Branco, madeira clara e cozinha integrada: como um apê de três quartos em Ipanema ganhou alma escandinava

Paleta entre branco, bege e areia, cimento queimado off-white e marcenaria amadeirada clara: a reforma que transformou um imóvel com décadas de uso em um lar minimalista, funcional e cheio de personalidade

Branco, madeira clara e cozinha integrada: como um apê de três quartos em Ipanema ganhou alma escandinava

Foto: Lília Mendel

Há apartamentos que carregam histórias em camadas. O imóvel de 118 m² e três quartos localizado em Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro, é um deles. Reformado nas décadas de 1990 e 2000, o espaço chegou às mãos de seus novos proprietários com configurações que não dialogavam mais com o modo de vida contemporâneo.

A atualização era inevitável e o resultado, à altura do endereço. O casal responsável pela transformação tem uma rotina verdadeiramente internacional: ela é chilena e atua como produtora audiovisual, ele é canadense e designer. Entre Santiago, o Canadá e o Rio, o apartamento carioca foi eleito como base para as temporadas brasileiras.

“O apartamento foi escolhido como refúgio no Rio de Janeiro, já que os clientes vivem em Santiago, no Chile, e também passam temporadas no Canadá. Apesar da rotina internacional, são apaixonados pela cidade e, como ambos trabalham em home office, podem passar semanas ou meses aqui, conciliando a vida profissional”, explica a arquiteta Marina Vilaça, do escritório MBV Arquitetura, responsável pelo projeto.

Foto: Lília Mendel

Esse dado muda tudo na leitura do projeto. Um imóvel de uso intermitente, mas intenso, exige materiais de baixa manutenção, circulação fluida e uma estética que seja ao mesmo tempo acolhedora e prática. O estilo escandinavo atende a esses critérios com precisão técnica, não apenas estética.

A paleta que define o projeto: branco, areia e madeira clara

A diretriz de cores foi estabelecida pelos próprios moradores: branco, bege, tons de areia e madeira clara. Mais do que uma preferência visual, essa escolha tem um fundamento projetual importante. Em apartamentos que recebem luz natural generosa, como é típico em Ipanema, uma paleta clara potencializa a luminosidade sem saturar o ambiente.

Foto: Lília Mendel

O resultado é um espaço que parece maior do que suas dimensões reais e, ao mesmo tempo, confortável para longas horas de trabalho em home office. As paredes receberam pintura uniforme na cor Macramê da Suvinil, um tom que navega entre o off-white e o bege suave.

Essa escolha elimina a frieza que o branco puro pode gerar e cria uma base térmica para o restante da decoração. Nos pisos, a decisão foi ainda mais estratégica: cimento queimado off-white na área social, taco restaurado nos quartos — preservando o charme original do imóvel — e a cerâmica Brennand existente mantida na cozinha.

Foto: Lília Mendel

O grande erro em projetos de décor escandinavo é abusar do branco de forma monótona, sem variações de textura. Aqui, notamos que o cimento queimado, o taco e a cerâmica criam três planos de leitura distintos para o olho, mantendo a leveza cromática sem transformar o ambiente em algo clínico.

As marcenarias em MDF Seiva, padrão amadeirado com tonalidade clara, completam a composição. A madeira clara é um dos pilares do minimalismo nórdico justamente por trazer calor orgânico a ambientes predominantemente neutros, funcionando como contraponto à frieza que uma paleta só de brancos e beges poderia gerar.

A cozinha integrada: a transformação mais importante da planta

A principal mudança estrutural do projeto foi a abertura da cozinha integrada à sala. Mais do que uma tendência, essa decisão reflete um modo de morar. Para um casal que trabalha em casa, a fluidez entre os espaços de trabalho, convivência e preparo de alimentos é funcional — e não apenas decorativa.

Foto: Lília Mendel

A ilha de Dekton branco, com bancadas no mesmo material, centraliza o espaço e funciona como elemento de transição entre a cozinha e a sala de jantar. O Dekton é uma escolha tecnicamente acertada para superfícies de alto uso: resistente ao calor, a arranhões e à absorção de líquidos, mantém a aparência ao longo dos anos sem exigir cuidados específicos além da limpeza convencional.

Sob a janela da sala, um banco de alvenaria revestido com pastilhas em tom de areia resolve com elegância a área de jantar. Junto à mesa de tampo oval e quatro cadeiras, o banco cria uma composição que lembra, sutilmente, os recantos de bistrôs europeus — sem forçar nenhuma referência.

Foto: Lília Mendel

É uma solução que também economiza espaço físico e visual, já que elimina duas cadeiras adicionais sem reduzir a capacidade de acomodação.

Ainda na zona de serviço, o antigo banheiro foi convertido em lavanderia com um detalhe que revela a personalidade dos moradores: um cantinho para apreciar vinhos junto à janela. Pequeno, mas deliberado.

Circulação, conforto e os detalhes que equilibram o projeto

A decoração do apartamento foi selecionada pela arquiteta em visitas presenciais a lojas com os clientes — um processo que garante coerência entre o gosto pessoal dos moradores e a proposta técnica do projeto. Formas delicadas, materiais naturais e peças com acabamento cuidado foram os critérios de curadoria.

Foto: Lília Mendel

O filho do casal, de 9 anos, também foi considerado no planejamento. Um apartamento com circulação fluida e sem excesso de mobiliário facilita a movimentação de uma criança dentro do espaço sem comprometer a estética.

Os banheiros e lavanderia receberam porcelanato, encerrando a lógica de pisos do projeto: cada ambiente com o revestimento mais adequado à sua função, todos dentro da mesma paleta cromática. Essa coerência é o que garante unidade visual mesmo com materiais diferentes em cada cômodo.

Foto: Lília Mendel

“O maior desafio deste projeto foi executar a obra em tempo recorde: apenas 3 meses. Contando com a finalização da decoração, no total foram 4 meses”, conta Marina Vilaça.

O que o apartamento de Ipanema comunica, no fim, vai além do estilo escandinavo. É sobre criar um lugar que respeita a rotina de quem mora nele — com praticidade, materiais duráveis e uma estética que não cansa com o tempo. Para um casal que atravessa continentes e chega ao Rio em busca de leveza, isso tem um valor que nenhuma tendência explica sozinha.

  • Cláudio P. Filla é comunicador social e especialista em mídias digitais, com mais de 11 anos de atuação na curadoria de tendências para o mercado de arquitetura e decoração. Como editor-chefe do Enfeite Decora, Cláudio lidera um conselho editorial composto por arquitetos, designers de interiores e paisagistas registrados (CAU/ABD), garantindo que cada artigo combine inspiração visual com rigor técnico e normativo. Sua missão é traduzir o complexo universo da construção e do design em soluções práticas, sustentáveis e acessíveis, sempre sob o respaldo de profissionais renomados do setor brasileiro.

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