Olhar para uma cidade e enxergar apenas estética é um erro técnico. O desenho urbano revela algo muito mais profundo do que a escolha de materiais ou a distribuição de equipamentos públicos: ele expõe as escolhas políticas e econômicas que, ao longo do tempo, definiram quem tem direito de viver bem no território e quem foi empurrado para a margem.
No Brasil, essa leitura é especialmente dolorosa. A segregação socioespacial não é um acidente geográfico. É o produto de décadas de planejamento que concentrou infraestrutura urbana, serviços e oportunidades nas áreas centrais, enquanto relegou as periferias a uma condição de precariedade estrutural. Ruas sem calçada, bairros sem saneamento, comunidades sem acesso a transporte de qualidade — tudo isso é o resultado visível de decisões que poderiam ter sido diferentes.
É nesse ponto que a atuação do arquiteto e urbanista deixa de ser apenas técnica e passa a ser, também, ética e política.
O espaço urbano como produto de escolhas, não de destino
A precariedade habitacional e a desigualdade territorial costumam ser tratadas como problemas crônicos, quase naturais. Mas não são. Elas nascem de processos históricos de exclusão que o próprio planejamento urbano ajudou a consolidar — seja pela omissão, seja pela escolha deliberada de favorecer determinadas regiões em detrimento de outras.
“É como se, no capitalismo contemporâneo, as fábricas, geralmente concentradas em áreas mais periféricas, fossem substituídas pelas cidades”, observa Vladimir Santafé, doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ e pós-doutor em Filosofia pela UERJ. Para ele, a cidade contemporânea opera como a antiga fábrica operava: organiza corpos, define acessos, distribui privilégios — e faz tudo isso de forma que parece neutra, mas carrega uma lógica de poder muito clara.
Essa compreensão muda radicalmente a forma como o projeto urbano deve ser pensado. Planejar uma cidade não é apenas distribuir usos no mapa. É decidir, concretamente, quem terá acesso à mobilidade urbana integrada, à habitação de interesse social bem localizada, ao lazer, à escola, ao emprego. Cada escolha de zoneamento, cada traçado viário, cada área destinada à moradia popular ou ao mercado imobiliário de alto padrão é, em si, um ato político.
Justiça social não é abstração — ela tem endereço
Falar em justiça social no urbanismo é, antes de tudo, falar de geografia. A desigualdade brasileira tem CEP, tem nome de bairro, tem distância em quilômetros entre quem acessa a cidade e quem apenas a suporta. A moradia digna, a mobilidade de qualidade e os serviços públicos não são benefícios extras — são condições básicas de cidadania, e o espaço urbano é onde essa cidadania se materializa ou se nega.
“A filosofia funciona questionando o que é o direito e de que forma ele se produziu”, explica Santafé. Para pensadores como Foucault e Marx, o direito não é universal por natureza — ele é construído a partir de relações de poder. No território urbano, isso significa que o direito à cidade não está garantido pela simples existência de leis. Ele precisa ser conquistado e sustentado por políticas públicas consistentes, por organização coletiva e por profissionais dispostos a atuar além do escritório.
A arquitetura que se fecha em si mesma, que entrega o projeto e recua, não cumpre esse papel. O arquiteto que atua com responsabilidade social entende que sua função não termina na entrega da planta — ela começa quando o espaço passa a ser habitado por pessoas reais, com necessidades reais.
Participação popular: não é protocolo, é método
Um dos pontos onde o planejamento urbano inclusivo mais falha é justamente aquele que parece mais simples: ouvir quem mora. A democracia participativa no processo projetual não é uma etapa burocrática a ser cumprida para validar um projeto já decidido. É o método pelo qual as prioridades reais de uma comunidade chegam à mesa técnica.
Habitação de interesse social mal localizada, sem acesso a transporte, distante de escolas e serviços de saúde, é um exemplo clássico do que acontece quando a participação popular é ignorada. O projeto pode ser tecnicamente correto e, ainda assim, reproduzir a exclusão que deveria combater. A localização importa. A conectividade importa. O contexto social importa.
Santafé ressalta que “a democracia participativa se inicia a partir do final do século XVIII e é fundamental ao longo de toda a história”, atravessando diferentes linhas filosóficas e tradições políticas. Aplicar esse princípio ao urbanismo contemporâneo significa garantir que a população que será afetada por uma intervenção urbana tenha voz ativa nas decisões — não apenas como consulta, mas como parte real do processo.
Isso exige tempo, escuta e abertura para revisar premissas. E, principalmente, exige que o arquiteto esteja disposto a colocar o projeto a serviço das pessoas, e não o contrário.
O arquiteto como formulador de políticas públicas
A atuação do arquiteto e urbanista no campo das políticas públicas urbanas é uma das mais estratégicas e, ao mesmo tempo, das mais subvalorizadas. Muito além do projeto edificado, esses profissionais têm competência técnica para atuar na formulação de diretrizes de planejamento territorial, na revisão de planos diretores, na concepção de programas habitacionais e na avaliação de impacto urbano de grandes intervenções.
Quando essa capacidade técnica é colocada a serviço da inclusão — e não apenas da rentabilidade imobiliária ou da visibilidade do projeto —, o resultado é uma cidade mais justa. Espaços públicos de qualidade em regiões periféricas, infraestrutura de saneamento em áreas historicamente negligenciadas, mobilidade ativa integrada ao transporte coletivo: são soluções que dependem de vontade política, mas também de competência técnica para serem viabilizadas.
A Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA) reforça esse posicionamento ao afirmar que justiça social não é concessão — é direito. E direito, como se sabe, não se conquista sem organização, sem pressão e sem profissionais comprometidos com algo maior do que o projeto em si.





