Há algo revelador no fato de que a arquitetura mais comentada do mundo em 2026 não veio de um escritório em Nova York, Tóquio ou Copenhague. Veio de Feira Nova, uma cidade de pouco mais de 20 mil habitantes no agreste de Pernambuco, construída com tijolos de terra crua e pensada para a mãe de um arquiteto. A “Casa de Mainha“, projeto assinado pelo Studio Zé, foi selecionada pela ArchDaily — a maior plataforma de arquitetura do mundo — entre os cinco projetos residenciais mais relevantes de 2026, consolidando-se como o único representante brasileiro na lista deste ano.
O reconhecimento não é só uma conquista pessoal ou regional. É um sinal claro de que a curadoria internacional está olhando com atenção para o que a arquitetura vernacular brasileira tem a dizer sobre o presente, e sobre o futuro.
O que é o adobe e por que ele voltou a importar
O adobe é uma das técnicas construtivas mais antigas da humanidade. Trata-se de tijolos moldados com terra crua, geralmente misturada a palha, areia e água, secos naturalmente ao sol. A técnica atravessa milênios e culturas, do Oriente Médio ao norte da África, do interior do México ao semiárido nordestino, onde encontrou no clima quente e seco um ambiente ideal para se desenvolver.
No Brasil, o adobe foi durante muito tempo associado a uma arquitetura da escassez, utilizada por quem não tinha acesso a outros materiais. Essa leitura reduzia o valor técnico e estético de uma solução construtiva que, hoje, o mercado global de arquitetura sustentável busca replicar a custo altíssimo em projetos de bioconstrução. A “Casa de Mainha” não ignora essa história. Aliás, é justamente nela que o projeto encontra sua força.
A residência foi construída na década de 1980 e reinterpretada sob uma linguagem contemporânea pelo arquiteto Zé Vágner, à frente do Studio Zé. A proposta incorpora ladrilhos hidráulicos, soluções de sombreamento e partidos volumétricos típicos do interior nordestino, sem transformá-los em decoração folclórica. O resultado é uma casa que pertence ao lugar e, ao mesmo tempo, dialoga com os debates mais urgentes da arquitetura contemporânea.
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Uma casa feita para durar, respirar e proteger
O grande erro de muitos projetos que tentam “resgatar o regional” é transformar o contexto em enfeite. Aqui, cada escolha tem função. A ventilação cruzada foi trabalhada na implantação do projeto para reduzir a necessidade de ar-condicionado, aproveitando os ventos predominantes da região. A iluminação natural foi pensada para entrar de forma filtrada, controlando o ganho de calor sem abrir mão da claridade.
O conforto térmico do adobe, aliás, é um dos seus atributos mais documentados: a alta massa térmica do material retarda a transmissão de calor do exterior para o interior, mantendo os ambientes mais frescos durante o dia e mais aquecidos à noite. Em um clima como o do agreste pernambucano, isso não é apenas conforto. É saúde e economia.
Essa combinação entre eficiência ambiental e simplicidade formal foi um dos pontos destacados pela curadoria da ArchDaily ao selecionar o projeto. Em um cenário em que a construção civil responde por parcela significativa das emissões de carbono globais, uma casa que resolve o conforto do morador sem depender de sistemas artificiais de climatização carrega um argumento técnico e ético difícil de ignorar.
O projeto que nasceu do afeto
A origem da “Casa de Mainha” carrega um peso que vai além do técnico. A residência foi idealizada para melhorar as condições de moradia da mãe do arquiteto Zé Vágner. É essa camada que torna o projeto singular dentro da seleção da ArchDaily: não há aqui o distanciamento frio de um exercício formal. Há identidade, memória e compromisso social costurados em cada parede de terra crua.
“Mainha” é como se chama a mãe no Nordeste do Brasil, com toda a intimidade e devoção que a palavra carrega. Batizar o projeto assim é uma declaração de intenção. Diz de onde vem o arquiteto, para quem ele constrói e o que ele valoriza. Diz, também, que arquitetura de qualidade não é privilégio de quem mora em metrópoles.
Essa narrativa ressoou internacionalmente porque toca em algo que a arquitetura contemporânea vem discutindo com mais urgência: o papel social do projeto. A pergunta não é mais só “é bonito?” ou “é inovador?”, mas “para quem foi feito?” e “resolve o problema de quem?”
Feira Nova no mapa da arquitetura contemporânea
A ArchDaily publica diariamente projetos de todas as partes do mundo e reúne uma audiência de arquitetos, designers e estudantes em mais de 190 países. Ser selecionado entre os cinco projetos residenciais mais relevantes do ano nessa plataforma equivale, no setor, a uma das maiores vitrines possíveis para um escritório de arquitetura.
Para o Brasil, a presença da “Casa de Mainha” na lista de 2026 é também um lembrete de que a arquitetura brasileira tem contribuições originais a oferecer ao debate global, especialmente quando abraça suas referências regionais com rigor projetual. O resultado final da seleção da ArchDaily ainda será anunciado, mas o reconhecimento já está dado.





