Existe uma diferença clara entre uma casa bem construída e uma casa que abraça quem mora nela. A residência de 318,7 m² assinada pelo Estudio Elmor, no bairro de Santa Felicidade, em Curitiba (PR), pertence à segunda categoria — e essa distinção aparece em cada detalhe do projeto, do piso ao teto.
O brief dos proprietários era direto: queriam uma “casa com cara de casa”. Não um exercício de estilo, não uma vitrine de tendências. Um lar funcional, pensado para criar um filho, receber amigos para cozinhar e abrir boas garrafas de vinho sem cerimônia. A partir daí, o escritório conduziu um projeto de construção do zero que equilibra o arquétipo residencial clássico com uma linguagem contemporânea de linhas limpas e materiais criteriosamente selecionados.
Fachada que dialoga com o entorno sem abrir mão da personalidade
A fachada é o primeiro acerto do projeto. As linhas limpas evitam o minimalismo frio e incorporam janelas amplas que cumprem uma função dupla: garantem que o interior receba luz natural generosa ao longo do dia e criam uma permeabilidade visual que conecta a casa ao jardim sem expô-la demais à rua.

Esse equilíbrio entre abertura e privacidade é um dos pontos mais difíceis de calibrar em projetos residenciais, especialmente em bairros com histórico de casas mais fechadas, como Santa Felicidade. O resultado aqui é uma fachada que se relaciona com o contexto do bairro, mas afirma uma identidade própria.
A escolha dos materiais: rústico e moderno na mesma gramática
O grande acerto estético deste projeto está na seleção de materiais, que formam uma paleta coesa sem ser monótona. As madeiras Peroba Mica e Cumaru aparecem como protagonistas nos revestimentos internos, trazendo calor e textura que nenhum porcelanato imitação madeira consegue replicar com a mesma autenticidade.

“A madeira de lei tem uma presença que vai além do visual — ela muda a acústica do ambiente, muda a temperatura percebida, muda a forma como você se sente dentro do espaço”, destaca o Estudio Elmor sobre as escolhas do projeto.
Aliás, o uso do Cumaru merece atenção especial. Trata-se de uma madeira de alta densidade e resistência natural à umidade, amplamente utilizada em áreas de maior tráfego e até em decks externos. Aqui, ela cumpre um papel estrutural e estético ao mesmo tempo.

Já no campo das pedras naturais, o projeto recorre ao Travertino, ao Basalto e ao Mármore Branco Paraná — três materiais com personalidades distintas que, juntos, criam um diálogo entre o rústico e o sofisticado. O Travertino, com sua superfície porosa e tons terrosos, ancora o projeto no universo orgânico. O Basalto adiciona peso visual e contraste. O Mármore Branco Paraná, por sua vez, eleva o nível de refinamento sem quebrar a harmonia da paleta.
O living que justifica o pé-direito generoso
Dentro da casa, o living é o ambiente que mais concentra as decisões de maior impacto. O pé-direito generoso não é recurso decorativo — é uma escolha que altera completamente a percepção de escala e bem-estar dentro do espaço. Ambientes com altura acima do padrão de 2,70 m permitem que a ventilação circule melhor, que a luz se distribua de forma mais uniforme e que os móveis e materiais sejam apreciados em proporção adequada.

A lareira de pedras que ancora o living é o ponto focal que o ambiente precisava. Lareiras em residências no Sul do Brasil não são apenas estéticas — elas respondem a uma necessidade climática real, especialmente em Curitiba, onde as temperaturas no inverno exigem aquecimento eficiente. O uso de pedra na composição da lareira reforça a conexão com os materiais escolhidos para o restante do projeto, criando consistência visual e evitando que o elemento se torne um objeto decorativo isolado.
Cozinha e espaço gourmet: o coração da vida social
Para uma família que tem na cozinha o centro da vida social, o projeto do Estudio Elmor não poderia tratar esse ambiente como um apêndice da área social. A grande ilha central resolve dois problemas simultaneamente: organiza a circulação durante as reuniões — quando várias pessoas estão no espaço ao mesmo tempo — e cria um ponto de convivência natural, onde quem cozinha não fica de costas para os convidados.

A estrutura gourmet integrada é um investimento que muda o uso real da casa. Projetos que separam a cozinha do espaço de receber acabam criando uma dinâmica artificial, onde o anfitrião some para preparar a comida e volta só para servir. Aqui, a proposta é outra: cozinhar é parte do programa de entretenimento.

“Quando o cliente diz que quer receber amigos para cozinhar, o projeto precisa responder a isso com infraestrutura real, não só com estética. Coifas potentes, bancadas em altura adequada para trabalho prolongado, armazenamento acessível — esses detalhes fazem a diferença no uso cotidiano”, observa o escritório sobre o desenvolvimento do projeto.





