Quem acompanha o mercado de construção civil sabe: não é preciso uma alta generalizada para que o orçamento saia do controle. Basta que alguns insumos estratégicos sofram reajustes relevantes para que o impacto se espalhe por toda a cadeia produtiva.
Foi exatamente esse o cenário dos materiais de construção em 2025. O ano fechou com pressão concentrada em itens-chave como cimento e fio de cobre, segundo o Índice de Preços de Materiais de Construção (IPMC), divulgado pelo Ecossistema Sienge com metodologia da Cica Rev Consultoria e apoio da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).
O dado mais significativo, contudo, não está apenas na alta em si — mas na desigualdade regional que marcou o período.
Sul e Nordeste lideram pressão nos custos da construção civil
A região Sul apresentou o maior avanço nos custos da construção civil em 2025. O fio de cobre acumulou alta de 19,5%, enquanto o cimento registrou aumento de 8,4% no ano. Embora outros insumos, como ferro, tinta e argamassa, tenham mostrado estabilidade ou leve retração, o peso do cobre e do cimento foi suficiente para pressionar o orçamento das obras.
No Nordeste, o cenário foi ainda mais concentrado no cimento. O material acumulou alta de 11,9%, tornando-se o principal vetor inflacionário da região. A argamassa e a tinta, por outro lado, apresentaram recuo, o que ajudou a suavizar parte do impacto.
“Vimos um descolamento preocupante entre câmbio e insumos dolarizados, como o cobre, que subiu mesmo com a queda do dólar. Além disso, produtos comoditizados como o cimento apresentaram variações regionais muito disformes”, afirma José Carlos Martins, presidente do Conselho Consultivo da CBIC.
Esse descolamento revela um ponto crucial: o mercado de materiais de construção não responde apenas ao dólar, mas também à logística, à demanda local e à dinâmica regional de oferta.
Sudeste: equilíbrio em meio às oscilações
No Sudeste, os aumentos foram mais moderados. O cimento e o fio de cobre subiram, mas em intensidade inferior às regiões mais pressionadas. Ao mesmo tempo, houve deflação em itens como ferro, tinta e argamassa.
Esse comportamento mais equilibrado contribuiu para manter relativa estabilidade nos custos das obras na região mais populosa do país, onde a demanda imobiliária costuma ser elevada. A combinação de aumentos pontuais com quedas estratégicas evitou um efeito cascata nos orçamentos.
Norte e Centro-Oeste registram deflação relevante
Se no Sul e no Nordeste a palavra foi pressão, no Norte e no Centro-Oeste o cenário foi de alívio.
No Norte, o cimento recuou 4,46%. Já no Centro-Oeste, o fio de cobre apresentou queda expressiva de 8,77%. O ferro também registrou retração em todas as regiões, com destaque para o Norte, onde o recuo chegou a 18,59%.
Esse movimento reforça que não houve inflação generalizada em 2025. Houve, sim, um redesenho regional dos custos.
“Não houve pressão generalizada de preços em 2025, mas a variação regional foi significativa. Um mesmo insumo pode ter comportamento muito distinto a depender da localização”, explica Gabriela Torres, gerente de Inteligência Estratégica do Ecossistema Sienge.
Por que o cimento pesa tanto no orçamento?
Entre todos os insumos da construção, o cimento ocupa papel estratégico. Ele está presente em fundações, lajes, contrapisos, revestimentos e estruturas. Pequenas variações no preço impactam diretamente o custo final do metro quadrado construído.
Além disso, o IPMC acompanha materiais que podem representar até 55% dos custos totais de uma obra. Isso significa que oscilações pontuais em itens como cimento, argamassa e tinta afetam não apenas grandes empreendimentos, mas também reformas residenciais.
Em projetos de interiores, por exemplo, a alta no cimento influencia diretamente a aplicação de cimento queimado, bases estruturais e regularizações. Já a variação no cobre atinge instalações elétricas, iluminação e sistemas de automação.
O que esperar para 2026?
O comportamento regionalizado de 2025 aponta para uma necessidade cada vez maior de planejamento estratégico nas obras. Assim, construtoras e arquitetos passam a considerar não apenas o preço nacional médio, mas também o contexto logístico e econômico local.
Além disso, o uso de modelos estatísticos com inteligência artificial, como o adotado pelo IPMC, tende a refinar ainda mais a leitura do mercado, oferecendo dados com 95% de intervalo de confiança.
O que se desenha é um setor menos suscetível a choques generalizados, mas mais sensível a variações regionais e insumos estratégicos.





