Nem toda revolução na arquitetura começa no desenho de um projeto. Às vezes, ela nasce na forma como a construção acontece. Em Jaguaruna, no sul de Santa Catarina, uma iniciativa industrial começa a alterar uma lógica que permaneceu praticamente inalterada por décadas: a dependência do canteiro de obras tradicional. Em vez de paredes erguidas lentamente sob sol e chuva, chalés de madeira passam a ser produzidos dentro de uma fábrica, com ritmo e precisão próximos aos da indústria automobilística.
A proposta parte da industrialização do processo construtivo — uma mudança que não afeta apenas prazos, mas também o modo como arquitetos, investidores e moradores passam a enxergar a própria casa. Quando a construção migra para um ambiente controlado, a arquitetura deixa de depender do improviso e passa a operar com previsibilidade técnica.
A lógica da “fábrica de casas”
O projeto desenvolvido pelo Grupo Pacheco, por meio da 321 Modular, parte de um princípio simples: transferir quase toda a complexidade da obra para dentro de um galpão industrial. Ali, máquinas adaptadas e sistemas automatizados executam cortes, encaixes e montagens estruturais com precisão milimétrica.
Segundo o diretor-geral Samuel Pacheco, o caminho exigiu adaptação tecnológica. “Fomos a vários países ver o equipamento em operação. Como o maquinário alemão não atendia 100% das nossas necessidades, desenvolvemos adaptações e automações próprias internamente, além de integrarmos braços robóticos adquiridos da China.”
O resultado é uma linha de produção capaz de fabricar um chalé modular completo a cada 40 minutos — um ritmo que muda completamente a escala da construção em madeira no país.
O que realmente faz diferença aqui não é apenas a velocidade, mas a redução das variáveis que normalmente comprometem obras tradicionais. Clima, atrasos logísticos e retrabalhos deixam de ser fatores críticos quando 95% da construção acontece dentro da fábrica.
Quando o canteiro deixa de ser o centro da obra
Durante décadas, o canteiro foi sinônimo de construção. Contudo, ele também sempre concentrou desperdícios, erros de execução e custos difíceis de prever. Ao industrializar o processo, a empresa reduz a obra no terreno praticamente à etapa de montagem.
Os módulos já chegam com revestimentos instalados, infraestrutura hidráulica preparada e pré-instalação elétrica concluída. Em vez de meses de obra, a finalização pode ocorrer entre um dia e meio e quatro dias — e, em modelos compactos, até em cerca de 12 horas.
“O que custa caro e gera retrabalho é o canteiro de obras. Ao trazer 95% da construção para dentro da fábrica, ganhamos precisão e escala”, afirma Pacheco.
Essa mudança impacta diretamente o setor de arquitetura, principalmente em projetos voltados ao turismo e à hospedagem de curta duração, onde tempo de entrega significa retorno financeiro mais rápido.
Madeira industrializada e o retorno do conforto térmico natural
A escolha da madeira como material estrutural não é apenas estética. O sistema utiliza pinus de reflorestamento tratado em autoclave, garantindo resistência contra pragas e durabilidade estrutural — um ponto essencial para quebrar o preconceito histórico associado às construções em madeira no Brasil.
Além da renovabilidade do material, existe um ganho perceptível na experiência de uso. Chalés de madeira apresentam comportamento térmico e acústico naturalmente eficiente, reduzindo a necessidade de climatização artificial.
“Não há nada que substitua o aconchego, o conforto térmico e acústico da madeira”, destaca Samuel Pacheco.
Na prática, isso significa interiores mais estáveis em temperatura e ambientes que dialogam com tendências atuais da arquitetura, que valorizam sensorialidade e conexão com materiais naturais.
Economia circular aplicada à construção
Outro ponto relevante está no aproveitamento integral da matéria-prima. As sobras de madeira geradas na produção não são descartadas. Elas são transformadas em pellets combustíveis por uma unidade própria, substituindo fontes energéticas tradicionais em processos industriais.
Esse modelo reduz resíduos e reforça um conceito cada vez mais presente na arquitetura contemporânea: construir considerando o ciclo completo do material, e não apenas a etapa final da obra.
O grande erro em muitos projetos sustentáveis é focar apenas no resultado visual verde, ignorando o processo produtivo. Aqui, a sustentabilidade aparece na cadeia inteira — da floresta plantada ao reaproveitamento industrial.
Escala industrial e novas possibilidades para a arquitetura
Hoje, a construção modular ainda representa uma parcela pequena do mercado brasileiro, mas o potencial de expansão é significativo. O plano da empresa prevê a entrega de até 10 mil unidades por ano até 2030, com expansão por franquias e padronização dos processos construtivos.
Esse crescimento aponta para uma transformação silenciosa: arquitetos passam a projetar pensando em módulos, logística e montagem, enquanto clientes começam a enxergar a casa não como uma obra longa e imprevisível, mas como um produto arquitetônico planejado.
Aliás, essa mudança abre espaço para novas linguagens de projeto. Chalés modulares vêm sendo utilizados em empreendimentos turísticos na serra e no litoral catarinense, especialmente em destinos que valorizam arquitetura integrada à paisagem.





