Assim como acontece na moda e na arquitetura, alguns elementos atravessam o tempo sem perder relevância. Eles se transformam, ganham novas leituras e passam a dialogar com estilos, hábitos e formas de morar contemporâneas. É exatamente esse o percurso da boiserie, um recurso clássico da arquitetura de interiores que segue presente em projetos atuais — agora com menos excessos, mais significado e forte apelo estético.
Tradicionalmente associada a palácios e residências históricas, a boiserie deixou de ser apenas um ornamento decorativo e passou a atuar como elemento de linguagem. Em vez de protagonizar ambientes carregados, hoje ela estrutura paredes, cria ritmo visual e reforça sensações como aconchego, elegância e memória afetiva.
“Sem sombra de dúvidas, as boiseries sempre terão lugar de destaque no décor de interiores. O que muda é a forma como elas são interpretadas dentro do contexto atual, respeitando novos valores, comportamentos e estilos de vida”, afirma a arquiteta Cristiane Schiavoni, à frente de seu escritório homônimo.
Da boiserie clássica à boiserie moderna
A origem da boiserie está ligada à madeira — bois, em francês — esculpida manualmente para criar painéis ornamentados, ricos em detalhes e relevos. Com o passar dos séculos e o avanço dos processos construtivos, o recurso passou por uma transformação significativa, tanto estética quanto funcional.

Nos projetos contemporâneos, a boiserie moderna surge com desenhos mais limpos, proporções equilibradas e menos informação visual. “Hoje, o segredo está no equilíbrio. É fundamental usar a boiserie de forma mais leve, sem excesso de molduras ou recortes muito elaborados”, explica Cristiane.
Além da estética, os materiais também evoluíram. O uso de poliestireno e outros compostos industrializados ampliou as possibilidades de aplicação, reduziu custos e facilitou a manutenção. “Tenho uma predileção pelo poliestireno porque ele dispensa massa e lixamento. As peças já vêm prontas, são coladas diretamente na parede e, dependendo da cor, nem precisam de pintura”, detalha a arquiteta.
Onde aplicar a boiserie nos projetos atuais
Um dos grandes diferenciais da boiserie na arquitetura de interiores contemporânea é sua versatilidade. Diferente do passado, quando ficava restrita a salões formais, hoje ela pode ser usada em praticamente todos os ambientes da casa.
Dormitórios, salas de estar, home theaters, corredores, lavabos e até banheiros comportam o recurso, desde que o material seja adequado ao uso. “Atualmente existem boiseries produzidas com materiais resistentes à umidade, o que permite sua aplicação até em áreas molhadas, sem prejuízo estético ou técnico”, esclarece Cristiane.
Nos quartos, por exemplo, a boiserie pode assumir um papel afetivo, criando cenários acolhedores e personalizados. Já nas áreas sociais, funciona como pano de fundo para obras de arte, mobiliário assinado ou peças com valor simbólico.
Boiserie como elemento de valorização do décor
Mais do que decorar, a boiserie contemporânea ajuda a contar histórias. Ela cria enquadramentos, conduz o olhar e estabelece hierarquias visuais no ambiente. Por isso, a escolha do que será posicionado sobre ou diante dessas molduras é determinante para o resultado final.

“A boiserie resgata sentimentos e se torna um meio interessante para valorizar peças de memória afetiva, móveis vintage ou objetos adquiridos em antiquários e leilões”, observa Cristiane Schiavoni. Dessa forma, o clássico não aparece como algo engessado, mas como um recurso vivo, que dialoga com o presente.
A escolha das cores também exerce papel fundamental. Tons neutros, como branco, off-white e cinza, criam um efeito sofisticado e atemporal, podendo destacar ou suavizar a presença das molduras. “Quando as molduras ‘preenchem’ a parede, a cor pode tanto evidenciar o desenho quanto camuflá-lo. As duas opções são elegantes — tudo depende do objetivo do projeto”, explica a arquiteta.
Iluminação: o detalhe que transforma a boiserie
A iluminação é um dos grandes aliados da boiserie na decoração. Quando bem planejada, ela potencializa relevos, cria jogos de luz e sombra e reforça a profundidade das molduras.
Cristiane recomenda o uso estratégico de arandelas, luminárias de parede ou pontos de luz direcionados para valorizar o desenho. “A iluminação pode destacar a boiserie com foco preciso ou atuar de forma mais difusa, criando uma leitura suave e acolhedora da parede”, orienta.
Em corredores e lavabos, por exemplo, a luz ajuda a transformar a boiserie em protagonista do espaço. Já em dormitórios e salas, contribui para uma atmosfera mais intimista e sofisticada.
Um clássico que segue atual
A permanência da boiserie nos projetos contemporâneos comprova que o clássico não precisa ser sinônimo de passado. Quando reinterpretada com sensibilidade, proporção e propósito, ela se adapta aos novos modos de morar, enriquecendo os interiores com identidade, elegância e significado.
Mais do que um elemento decorativo, a boiserie continua sendo uma ferramenta de linguagem arquitetônica — capaz de atravessar épocas, estilos e tendências sem perder sua essência.





