Poucos projetos de infraestrutura têm a pretensão declarada de entrar no mapa afetivo de uma cidade. O novo Mercado de Flores da Ceasa Curitiba tem. Assinado pelo arquiteto Domingos Henrique Bongestabs, o mesmo nome por trás da Ópera de Arame, o edifício de 4.845,1 metros quadrados chega com uma intenção clara: não ser apenas mais um pavilhão de vendas, mas se tornar um ponto turístico e um catalisador urbano para o bairro Tatuquara.
O Governo do Paraná vai investir R$ 50 milhões na obra, que nasce com um programa bastante completo: praça central, área para eventos, praça de alimentação, espaço para feira de produtor rural e 84 boxes voltados à comercialização de flores, insumos e produtos da agroindústria familiar. Mas o que chama atenção no projeto não é o que ele vende, e sim o que ele representa.
Arcos que contam a história do lugar
Há uma escolha no projeto que diz muito sobre a abordagem do arquiteto. Os arcos da fachada não foram inseridos por impulso estético, como costuma acontecer em projetos que tentam ser marcantes sem ter uma razão para isso. “Hoje, na Ceasa, existe uma série de coberturas em arco feitas de tijolos, e eu coloquei arcos na fachada para, de certa forma, relacionar com esses arcos que já existem, uma ligação entre o que existe e o que vai existir”, explica Domingos Bongestabs.

Esse gesto cria uma continuidade visual entre o complexo existente e a nova construção, algo que muitos projetos contemporâneos ignoram em nome de uma linguagem completamente autorreferente. O mercado chega com um desenho moderno, mas mantém um diálogo respeitoso com a memória arquitetônica da Ceasa. Aliás, a mesma lógica de pertencimento aparece no piso.
A pedra portuguesa não foi escolhida por capricho decorativo. “Nós temos o uso de pedras portuguesas na cidade. É uma característica típica de Curitiba”, afirma o arquiteto, ao justificar a intenção de ligar o projeto ao repertório urbano da capital paranaense. Os padrões no piso remetem a símbolos locais, como os pinhões, num recurso que conecta o usuário ao ritmo urbano da cidade assim que ele cruza a entrada.
Luz natural com estratégia térmica
Uma das decisões mais técnicas do projeto é justamente a que parece mais simples: as paredes de vidro. A transparência tem uma função direta. “Eu preciso de luz nas plantas. A luz é fundamental para a saúde dessas plantas e também para a visualização delas pelos clientes”, diz Bongestabs. O grande erro em projetos de mercados e pavilhões de vendas é tratar a iluminação como detalhe de acabamento, quando ela define, na prática, a qualidade do espaço — e, no caso de flores, a saúde do próprio produto.
A solução aqui é equilibrada. A cobertura metálica, feita com telha metálica isolante de dupla face, foi dimensionada para reduzir o ganho de calor solar e resistir a granizo e ventos, de acordo com os cálculos estruturais. A luz natural entra principalmente pelas laterais, com cerca de nove metros de altura, e por uma faixa mais estreita no alto, o que garante claridade sem o efeito estufa que um telhado completamente translúcido provocaria.
Para o controle térmico interno, as esquadrias laterais de vidro contam com aberturas que podem ser mantidas abertas ou fechadas conforme a necessidade. Isso significa que a ventilação natural do espaço pode ser regulada conforme a estação, o que é relevante num clima como o de Curitiba, onde a amplitude térmica ao longo do ano é expressiva.
Acessibilidade e fluxo como parte do programa
O projeto não tem escadas nem degraus. Toda a implantação foi concebida para garantir circulação livre tanto para pessoas quanto para mercadorias, com três circulações laterais e um desenho praticamente todo no mesmo nível. Onde houver pequenas diferenças de cota, a solução são rampas. Os banheiros estão no mesmo nível e os boxes são acessíveis. “A área em que estamos implantando o projeto é praticamente plana. Todo o projeto é plano”, detalha Bongestabs.

A planta se organiza em dois blocos: o primeiro reúne exposição e venda, área para eventos e praça de alimentação; o segundo concentra serviços, com administração, área técnica para controle de água e esgoto e demais sistemas de apoio. Ao redor, áreas externas tratadas como praça — com jardins, bancos e playground — reforçam a proposta de um espaço que funciona além do horário comercial.
A lógica de separação entre vitrine e operação também aparece na planta. Nos fundos, faixas de estacionamento para caminhões e o setor de carga e descarga têm acesso independente, o que reduz o conflito entre circulação de clientes e a logística de abastecimento dos boxes, que depende de movimento constante de plantas e insumos.
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O que muda para quem trabalha lá dentro
Um aspecto que tende a ficar em segundo plano nas apresentações de grandes projetos é a qualidade do ambiente de trabalho. O novo Mercado de Flores foi pensado para mudar a rotina de quem opera diariamente na Ceasa, com circulações mais amplas, melhor iluminação e ventilação e estrutura de apoio mais organizada. “Vai melhorar muito as condições de trabalho deles, sem dúvida”, afirma Domingos, ao citar os avanços em iluminação, clima interno, circulação e funcionamento das áreas de carga e descarga.
Essa atenção ao funcionamento operacional é o que diferencia um bom projeto arquitetônico de um belo projeto arquitetônico. O espaço pode ser visualmente impactante e, ao mesmo tempo, ineficiente para quem trabalha oito horas por dia dentro dele. No caso do novo mercado, os dois objetivos parecem caminhar juntos.
Um bairro que começa a mudar de endereço
O novo equipamento será implantado de frente para a BR-116, em uma área hoje usada como estacionamento, o que garante visibilidade imediata para quem passa pela rodovia. A expectativa é que o impacto urbanístico vá além da própria Ceasa, atraindo novos fluxos para o bairro Tatuquara e criando demanda para novos negócios na região.
Bongestabs usa como referência dois projetos que ajudaram a transformar os bairros onde foram instalados. “A experiência em outras áreas de Curitiba, como a Ópera de Arame e o Jardim Botânico, foram obras que valorizaram muito o bairro onde estão instaladas. Atraíram novos negócios. Então, a ideia é que isso se repita”, diz o arquiteto. A aposta, dessa forma, é que um equipamento com forte impacto visual e com serviços de convivência — não só de compra — funcione como ponto de partida para um movimento de valorização do entorno.
O projeto preserva características visuais que já fazem parte da identidade turística de Curitiba, como o Jardim Botânico, a própria Ópera de Arame e a Rua 24 Horas. “Não será apenas um centro de vendas de produtos ligados a plantas, mas também uma área que vai impactar a paisagem urbana e incentivar a vinda de novos clientes e também atrair visitantes e turistas com a arquitetura e serviços que oferece”, define Bongestabs.





