O artesanato de barro de Santana do São Francisco acaba de alcançar um marco histórico. O município sergipano, localizado às margens do Rio São Francisco, teve sua produção reconhecida como Indicação Geográfica (IG) pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Mais do que um selo técnico, trata-se de uma certificação que consolida identidade, tradição e pertencimento.
Com o novo registro, o Brasil passa a contar com 153 Indicações Geográficas nacionais, sendo 19 voltadas ao artesanato. No caso de Santana do São Francisco, o reconhecimento foi concedido na modalidade Indicação de Procedência (IP) — categoria que atesta a notoriedade e reputação consolidada de um território na produção de determinado bem.
Assim, o barro moldado pelas mãos sergipanas deixa de ser apenas expressão artística para assumir também posição estratégica dentro da economia criativa brasileira.
Território, identidade e valor agregado
O reconhecimento oficial estabelece uma relação direta entre o produto e seu território. No caso do artesanato de barro de Santana do São Francisco, a argila extraída da região, os saberes transmitidos entre gerações e as técnicas tradicionais formam um conjunto inseparável.
Segundo Maíra Fontenele Santana, analista de projetos da Unidade de Inovação do Sebrae Nacional, o impacto vai além da chancela formal. “A valorização de um produto com registro de IG abre mais oportunidades de negócios, oferece mais segurança jurídica e fortalece a tradição no território.”
Na prática, o selo funciona como um diferencial competitivo. Ele protege a origem, combate imitações e agrega valor percebido ao produto. Além disso, reforça a narrativa cultural que envolve cada peça produzida.
Aliás, esse reconhecimento também posiciona o município no cenário nacional de forma mais estruturada, criando condições para parcerias institucionais e investimentos.
Impacto econômico e fortalecimento da governança
O selo de Indicação Geográfica não se limita ao campo simbólico. Ele interfere diretamente na organização produtiva da região. A formalização exige governança local, critérios de produção e mecanismos de controle de qualidade — fatores que profissionalizam o setor.
Maíra destaca ainda que os benefícios se expandem para outras áreas. “Estimula o turismo na região, abre oportunidades para mais parcerias tanto com o poder público quando empresas privadas, melhora a governança da região e reforça vínculos com a identidade local pelo senso de pertencimento.”
Dessa forma, o artesanato sergipano passa a integrar uma cadeia mais ampla, envolvendo turismo cultural, comércio especializado e políticas públicas de valorização do patrimônio imaterial.
É importante observar que, das 19 IGs de artesanato já reconhecidas, 13 estão no Nordeste — região historicamente marcada pela força da produção manual e pela riqueza cultural.
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O que é uma Indicação Geográfica e por que ela importa?
As Indicações Geográficas brasileiras podem ser classificadas em duas categorias: Indicação de Procedência (IP) e Denominação de Origem (DO).
A IP, modalidade concedida ao artesanato de Santana do São Francisco, está relacionada à reputação consolidada de uma região como produtora tradicional de determinado bem.
Já a DO exige comprovação técnica de que fatores naturais — como solo, clima e topografia — influenciam diretamente nas características do produto.
Atualmente, das 153 IGs nacionais, 121 são IPs e 32 são DO. Esse crescimento demonstra que o Brasil vem consolidando uma política mais estruturada de valorização territorial.
Além disso, o selo fixado nas peças cria diferenciação imediata no mercado, permitindo que consumidores identifiquem procedência e autenticidade.
Artesanato brasileiro em expansão
O reconhecimento do artesanato de barro de Santana do São Francisco também dialoga com um movimento mais amplo de valorização do artesanato no país.
Em 2026, o Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB), sediado no Rio de Janeiro, completa 10 anos de atuação. A instituição tem desempenhado papel relevante na promoção do artesanato brasileiro, oferecendo exposições, capacitação e visibilidade nacional.
A estratégia de fortalecimento do setor inclui capacitação técnica, estruturação de governança e apoio à formalização das IGs — etapas fundamentais para consolidar o artesanato como ativo econômico e cultural.





