Durante décadas, a construção residencial de alto padrão no Brasil seguiu uma lógica previsível: projetos complexos, prazos longos e equipes numerosas trabalhando por mais de um ano até a entrega das chaves. Entretanto, essa equação começa a mudar.
A casa impressa em concreto 3D, desenvolvida pela Cosmos 3D, do Grupo Katz, em Nova Lima (MG), materializa essa virada. O que tradicionalmente levaria cerca de 18 meses foi concluído em oito. E o mais impressionante: a estrutura principal foi impressa em apenas 11 dias. Mais do que um feito técnico, trata-se de uma mudança estrutural na forma como entendemos a construção civil tecnológica no Brasil.
Impressão 3D em concreto: como funciona na prática
O processo parte de um projeto arquitetônico convencional, desenvolvido em plataforma BIM. A partir daí, o modelo tridimensional é convertido em camadas digitais que orientam o equipamento de impressão.
Daniel Katz, CEO do Grupo Katz e cofundador da Cosmos 3D, explica o fluxo com objetividade:
“Transformamos o projeto em tridimensional usando o Revit (BIM). Depois ele vai para o que chamamos de fatiador, que começa a modelar esse desenho para a execução física.”
Na prática, a impressora deposita o concreto camada por camada, com precisão milimétrica. O resultado é uma estrutura contínua, sem as interrupções típicas de alvenaria tradicional. A casa possui 420 m² de área total, sendo 250 m² executados com concreto 3D.
Essa integração entre design digital e automação robótica reduz interferências humanas, retrabalhos e desperdícios — um dos principais gargalos do setor.
Redução de prazo, resíduos e dependência de mão de obra
A inovação não se limita ao impacto visual ou à curiosidade tecnológica. Ela altera a lógica econômica da construção.
“A tecnologia impacta diretamente na lógica econômica do setor”, afirma Katz.
A impressão 3D em concreto diminui significativamente o volume de resíduos, racionaliza o uso de insumos e reduz a necessidade de grandes equipes operacionais. Em um cenário marcado pela escassez de mão de obra qualificada, essa eficiência se torna ainda mais estratégica. Além disso, a padronização do processo aumenta a previsibilidade de custos — fator essencial para empreendimentos de alto padrão.
De aposta experimental a empresa milionária
O interesse pela tecnologia surgiu em 2021, quando Katz iniciou contatos internacionais em busca de fornecedores. A experiência inicial, no entanto, revelou limitações técnicas.

“Comprei a primeira máquina, mas logo em seguida vi que o negócio estava muito atrás do que imaginava”, relembra.
Essa frustração deu origem à Cosmos 3D, fundada em parceria com Rubén Garcia. Hoje, a empresa opera entre Belo Horizonte e Valência, na Espanha, onde desenvolve tecnologia, IoT e softwares construtivos.
No Brasil, o foco está no desenvolvimento de materiais e sistemas estruturais adaptados às condições locais. Em 2025, a empresa registrou faturamento de R$ 12 milhões, consolidando-se como referência em construção 3D no Brasil.
Da Bahia a Minas: maturidade tecnológica
A primeira residência foi entregue em 2024, em Santa Cruz Cabrália (BA). A impressão da estrutura levou apenas dois dias. Contudo, o caminho até essa maturidade exigiu quase 18 meses de testes e mais de 300 formulações diferentes de concreto.
“Começamos construindo as paredes, depois criamos o sistema construtivo. Foram quase 18 meses fazendo testes”, afirma Katz.
Esse processo de aperfeiçoamento foi determinante para que o projeto em Nova Lima atingisse o padrão exigido pelo mercado de luxo.
Tecnologia acessível ou exclusividade premium?
Embora a primeira vitrine seja uma residência de alto padrão, a tecnologia não se limita a esse segmento. Segundo Katz, a impressão 3D em concreto é viável tanto para imóveis populares quanto para empreendimentos sofisticados.
Essa flexibilidade amplia o potencial de impacto no mercado imobiliário brasileiro, especialmente em projetos que exigem agilidade e racionalização de custos.
Além disso, a aceitação do mercado é facilitada por um detalhe fundamental: a base estrutural continua sendo o concreto — material já consolidado cultural e tecnicamente desde a Roma Antiga.





