Casa Bola recebe a quinta edição da mostra Aberto e transforma a Faria Lima em galeria a céu aberto

Exposição ocupa o ícone esférico de Eduardo Longo e espalha 15 obras comissionadas pela avenida mais simbólica da arquitetura corporativa paulistana.

Casa Bola recebe a quinta edição da mostra Aberto e transforma a Faria Lima em galeria a céu aberto

Foto: Ruy Teixeira

Entre curvas improváveis e concreto experimental, a Casa Bola, projetada por Eduardo Longo nos anos 1970, volta a ocupar o centro do debate arquitetônico. Ícone radical no bairro dos Jardins, em São Paulo, a residência será o cenário da quinta edição da mostra Aberto, evento que investiga as conexões entre arquitetura, arte e design a partir do diálogo direto com espaços emblemáticos.

Mais do que uma exposição, trata-se de uma ocupação crítica. Assim, o projeto modernista ganha novas camadas de interpretação ao receber cerca de 60 obras assinadas por mais de 50 artistas brasileiros e internacionais. Ao mesmo tempo, a Avenida Brigadeiro Faria Lima — eixo simbólico da arquitetura corporativa paulistana — será ativada por 15 intervenções comissionadas, ampliando o alcance da mostra para o espaço público.

A Casa Bola como manifesto arquitetônico

Construída como experimento estrutural e formal, a Casa Bola rompeu, à época, com a lógica ortogonal dominante. Suspensa, esférica e quase futurista, a residência sintetiza o espírito inquieto de Eduardo Longo, arquiteto que buscava questionar padrões construtivos e modos de habitar.

Foto: Ruy Teixeira

Não por acaso, a edição atual dedica um núcleo especial à trajetória do profissional, com projetos, desenhos, fotografias, maquetes e obras que ajudam a compreender a dimensão conceitual de sua produção. A proposta, contudo, não é apenas retrospectiva. Ao lançar uma cadeira inédita desenhada por Longo para a Etel, a mostra reafirma a vitalidade de seu pensamento no design contemporâneo.

Essa leitura ampliada reforça a potência da arquitetura como linguagem viva. Ao ocupar a casa, os artistas não a utilizam como mero cenário; eles tensionam suas curvas, exploram seus vazios e ativam sua espacialidade singular.

Da residência experimental à cidade como suporte

Se a Casa Bola concentra a experiência imersiva, a ocupação da Faria Lima projeta a mostra para a escala urbana. As 15 intervenções comissionadas distribuem-se ao longo da avenida, inserindo arte contemporânea no fluxo cotidiano de pedestres e automóveis.

Essa decisão curatorial desloca o evento do circuito fechado das galerias e o insere na paisagem real da cidade. Assim, o diálogo entre arte, arquitetura e espaço público torna-se inevitável. A Faria Lima, marcada por torres envidraçadas e edifícios corporativos, passa a abrigar obras que questionam ritmo, escala e permanência.

Curadoria e diálogo interdisciplinar

A curadoria, assinada por Filipe Assis, Kiki Mazzucchelli e Claudia Moreira Salles, articula diferentes linguagens e gerações. O resultado é um percurso que atravessa mobiliário, instalação, escultura e desenho, sempre em relação direta com o contexto arquitetônico.

Foto: Ruy Teixeira

Além da cadeira inédita de Longo, Claudia Moreira Salles apresenta uma mesa e uma poltrona especialmente desenvolvidas para a edição. O gesto reforça um dos pilares da mostra Aberto: provocar encontros produtivos entre criação autoral e arquitetura existente.

Esse método já foi aplicado em edições anteriores realizadas em obras de arquitetos como Oscar Niemeyer, Vilanova Artigas e Ruy Ohtake, além de experiências internacionais. Contudo, ao retornar a São Paulo e escolher a Casa Bola como sede, o evento parece assumir um posicionamento mais crítico — menos monumental e mais experimental.

A experiência espacial como protagonista

Internamente, a exposição convida o visitante a percorrer volumes curvos, planos inclinados e aberturas circulares que desafiam a percepção tradicional do morar. A luz natural, filtrada pelas superfícies, reforça o caráter sensorial da visita.

Foto: Ruy Teixeira

Nesse sentido, a experiência não é apenas visual. É corporal. Ao caminhar pelo interior da casa, o visitante percebe como a forma arquitetônica influencia a leitura das obras e, simultaneamente, como as intervenções revelam aspectos antes despercebidos do projeto original.

Essa sobreposição de tempos — anos 1970 e contemporaneidade — cria um campo fértil de interpretação. A Casa Bola, que já foi considerada visionária, hoje funciona como plataforma para discutir o futuro da arquitetura e sua capacidade de dialogar com outras disciplinas.

Serviço

Aberto 5
De 7 de março a 31 de maio
Casa Bola — Rua Amauri, 352, Jardim Europa, São Paulo

Informações sobre horários, visitação e ingressos devem ser consultadas nos canais oficiais do evento.

  • Cláudio P. Filla é comunicador social e especialista em mídias digitais, com mais de 11 anos de atuação na curadoria de tendências para o mercado de arquitetura e decoração. Como editor-chefe do Enfeite Decora, Cláudio lidera um conselho editorial composto por arquitetos, designers de interiores e paisagistas registrados (CAU/ABD), garantindo que cada artigo combine inspiração visual com rigor técnico e normativo. Sua missão é traduzir o complexo universo da construção e do design em soluções práticas, sustentáveis e acessíveis, sempre sob o respaldo de profissionais renomados do setor brasileiro.

    Para mais conteúdos do Enfeitedecora, siga o nosso X (Twitter), Instagram e Facebook, inscreva-se no nosso canal no Spotify, Pinterest e acompanhe as atualizações sobre decoração, arquitetura, arte e projetos inspiradores.


    E-mail: contato@enfeitedecora.com.br

Sair da versão mobile