Nem toda reforma começa por uma grande insatisfação. Às vezes, o que impulsiona a mudança é simplesmente o desejo de revelar o potencial que o imóvel sempre teve, mas que ficou encoberto por escolhas de outra época. Foi exatamente isso que aconteceu em São Luís, no Maranhão, quando o empresário Cícero Evandro Soares Silva decidiu transformar a casa onde mora com seus dois filhos, Davi e Nicolas, em um espaço que refletisse uma outra forma de habitar.
A residência, com 475 m² de área construída em um terreno de 548 m² dentro de um condomínio fechado no bairro Ponta do Farol, tinha um problema visual claro: as telhas cerâmicas aparentes e as varandas com pé-direito baixo comprimiam a leitura do imóvel e o faziam parecer menor e mais pesado do que sua metragem sugeria. A reforma integral foi entregue ao arquiteto Roby Macedo, do escritório Roby Studio de Arquitetura, que já conhecia bem o cliente. “O Cícero é um cliente antigo do nosso escritório; já havíamos reformado as clínicas dele”, conta Roby.
Essa familiaridade foi determinante para o resultado. Quando o profissional já conhece os hábitos, o gosto e a rotina de quem vai morar no espaço, as decisões de projeto ganham precisão. O programa de necessidades que guiou o trabalho era claro: área social ampla e integrada para receber, uma varanda generosa com churrasqueira, um closet confortável e uma suíte master bem setorizada, com banheiros separados.
“Entre os principais pedidos do cliente estavam a criação de uma área social ampla e integrada para receber, uma varanda generosa com churrasqueira, um closet confortável e uma suíte master bem setorizada, com banheiros separados”, resume o arquiteto.
A fachada que mudou tudo

Produção Visual: Itamar Jose Estúdio
O ponto de partida da transformação foi a fachada. O telhado cerâmico foi eliminado e substituído por um volume de linhas retas e geometria precisa, combinando pedra bruta, madeira cumaru e guarda-corpo em vidro. A solução foi tão marcante que batizou o projeto: Casa Cubo.
A nova composição não é apenas estética. Ela resolve também a percepção de escala, tornando a edificação mais imponente e alinhada às linguagens do design contemporâneo que dominam os projetos residenciais de alto padrão no Brasil.
A antiga varanda, que ocupava a frente da casa com pé-direito baixo, foi completamente eliminada. No lugar, surgiu uma sala com pé-direito duplo, um dos recursos mais eficientes da arquitetura de interiores para ampliar a sensação de espaço e promover a entrada de luz natural de forma generosa. Além disso, a garagem, antes projetada para dois carros, foi ampliada para acomodar três veículos, uma mudança que reorganizou o setor de serviço e melhorou o fluxo de chegada ao imóvel.
Como os dois pavimentos foram reorganizados

Produção Visual: Itamar Jose Estúdio
A planta passou por alterações substanciais nos dois andares. No pavimento térreo, o projeto concentra o hall de entrada com biblioteca, as salas de estar e jantar integradas à adega, o lavabo, uma suíte, a cozinha e os ambientes de apoio.

Produção Visual: Itamar Jose Estúdio
A integração entre sala e adega é um movimento que aparece cada vez mais nos projetos residenciais contemporâneos: além do apelo estético, aproxima o convívio social de um elemento que, antes, ficava restrito a ambientes fechados.

Produção Visual: Itamar Jose Estúdio
No pavimento superior, foram distribuídas a suíte master com closet, dois banheiros, banheira e espaço de maquiagem, além de varanda privativa, as demais suítes e a rouparia.

Produção Visual: Itamar Jose Estúdio
A setorização do andar superior reflete um entendimento importante de projeto: o dormitório do casal ou do proprietário não precisa apenas de um quarto bonito. Ele precisa funcionar como um apartamento dentro da casa, com todos os recursos de uma rotina confortável.
A escada que virou protagonista
Um dos maiores erros em reformas de casas com dois pavimentos é manter a escada original apenas por comodidade, sem avaliar o impacto que ela causa no layout e na leitura visual da área social. Aqui, a decisão foi outra.
A escada de alvenaria foi demolida e substituída por uma escada helicoidal em aço corten, com degraus de madeira, que ocupa o centro da sala com pé-direito duplo. O resultado é uma peça escultural que organiza visualmente o espaço e, ao mesmo tempo, convida o olhar para cima, reforçando a altura do ambiente.

Produção Visual: Itamar Jose Estúdio
O aço corten é um material que envelhece de forma controlada, desenvolvendo uma pátina alaranjada característica que dialoga bem com as madeiras escuras e os tons neutros da paleta do projeto. Seu uso em escadas internas ainda é relativamente incomum no Brasil, o que confere ao ambiente um caráter distintivo, sem apelar para o exótico.

Produção Visual: Itamar Jose Estúdio
A área externa como extensão do interior
A área externa foi organizada em torno da piscina e de uma ampla varanda coberta, com estrutura de vidro e forro em ripas de madeira que controlam a entrada de luz natural e criam uma atmosfera protegida sem perder a conexão com o jardim.
O espaço abriga estar, área gourmet com churrasqueira e mesa de refeições, e pode ser isolado e climatizado por meio de grandes portas de vidro, o que garante flexibilidade para uso em diferentes estações do ano.

Produção Visual: Itamar Jose Estúdio
“O conceito geral do projeto parte da ideia de uma casa discreta e silenciosa, sem aberturas frontais, preservando a privacidade dos moradores, mas que se abre generosamente para o paisagismo lateral, integrando interior e exterior”, explica Roby Macedo.
Essa escolha é mais estratégica do que parece: ao concentrar as grandes aberturas no setor lateral e na área externa, o projeto preserva a privacidade da fachada principal sem abrir mão da sensação de amplitude interna.

Produção Visual: Itamar Jose Estúdio
- Veja também: Casa CLV em Cajamar: o projeto do Cornetta Arquitetura que usa madeira laminada colada para flutuar sobre o terreno
Decoração com design brasileiro
A decoração foi completamente renovada, com curadoria voltada ao design autoral brasileiro. Peças assinadas por Sergio Rodrigues, Jader Almeida, Tiago Curioni, André Ferri e Studio Pedrazzi compõem os ambientes ao lado de mobiliário criado pelo próprio arquiteto, como o aparador aéreo em marcenaria desenvolvido para ocultar os equipamentos de áudio e vídeo.
Essa solução é um bom exemplo do que realmente faz diferença em projetos de alto padrão: a tecnologia integrada ao projeto, sem cabos à mostra, sem caixas sobre móveis, sem comprometer a estética do ambiente. A paleta de cores escolhida é neutra e sóbria, combinando porcelanato cinza claro com aspecto de cimento queimado, madeiras como cumaru e pau-ferro, e pedras naturais brutas em tons de cinza.

Produção Visual: Itamar Jose Estúdio
Essa combinação é bastante eficiente para projetos que precisam de longevidade estética: ao evitar tendências de cores, o projeto se mantém atual por muito mais tempo, podendo receber novas peças e obras de arte sem que o ambiente precise ser repensado.
Três anos, uma casa diferente
O projeto levou três anos para ser concluído, período que reflete não apenas a escala da reforma, mas a atenção ao detalhe que um resultado desse nível exige. O maior desafio, segundo Roby Macedo, foi justamente transformar uma construção marcada por telhas cerâmicas e varandas comprimidas em um espaço mais amplo, iluminado e contemporâneo, sem perder a identidade do terreno e sem descaracterizar o que ainda funcionava bem no imóvel original.




