Existe um ponto no design contemporâneo em que o móvel para de ser apenas utilitário e começa a funcionar como uma declaração de intenção no espaço. A THE OBJECT 01, desenvolvida pelo designer búlgaro Nako Baev, radicado em Amsterdã, ocupa exatamente esse lugar. À primeira vista, parece ter sido esculpida em concreto ou talhada em pedra. Na prática, nasceu de garrafas de água descartadas.
O material de base é o PETG reciclado, um polímero presente em embalagens plásticas comuns, conhecido pela resistência e leveza. Cada bloco é impresso em 3D individualmente e projetado para se encaixar ao seguinte, formando uma estrutura completamente modular. O resultado final pesa 20 kg, uma massa que, aliada à geometria marcada da peça, comunica solidez sem precisar de nenhum material nobre para isso.
Quando o processo vira linguagem
O grande erro em projetos de design sustentável é tentar esconder a origem do material, como se o resíduo fosse algo a ser disfarçado. Baev faz o oposto. As texturas características da impressão 3D, aquelas camadas sobrepostas que muitos projetos buscam lixar e polir até desaparecerem, são preservadas e assumidas como parte da identidade visual da cadeira.
Dessa forma, o método de produção deixa de ser um detalhe técnico e passa a ser o próprio acabamento. Cada linha de deposição de material é visível, criando uma superfície que remete ao concreto aparente ou à pedra irregularmente cortada. A paleta reforça essa leitura: Baev batizou o tom final de Kyoto Fog, um cinza frio que orbita entre o cimento e a rocha fosca, sem qualquer brilho ou pigmentação que desvie a atenção da forma.
“Ela combina o brutalismo minimalista com a contenção japonesa, sendo definida por proporção, massa e espaço negativo, em vez de decoração”, descreve o próprio Nako Baev.
Brutalismo e referência japonesa: uma combinação mais coerente do que parece
A estética brutalista no mobiliário não é novidade, mas costuma caminhar pelo excesso, pela forma que impõe peso visual mesmo quando leve. O que Baev propõe com a THE OBJECT 01 é uma versão mais contida desse vocabulário, filtrada pela noção japonesa de ma, o conceito de espaço negativo como elemento ativo da composição.
Na prática, isso significa que os vazios da cadeira têm tanto peso visual quanto os volumes sólidos. A proporção entre cheio e vazio é calculada, e é justamente esse equilíbrio que afasta a peça do brutalismo mais pesado e a aproxima de um objeto arquitetônico com presença escultórica, mas sem brutalidade desnecessária.
Aliás, a própria modularidade da estrutura colabora para essa sensação. Como cada bloco existe de forma independente antes de compor o conjunto, há uma repetição rítmica na geometria que dialoga bem com a ideia de proporção como linguagem.
O papel da inteligência artificial no desenvolvimento
O projeto contou com o suporte de inteligência artificial nas etapas iniciais, tanto nos estudos de forma quanto nos testes estruturais e no refinamento do design. Essa integração não é um detalhe menor: ao simular comportamentos estruturais antes de qualquer impressão física, o processo reduz desperdício de material e diminui o número de protótipos necessários.
Para o design de mobiliário sustentável, esse tipo de fluxo de trabalho representa um caminho relevante. Não apenas pelo ganho de eficiência, mas porque permite explorar geometrias mais complexas sem o custo associado a tentativa e erro em produção física.
Entre o mobiliário e a escultura
A THE OBJECT 01 não foi pensada para se dissolver em um ambiente. Ela foi projetada para se impor nele. Colocada em um espaço de decoração minimalista, com piso de cimento, paredes brancas e iluminação natural lateral, a peça funciona como ponto focal sem precisar de cor, estampa ou material premium para isso.
Essa é, aliás, uma das discussões mais relevantes que o projeto abre para o design de interiores contemporâneo: o que define o valor de um objeto? A origem do material, a complexidade do processo ou a força visual e conceitual da peça resultante?
“A cadeira é definida por proporção, massa e espaço negativo”, reforça Baev, e é nessa síntese que reside a consistência do projeto. Em um mercado saturado de peças que buscam originalidade pela ornamentação, a THE OBJECT 01 aposta no oposto e, por isso, se destaca.
