Casa de praia em Trancoso com 923 m² une natureza, integração e contemporâneo rústico em projeto do zero

Implantada no ponto mais alto do lote, a residência combina madeira, pedra e microcimento com acervo pessoal e peças de artesãos locais resultado de um programa generoso pensado para família e locação

Projetar uma casa de praia do zero, em um terreno de 2.909 m², para uma família que já conhece bem a região onde vai morar, é uma das situações mais desafiadoras e também mais ricas dentro da arquitetura residencial. O programa precisa responder tanto à rotina da família quanto às exigências de uma eventual locação por temporada, o que multiplica as variáveis de layout, privacidade e infraestrutura. Foi exatamente esse o ponto de partida do projeto assinado pelo arquiteto David Bastos, à frente do escritório @dbarquitetos, para esta residência localizada em condomínio fechado em Trancoso, no sul da Bahia.

Com 923 m² de área construída, a casa foi pensada para um casal de empresários e seus três filhos, que já tinham o hábito de passar temporadas no destino. A escolha por Trancoso, com sua vegetação densa, ruas de terra e arquitetura vernacular, influenciou diretamente as decisões estéticas e construtivas do projeto, algo que se nota desde a implantação até a escolha dos revestimentos.

A implantação como decisão estratégica

O maior desafio técnico do projeto foi a implantação no lote. A solução adotada pelo arquiteto David Bastos foi precisa: posicionar a casa no ponto mais alto do terreno, o que garantiu dois benefícios simultâneos. O primeiro, prático, é a ventilação cruzada, fundamental em um clima quente e úmido como o do litoral baiano. O segundo, estético, são as vistas para o interior do lote, que criam uma relação de contemplação com a paisagem em vez de expor a residência à rua ou aos vizinhos.

Fotos: Antônio Soto | Paisagismo: Janaina Mundim

Essa escolha posiciona a casa de costas para o exterior do condomínio e de frente para o próprio terreno, uma decisão que muda completamente a experiência de habitar o espaço. Os ambientes sociais, ao olharem para dentro do lote, criam a sensação de que a natureza está sempre ao alcance, sem abrir mão da privacidade que uma casa de alto padrão em condomínio exige.

Programa generoso, distribuído com inteligência

O pedido dos clientes era claro: nove suítes amplas, pé-direito no limite máximo permitido pela legislação local e áreas sociais totalmente integradas. Traduzir esse programa em planta, sem que a casa ficasse pesada ou sem fluidez, exigiu uma distribuição cuidadosa ao longo de dois pavimentos. A casa principal concentra os espaços de convivência e a maioria das suítes.

Fotos: Antônio Soto | Paisagismo: Janaina Mundim

O destaque fica por conta da sala com pé-direito de 6,80 metros , uma decisão que amplia visualmente o ambiente e cria uma escala monumental sem perder o calor que o estilo contemporâneo rústico demanda. Em residências de praia, o pé-direito alto cumpre também uma função climática: o ar quente sobe e a ventilação natural se torna mais eficiente, reduzindo a dependência do ar-condicionado.

Além da casa principal, o projeto inclui dois módulos independentes, pensados com inteligência funcional. Um deles abriga suítes para hóspedes, garantindo privacidade tanto para a família quanto para os visitantes.

Fotos: Antônio Soto | Paisagismo: Janaina Mundim

O outro concentra o espaço gourmet, conectado ao volume principal por um pergolado que cruza sobre a piscina, um elemento de circulação que se transforma em experiência, já que atravessar o pergolado com a piscina abaixo cria uma transição sensorial entre os ambientes. A quadra de beach tênis completa a área externa, reforçando o caráter de uso intensivo da residência nas temporadas.

Materialidade que dialoga com o entorno

A paleta de materiais do projeto é um dos pontos mais consistentes da proposta. Madeira, pedra e microcimento foram usados de forma combinada, criando uma lógica visual que remete ao entorno natural de Trancoso sem recorrer a regionalismos forçados. O microcimento, em especial, aparece como elemento de transição entre os materiais mais orgânicos, conferindo uma leitura contemporânea às superfícies.

Fotos: Antônio Soto | Paisagismo: Janaina Mundim

O grande erro em projetos de casas de praia é exagerar nos elementos rústicos a ponto de o ambiente perder leveza. Aqui, a madeira e a pedra funcionam como base, estruturam o caráter da casa, enquanto o microcimento e as linhas mais limpas do design contemporâneo equilibram a composição. O resultado é um estilo que os profissionais costumam chamar de contemporâneo rústico: sofisticado, mas sem distância da natureza ao redor.

Decoração entre o pessoal e o artesanal

A decoração da casa partiu de dois eixos complementares: o acervo dos próprios moradores e peças adquiridas de artesãos locais da região de Trancoso. Essa combinação, cada vez mais presente em projetos de alto padrão, cumpre uma função além da estética. Ela cria uma narrativa de pertencimento, a casa conta quem são os moradores e, ao mesmo tempo, celebra o território onde está inserida.

Peças artesanais, quando integradas a um projeto contemporâneo, funcionam melhor quando têm escala e posição definidas. O erro comum é distribuí-las como objetos decorativos genéricos, sem intenção. Quando há curadoria, como neste caso, elas se tornam pontos focais que humanizam os ambientes e evitam que a casa pareça um hotel ou um showroom.

Fotos: Antônio Soto | Paisagismo: Janaina Mundim

Aliás, a combinação entre acervo pessoal e artesanato regional é uma das formas mais eficazes de conferir autenticidade a uma residência de temporada, especialmente em destinos como Trancoso, onde a cultura local é parte do próprio atrativo da região.

Integração como princípio, não como tendência

A integração dos ambientes sociais neste projeto não é apenas uma escolha estética, é uma resposta direta à forma como a família usa a casa. Em temporadas, com crianças e hóspedes, a fluidez entre sala, cozinha, área gourmet e piscina é o que determina a qualidade da convivência. Paredes e fechamentos desnecessários criam gargalos de circulação e fragmentam a experiência.

David Bastos resolveu essa questão ao distribuir os volumes de forma que os espaços se comuniquem visualmente e fisicamente, sem que a privacidade das suítes seja comprometida. Os módulos independentes para hóspedes são a solução mais direta para esse equilíbrio: a área social pode estar em pleno movimento enquanto os dormitórios mantêm silêncio e autonomia.

Esse tipo de organização em volumes separados, ligados por elementos externos como o pergolado, é uma estratégia consolidada na arquitetura de casas de campo e praia no Brasil. Funciona porque respeita a escala humana — ninguém precisa cruzar a casa inteira para ir do quarto à churrasqueira — e porque cria hierarquia entre os espaços, algo que projetos muito integrados às vezes perdem.

  • Cláudio P. Filla é comunicador social e especialista em mídias digitais, com mais de 11 anos de atuação na curadoria de tendências para o mercado de arquitetura e decoração. Como editor-chefe do Enfeite Decora, Cláudio lidera um conselho editorial composto por arquitetos, designers de interiores e paisagistas registrados (CAU/ABD), garantindo que cada artigo combine inspiração visual com rigor técnico e normativo. Sua missão é traduzir o complexo universo da construção e do design em soluções práticas, sustentáveis e acessíveis, sempre sob o respaldo de profissionais renomados do setor brasileiro.

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