Há projetos que começam resolvendo um problema técnico e terminam entregando muito mais do que isso. A Casa CLV, desenvolvida pelo Cornetta Arquitetura em Cajamar, no interior de São Paulo, é um desses casos. Diante de um terreno com declividade acentuada, o escritório poderia ter optado pelo caminho convencional: contenções de concreto, movimentação de terra em larga escala, execução demorada.
Em vez disso, o projeto tomou outra direção, elevando o volume principal sobre pilotis metálicos e permitindo que a estrutura simplesmente flutuasse sobre a topografia existente. Essa decisão não é apenas estética. Trata-se de uma escolha que reduz significativamente o custo e o impacto ambiental da obra.
Ao evitar grandes escavações, o projeto preserva a estabilidade do solo, diminui o volume de resíduos gerados e ainda garante que a ventilação cruzada funcione naturalmente sob a edificação. A mata nativa, que margeia o terreno, deixou de ser um obstáculo e passou a fazer parte da composição visual da casa, enquadrada pelas aberturas e pela própria elevação da estrutura.
Sistema construtivo industrializado: a precisão como ponto de partida
O grande diferencial técnico da Casa CLV está no seu sistema construtivo seco e industrializado, que tem como protagonista a Madeira Laminada Colada (MLC). Diferente da construção úmida tradicional, esse método elimina a espera do tempo de cura do concreto em diversas etapas, permitindo uma execução mais ágil e controlada.

As lajes secas e os painéis isotérmicos de galvalume completam o sistema, garantindo desempenho térmico e leveza ao conjunto. A lógica modular rege toda a concepção do projeto. Isso significa que as medidas adotadas partem de componentes já disponíveis no mercado, como perfis e vidros padronizados, o que elimina cortes desnecessários, reduz o tempo de execução e praticamente zera o desperdício de material.
Esse tipo de raciocínio, que começa na prancheta e só funciona se houver rigor técnico na obra, é o que diferencia um projeto industrializado de uma construção que simplesmente usa materiais industriais de forma improvisada.

Para viabilizar os balanços sobre o terreno criados pela implantação elevada, foram empregados tirantes metálicos que absorvem os esforços de tração e compressão gerados pelos volanços da estrutura. O resultado visual é de leveza, quase uma contradição com a robustez real dos sistemas envolvidos. Na base, o concreto e a pedra natural aparecem nas áreas de lazer, ancorando o projeto ao solo de forma honesta, sem disfarces.
O interior que organiza sem enrijecer
Por dentro, a Casa CLV adota uma organização linear e fluida, onde os ambientes se sucedem sem barreiras desnecessárias. A marcenaria autoral assume o papel de elemento organizador dos espaços: não apenas como solução de armazenamento, mas como elemento que define zonas de uso, direciona circulações e dá identidade a cada ambiente.

A continuidade da madeira, presente tanto na estrutura quanto no acabamento interno, cria uma atmosfera de aconchego genuíno. Não é o tipo de aconchego produzido por uma decoração que simula naturalidade, mas aquele que surge quando os materiais são consistentes com a proposta do projeto.
Aliás, esse alinhamento entre estrutura e acabamento é um dos pontos mais difíceis de alcançar na arquitetura residencial e, aqui, aparece com naturalidade.

A escolha por materiais naturais ao longo de toda a residência reforça a conexão com o entorno. A mata nativa, que guia a implantação lá fora, reverbera no interior por meio das texturas, tons e da própria madeira que atravessa o projeto do teto ao chão.





