Nem todo projeto de grande metragem consegue entregar o que parece mais simples: a sensação de lar. No Brooklin Velho, bairro paulistano de ruas arborizadas e ambiência tranquila mesmo dentro da capital, uma residência de 565 m² mostra que tamanho e acolhimento podem caminhar juntos — desde que as escolhas sejam feitas com intenção.
O casal proprietário tinha um pedido claro desde o início: uma casa que crescesse junto com a família, que respirasse junto com o jardim e que não impusesse barreiras entre o dentro e o fora. A partir dessa premissa, o projeto de interiores foi desenvolvido pela arquiteta Patrícia Bergantin e o paisagismo ficou a cargo de Alex Hanazaki — uma parceria que resulta em algo mais do que integração estética: há aqui uma conversa contínua entre arquitetura e natureza.
Quando o jardim entra pela sala
No térreo, a tomada de decisão mais importante foi justamente abrir mão das divisões convencionais. O living de 55 m², o home theater e a área gourmet funcionam como um único organismo que se expande até o exterior. Não existe aqui a clássica separação entre “ambiente de estar” e “área externa” — a transição é quase imperceptível.

Esse efeito deve muito ao trabalho de Alex Hanazaki. A chamada “cascata verde” posicionada ao fundo da piscina não é apenas paisagismo decorativo: ela atua como um segundo horizonte, uma extensão visual que faz o olhar continuar além das esquadrias. “O paisagismo precisa ser pensado como parte da arquitetura, não como complemento dela”, é uma visão que permeia toda a obra do paisagista, e aqui ela se aplica com precisão cirúrgica.
Aliás, a escolha dos materiais no piso reforça essa leitura. O mármore travertino, com sua textura porosa e tom terroso, cria uma base que não compete com o verde do jardim — ao contrário, dialoga.

Junto aos painéis de folha de madeira nas paredes, o resultado é uma atmosfera que parece ter nascido do próprio terreno, orgânica e atemporal ao mesmo tempo.
A escada que é obra de arte — e ainda abraça um bambu
Há elementos em projetos residenciais que funcionam como assinaturas. Nesta casa, esse elemento é a escada escultórica que conecta os três pavimentos.
Leve, quase flutuante na forma como foi concebida, ela contorna um bambu vivo que percorre verticalmente toda a residência — do subsolo até a área íntima no andar superior. O grande erro que se comete em projetos com escadas imponentes é transformá-las em protagonistas isoladas, sem diálogo com o restante da casa.

Aqui, o bambu resolve isso. Ele funciona como um eixo visual e simbólico: é a natureza que atravessa a construção, não o contrário. A leitura que se faz ao circular pela casa é de continuidade — e esse é um dos resultados mais difíceis de alcançar em projetos de múltiplos pavimentos.
O pavimento superior e a arte de dividir sem separar
No andar de cima, a planta original foi reconfigurada com uma premissa que reflete bem o modo de vida do casal: convívio antes de tudo. A sala íntima e o escritório biblioteca foram integrados por meio de um painel divisório revestido de couro — solução que entrega privacidade quando necessário, mas preserva a fluidez espacial que permeia toda a casa.
Esse tipo de recurso costuma ser subestimado em projetos residenciais. Diferente de uma parede ou de uma porta convencional, o painel de couro opera no campo da sutileza: ele sugere uma fronteira sem impô-la, mantendo a sensação de amplitude mesmo quando os espaços estão tecnicamente separados. É uma escolha que revela maturidade projetual — e que faz toda a diferença na experiência de quem vive ali.
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A poltrona laranja que redefine o living
Entre todos os elementos de mobiliário selecionados por Patrícia Bergantin, um se destaca com uma clareza incomum: a poltrona Esfera, de Ricardo Fasanello, em couro laranja. Posicionada estrategicamente no living, ela não é apenas um assento — é um ponto focal giratório que permite a comunicação visual entre três ambientes distintos: o living, o home theater e a varanda.

“A poltrona certa não preenche um espaço vazio — ela organiza o espaço ao redor dela”. Essa é uma das premissas mais práticas do design de interiores, e a Esfera de Fasanello cumpre esse papel com autoridade. O laranja, em uma paleta dominada por tons neutros e naturais, não é um erro ou uma ousadia gratuita — é um acento cromático calculado, que aquece o ambiente e confere identidade sem desestabilizar o equilíbrio visual construído pelo projeto como um todo.

O grande acerto aqui é justamente a contenção: uma peça vibrante, em um único ponto bem escolhido. Cuidado com o excesso de cor em projetos de base neutra — o que funciona em uma poltrona icônica se perde completamente quando aplicado em múltiplos elementos.





