas de espessuras distintas, o volume sem pesadez e a lógica de uso que favorece a reorganização conforme a necessidade de quem mora.
A base que define tudo: cumaru e o desenho das ripas
O grande erro em sofás modulares é tratar a base como detalhe secundário e na Ginga, ela é protagonista. A base em madeira maciça de cumaru, com ripas dispostas em espessuras variadas, funciona ao mesmo tempo como elemento estrutural e recurso estético. O ritmo das ripas cria uma cadência visual que remete diretamente à ideia de movimento, aquela mesma sensação de compasso que se percebe numa coreografia bem construída.
O cumaru é uma madeira de alta densidade, resistente e com tonalidade quente, que dialoga bem com paletas neutras e também com ambientes mais ousados. A escolha não é por acaso: além da durabilidade, o material carrega uma identidade genuinamente brasileira, o que reforça o conceito da coleção.
Nos braços e encostos soltos, a lógica de liberdade se materializa de forma prática. Esses elementos podem ser reorganizados conforme a necessidade, transformando o sofá em uma peça que se adapta tanto a uma tarde de leitura individual quanto a uma reunião entre amigos. Aliás, a mesa de apoio integrada ao contorno do sofá resolve um problema cotidiano que muita gente enfrenta sem perceber: onde pousar o café, o livro ou o celular sem precisar de uma mesa separada? A solução está embutida no próprio desenho da peça.
“Quis trazer para a coleção Ginga a fluidez da dança brasileira, mas também a liberdade de uso, como se cada peça tivesse seu próprio ritmo e pudesse se reinventar no espaço. São móveis que não impõem uma forma única de estar, mas acompanham o movimento da casa e das pessoas”, explica a designer Daniela Ferro.
Mesas auxiliares: três versões, um mesmo princípio
A mesa de centro Ginga e as duas mesas laterais expandem a coleção com a mesma coerência de linguagem. Os tampos em madeira trabalhados em ripas de larguras distintas criam um efeito visual dinâmico que, em vez de parecer pesado, comunica leveza. É um daqueles recursos que funcionam porque há cálculo por trás: a variação de espessura gera profundidade sem volume excessivo.
Uma das laterais recebe tampo em chapa de alumínio pintado, numa combinação que vai além da estética. O alumínio traz resistência e praticidade para superfícies de uso intenso, ao mesmo tempo que introduz um contraste sutil com o calor da madeira. Essa mistura de materiais é uma das marcas do design contemporâneo brasileiro mais interessante dos últimos anos: não há conflito entre o natural e o industrial quando o projeto tem clareza de intenção.
O que realmente faz a diferença nas mesas Ginga é o peso. Todas são leves o bastante para serem movimentadas com facilidade, o que permite composições dinâmicas que mudam conforme o dia, o uso ou a vontade. Essa característica, que parece simples, exige precisão no projeto estrutural para garantir estabilidade sem acrescentar massa desnecessária.
- Veja também: Leroy Merlin lança linha de revestimentos assinada pela artista pernambucana Joana Lira
Design que ganha vida no cotidiano
Não é comum que uma coleção de móveis para sala de estar tenha uma narrativa tão definida. A maioria das linhas do mercado se organiza pela estética ou pelo material, raramente pelos dois ao mesmo tempo e com uma ideia central que atravesse cada detalhe. A Ginga funciona porque o conceito da dança não é apenas metáfora de comunicação, ele orienta decisões técnicas concretas: a modularidade do sofá, a leveza das mesas, a variação das ripas, a integração da mesa de apoio.
“Gosto de pensar que o design ganha vida quando se adapta ao cotidiano e cria conexões afetivas”, afirma Daniela Ferro. Essa perspectiva, que coloca o uso cotidiano no centro do processo criativo, é justamente o que diferencia um móvel de design autoral de uma peça que apenas decora.
A versatilidade aqui não é promessa de catálogo. É consequência direta de escolhas projetuais: encostos soltos que se movem, mesas que circulam pelo espaço, tampos que combinam materiais com funções distintas. O morador que convive com a Ginga não precisa adaptar sua rotina ao móvel, o móvel é que acompanha a rotina dele.
