Nem toda tendência nasce do novo. Algumas simplesmente retornam com outra leitura — mais consciente, mais leve e alinhada ao modo de morar atual. A boiserie, tradicional elemento da arquitetura francesa, segue exatamente esse caminho. O que antes simbolizava opulência aristocrática hoje aparece reinterpretado em projetos que valorizam proporção, textura e identidade visual, sem excessos decorativos.
O grande equívoco é acreditar que a boiserie na decoração pertence apenas a ambientes clássicos. Na prática, ela se transformou em um recurso arquitetônico capaz de organizar paredes, criar ritmo visual e até corrigir a percepção espacial dos ambientes. Quando bem aplicada, deixa de ser ornamento e passa a atuar como estrutura estética do espaço.
Segundo a arquiteta Cristiane Schiavoni, “sem sombra de dúvidas elas sempre terão seu lugar de destaque no décor de interiores. A mudança está nas características que marcavam os projetos dos séculos passados e que carregam a essência, os valores e os comportamentos que ditavam as grandes residências daquelas épocas”. O que muda, portanto, não é o elemento em si, mas a intenção projetual.
A boiserie além do clássico: quando o detalhe vira arquitetura
Originalmente produzidas em madeira esculpida (origem do termo francês bois), as boiseries surgiram como painéis decorativos capazes de proteger paredes e, ao mesmo tempo, demonstrar status social. Eram densas, ornamentadas e carregadas de relevos.
Hoje, a lógica é outra.

A arquitetura contemporânea exige leveza visual. Assim, o desenho das molduras passa a priorizar linhas limpas e proporções mais equilibradas. O excesso de informação, comum nas versões históricas, dá lugar a composições mais silenciosas, capazes de dialogar com mobiliários modernos e paletas neutras.
Essa mudança acompanha também a evolução dos materiais. Poliestireno, MDF e perfis técnicos substituem a madeira maciça, tornando a instalação mais rápida e acessível. Cristiane Schiavoni destaca sua preferência pelo poliestireno justamente pela praticidade: “como ela já vem pronta, basta colar e, dependendo da cor da parede, não é necessário pintar”.
Além de reduzir etapas de obra, o material amplia as possibilidades de aplicação, inclusive em áreas úmidas. A moldura existe para organizar o olhar e esse é o critério que define uma aplicação bem-sucedida.
Clássica ou moderna? A diferença está no desenho, não no conceito
A comparação entre boiserie clássica e boiserie moderna costuma gerar confusão. Muitos imaginam que a versão contemporânea elimina a essência do elemento, quando na verdade apenas redefine sua linguagem.

Nos projetos atuais, o segredo está no equilíbrio. Molduras mais finas, espaçamentos generosos e composições geométricas criam uma leitura atual sem apagar o caráter histórico da peça. Em dormitórios, por exemplo, a boiserie pode substituir cabeceiras tradicionais, criando painéis que estruturam visualmente a parede sem necessidade de grandes volumes.
É justamente essa adaptação que permite sua presença em projetos minimalistas, escandinavos e até industriais. O clássico permanece, mas com uma expressão mais contida.
- Veja também: Boiserie: como prestigiar esse clássico da arquitetura de interiores nos projetos contemporâneos
Onde a boiserie funciona melhor — e onde muitos erram
Uma das maiores vantagens da boiserie em projetos contemporâneos é sua versatilidade. Diferente do que se imaginava décadas atrás, ela não se restringe a salas formais.

Dormitórios, home theaters, lavabos e corredores se beneficiam especialmente do recurso, pois são ambientes onde as paredes assumem maior protagonismo visual. Cristiane Schiavoni reforça que não há restrições quanto aos espaços: “podemos considerá-la nos dormitórios, na sala de estar — que eu adoro —, no home theater, lavabos e até no banheiro, visto que hoje existem materiais resistentes à umidade”.
O grande erro aqui é exagerar na quantidade de molduras ou ignorar a escala do ambiente. Em apartamentos compactos, desenhos muito fragmentados criam poluição visual. Já em espaços amplos, molduras pequenas demais desaparecem na composição.
A proporção sempre vem antes do estilo.
Quando o décor trabalha a favor da boiserie
Por ser um elemento naturalmente expressivo, a boiserie na arquitetura de interiores pede diálogo com o restante do ambiente. Em vez de competir com objetos decorativos, ela funciona melhor quando atua como pano de fundo para arte, iluminação ou mobiliários de presença.

Ambientes que combinam peças vintage, obras afetivas ou móveis com história tendem a potencializar o efeito emocional das molduras. Isso acontece porque a boiserie carrega uma memória estética coletiva, algo que o olhar reconhece mesmo sem perceber conscientemente.
Cores também desempenham papel estratégico. Tons próximos ao da parede criam um efeito camuflado e sofisticado, enquanto contrastes evidenciam o desenho arquitetônico. Ambas as escolhas funcionam, mas com intenções distintas: uma privilegia a sutileza, a outra transforma a parede em protagonista.
Iluminação: o detalhe que transforma completamente o resultado
Poucos elementos valorizam tanto a boiserie decorativa quanto a iluminação correta. A incidência de luz cria sombras suaves que revelam profundidade e textura, algo impossível de perceber apenas com iluminação geral.

Arandelas, focos direcionados ou iluminação difusa são soluções recorrentes porque permitem explorar diferentes atmosferas. Uma luz mais marcada destaca o relevo e cria dramaticidade; já a iluminação lavada suaviza o efeito e integra a moldura ao conjunto arquitetônico.
Aqui entra uma dica prática que muitos projetos ignoram: posicionar a iluminação considerando o horário em que o ambiente é mais utilizado. A luz natural da tarde, por exemplo, pode criar sombras inesperadas que valorizam — ou anulam — completamente o desenho das molduras.
O retorno do detalhe como linguagem do morar
O crescimento da boiserie na decoração contemporânea revela algo maior do que o resgate de um elemento clássico. Ele aponta para uma mudança no comportamento do morar: a busca por ambientes com identidade, capazes de equilibrar simplicidade e narrativa visual.
Percebemos que, após anos dominados por superfícies totalmente lisas, o olhar voltou a desejar textura e profundidade. Nesse contexto, a boiserie surge como solução precisa — discreta o suficiente para não pesar, mas expressiva o bastante para transformar a percepção do espaço.
Quando bem aplicada, ela não apenas emoldura paredes. Ela organiza o ambiente, conduz o olhar e cria uma sensação de permanência difícil de alcançar apenas com pintura ou revestimentos planos. E é justamente essa capacidade de atravessar épocas sem perder relevância que mantém o recurso vivo dentro da arquitetura de interiores.





