Há imóveis que não são apenas construções, mas fragmentos vivos da cidade. No Centro de Curitiba, na Rua Barão do Rio Branco, 593, um sobrado centenário atravessou gerações, testemunhou transformações urbanas e agora inicia uma nova etapa de sua história. Foi ali que cresceu Jaime Lerner, arquiteto e urbanista que moldou a identidade da capital paranaense, e é ali que hoje funciona o Casa Kurí, um restaurante e café que une memória, arquitetura e pertencimento.
O endereço, que durante décadas foi a Casa Félix, loja da família Lerner, volta a ser ponto de encontro em um momento simbólico para o bairro, marcado por iniciativas de revitalização e reconexão com a vida urbana.
O reencontro entre passado e presente
A reocupação do sobrado começou a ganhar forma no fim de 2024, quando a empreendedora Alone Leal percebeu a movimentação de restauro no imóvel. O responsável pela recuperação era Arlei Smanhotto, conhecido no Centro por se dedicar à revitalização de Unidades de Interesse de Preservação (UIPs), um trabalho que vem devolvendo dignidade a construções históricas da região.

“Procurei o senhor Arlei e formalizei meu interesse de locação antes mesmo de finalizada a obra, que, por precisar de todo o acompanhamento do Ippuc, foi muito minuciosa”, recorda Alone, que buscava trazer de volta ao Centro um espaço de convivência que já havia comandado em outro bairro.
Meses depois, foi a vez de Gabriela Kuhnen Inácio cruzar o caminho do sobrado. Ao passar pela fachada restaurada, decidiu bater à porta. “Quando a Alone me contou sobre o bar, compartilhei com ela meu sonho de criar um espaço de gastronomia que combinasse comida saudável, pertencimento e arte. Assim nasceu o Casa Kurí”, conta Gabriela, formada em psicologia e ligada à cena cultural curitibana.
A tríade se completou com Edite de Jesus Ribeiro, convidada por Gabriela para assumir a cozinha. Experiente e apaixonada por ingredientes frescos, Edite viu ali a chance de transformar um sonho antigo em realidade. “Aceitei o desafio de criar todo o cardápio, dos pratos do almoço aos bolos e cuques do café, sempre com uma cozinha que conversa com afeto e memória”, destaca.
Um sobrado que carrega a alma do Centro
A arquitetura do imóvel ajuda a explicar por que ele desperta tanto interesse. Construído no início do século 20 pelo ervateiro Jordão Mader, o edifício de dois pavimentos segue o estilo eclético, com sacadas de ferro batido que ainda hoje desenham a fachada com elegância.
No térreo, funcionou por décadas a Casa Félix, loja de roupas, chapéus e armarinhos do comerciante Felix Lerner, pai de Jaime. No andar superior, a família viveu momentos que, mais tarde, ecoariam na visão urbana do arquiteto.
A restauração respeitou essa herança. O pé-direito de quase quatro metros, os pisos preservados e os detalhes originais criam uma sensação de amplitude rara no Centro. No interior, obras de arte, objetos de coleção e azulejos antigos garimpados compõem uma narrativa visual que mistura passado e presente sem artificialidade.
A memória de Jaime Lerner impressa nas paredes
Entre os elementos mais simbólicos do espaço está uma gravura oferecida pela família Lerner às sócias do Casa Kurí. A peça traz um trecho de um discurso de Jaime Lerner, proferido em 1980 ao receber o título de Vulto Emérito de Curitiba, justamente no prédio da Câmara Municipal, a poucos metros dali.

No texto, ele rememora a infância na Casa Félix, as conversas no balcão da loja e o aprendizado silencioso sobre o país e as pessoas. A presença dessa memória transforma o ambiente em algo maior que um restaurante: ele passa a funcionar como um lugar de escuta da cidade.
Arquitetura como ferramenta de reconexão urbana
A reocupação do sobrado também dialoga com um movimento mais amplo de revalorização do Centro de Curitiba. O programa Curitiba de Volta ao Centro, lançado em 2025, busca incentivar o retorno de moradores, negócios e cultura à região, reforçando o papel dos edifícios históricos como catalisadores de vida urbana.
Assim, o Casa Kurí surge como um exemplo concreto de como a arquitetura preservada, quando aliada a usos contemporâneos, pode recuperar o vínculo afetivo entre as pessoas e a cidade. O antigo endereço da família Lerner volta a ser espaço de encontros, agora embalado por cafés, conversas e novas histórias.
Quando a cidade volta a morar em seus próprios edifícios
Mais do que um restaurante ou um café, o sobrado da Rua Barão do Rio Branco, 593 revela um caminho possível para os centros históricos brasileiros: aquele em que memória e uso cotidiano caminham juntos. Ao devolver função a uma casa carregada de significado, o projeto do Casa Kurí transforma arquitetura em narrativa viva — algo que, certamente, Jaime Lerner teria apreciado.
Serviço
Casa Kurí
Horário: de segunda a sábado, das 11h30 às 14h30 (almoço buffet) e das 15h às 18h30 (café da tarde)
Endereço: Rua Barão do Rio Branco, 593, Centro





