CAU/BR na Expo Revestir: arquitetas debatem presença feminina na profissão e na construção das cidades

Em sua primeira participação oficial na maior feira de revestimentos da América Latina, o conselho federal de arquitetura abriu espaço para um debate necessário sobre representatividade, liderança e o papel das mulheres na transformação das cidades

CAU/BR na Expo Revestir: arquitetas debatem presença feminina na profissão e na construção das cidades

A arquitetura brasileira chegou à Expo Revestir com uma presença inédita e carregada de significado. Pela primeira vez, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR) ocupou um espaço oficial na maior feira de revestimentos e acabamentos da América Latina, realizada no São Paulo Expo, e escolheu a presença feminina na arquitetura e no urbanismo como tema de abertura.

O encontro aconteceu no Espaço CAU, estande C60, e reuniu nomes relevantes da arquitetura nacional para uma roda de conversa direta sobre trajetórias profissionais, liderança feminina e participação das mulheres na formulação de políticas públicas e projetos urbanos.

Uma profissão moldada por projetos e por escolhas

A arquiteta e urbanista Jô Vasconcellos foi uma das protagonistas do debate, ao trazer sua própria trajetória como fio condutor da conversa. Ela percorreu desde projetos executados até aqueles que ficaram apenas no papel, passando por uma das experiências mais formativas de sua carreira: a participação em um concurso de arquitetura altamente disputado para a sede do CRM, em Belo Horizonte, concorrendo com escritórios já consolidados no mercado.

“Esse processo contribuiu muito para o meu reconhecimento profissional e para a minha independência”, relatou Vasconcellos durante o evento.

O que chama atenção em sua fala não é apenas a conquista em si, mas o que ela representa: a necessidade de que arquitetas se coloquem em competição direta com os grandes, sem recuar. A competição em concursos de arquitetura ainda é um terreno predominantemente masculino, e a presença feminina nesses espaços, especialmente em projetos de grande porte, segue sendo um marcador importante de avanço.

Além disso, Vasconcellos destacou que uma constante em sua obra é a criação de praças e espaços públicos, integrando a arquitetura ao convívio social e priorizando aspectos como insolação, ventilação natural e integração com o meio ambiente. Um dos exemplos citados foi a revitalização do edifício popularmente conhecido como “Rainha da Sucata”, que hoje abriga um projeto musical voltado a crianças — um tipo de intervenção em patrimônio arquitetônico existente que combina função social com respeito à preexistência.

O espaço que precisa ser ocupado

A roda de conversa também abriu terreno para posicionamentos mais objetivos sobre representatividade feminina em cargos de liderança. A presidente do CAU/AC, Dandara Britto, foi direta ao ponto.

“O meu manifesto aqui é para que a gente se inspire e que mulheres ocupem espaços de liderança. Precisamos de mulheres líderes em posições de poder”, declarou.

Britto ainda ressaltou com orgulho que o estado que representa teve, ao longo de sua história, mulheres na presidência do conselho — um dado que, dentro do contexto do setor, carrega peso simbólico e institucional.

Essa discussão sobre liderança feminina na arquitetura não é nova, mas ganhou contornos mais urgentes nos últimos anos. Com a ampliação do debate sobre diversidade no mercado de trabalho e nas profissões criativas, o setor começa a questionar com mais consistência por que a presença feminina nos cursos de graduação não se traduz proporcionalmente em liderança dentro dos escritórios, nos cargos de decisão e nas obras de maior visibilidade.

Um pacto que vai além do espaço profissional

O debate não ficou restrito ao campo da carreira e do design urbano. A coordenadora da Comissão de Políticas Afirmativas (CPA) do CAU/BR, conselheira federal Josemée Gomes de Lima, trouxe para o centro da conversa uma dimensão mais ampla: a violência de gênero como pauta inadiável também para a classe de arquitetos e urbanistas.

“Agora, na madrugada, mais uma indígena foi incendiada”, afirmou Josemée ao apresentar um chamado formal para que profissionais do setor adiram a um pacto contra a violência de gênero, transformando o engajamento individual em ação coletiva e institucional.

A proposta posiciona o CAU/BR para além de um conselho regulador: como um agente ativo na construção de uma cultura profissional comprometida com direitos fundamentais. Aliás, esse tipo de iniciativa dentro de um evento do porte da Expo Revestir — voltado, em sua essência, para materiais de construção, revestimentos, acabamentos e tendências de projeto — evidencia que a arquitetura contemporânea não separa mais o técnico do humano.

O CAU/BR na Expo Revestir: um espaço para a profissão pensar em si mesma

O Espaço CAU foi pensado para ser um ponto de encontro entre arquitetos, pesquisadores e especialistas, com uma programação que inclui palestras, entrevistas e rodas de conversa sobre transformação digital na arquitetura, sustentabilidade em projetos, patrimônio cultural, mercado profissional e inovação construtiva.

A presidente do CAU/BR, Patrícia Sarquis Herden, marcou a abertura com a entrega da Coleção Brasilidades — botons representando todos os estados do país. “Um orgulho de estarmos em todo o território nacional enquanto Conselho”, afirmou.

A escolha de inaugurar essa presença com um debate sobre mulheres na arquitetura não é acidental. Representa um posicionamento: o de que representatividade faz parte da construção de uma arquitetura mais plural, mais conectada às necessidades reais das pessoas e, consequentemente, mais capaz de transformar o ambiente construído de forma significativa.

  • Cláudio P. Filla é comunicador social e especialista em mídias digitais, com mais de 11 anos de atuação na curadoria de tendências para o mercado de arquitetura e decoração. Como editor-chefe do Enfeite Decora, Cláudio lidera um conselho editorial composto por arquitetos, designers de interiores e paisagistas registrados (CAU/ABD), garantindo que cada artigo combine inspiração visual com rigor técnico e normativo. Sua missão é traduzir o complexo universo da construção e do design em soluções práticas, sustentáveis e acessíveis, sempre sob o respaldo de profissionais renomados do setor brasileiro.

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