O grande erro ao falar de artesanato brasileiro é tratá-lo como algo periférico, decorativo ou apenas simbólico. Na prática, o que está em curso é um movimento estrutural que conecta design, decoração, arquitetura afetiva e economia criativa, com as mulheres ocupando o centro desse processo. Não por acaso.
Ao longo do território brasileiro, são elas que mantêm vivas técnicas transmitidas de geração em geração, organizam coletivos produtivos, negociam com o mercado e transformam o fazer manual em fonte real de renda. Com apoio do Sebrae, esse trabalho deixa de operar apenas na informalidade e passa a dialogar com novos circuitos — inclusive o da decoração contemporânea, que hoje valoriza autenticidade, matéria-prima natural e narrativa.
Esse protagonismo feminino não é discurso. Os dados mostram que mais de 77% dos artesãos profissionais cadastrados no país são mulheres, segundo o Sistema de Informação Cadastral do Artesanato Brasileiro (SICAB). Em regiões indígenas, quilombolas e ribeirinhas, são elas também as principais guardiãs dos saberes ancestrais, responsáveis por manter técnicas, materiais e modos de produção que resistem ao tempo e às pressões do consumo industrial.
Do fazer ancestral ao design contemporâneo
Existe um ponto em comum entre o artesanato brasileiro e o design de interiores atual: ambos buscam significado. Peças feitas à mão carregam imperfeições controladas, texturas reais e histórias que não se repetem — exatamente o que arquitetos e designers procuram quando desejam criar ambientes com identidade.
Nesse sentido, o trabalho feminino no artesanato não apenas preserva técnicas, mas reposiciona esses objetos dentro da casa contemporânea. Cerâmicas, fibras naturais, madeira reaproveitada e pigmentos orgânicos passam a dialogar com projetos arquitetônicos que valorizam sustentabilidade, memória e pertencimento.
Para a gestora nacional de Artesanato do Sebrae, Giselle Oliveira, esse protagonismo vai além da execução manual.
“As mulheres exercem um papel central e estruturante no artesanato brasileiro. São elas que perpetuam os conhecimentos, organizam os grupos produtivos e articulam a relação com o mercado. Esse protagonismo está diretamente ligado à geração de renda e à autonomia econômica”, afirma.
É justamente essa capacidade de organização e leitura de mercado que tem permitido ao artesanato brasileiro alcançar novos públicos — inclusive fora do país. Cerca de dois terços dos artesãos exportadores são mulheres, levando peças brasileiras para mercados como Estados Unidos e Europa, onde o feito à mão é entendido como valor, não como exceção.
Autonomia econômica começa dentro de casa
No Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, a artesã Adriana Xavier representa um exemplo claro dessa transformação silenciosa. Trabalhando com barro desde os 12 anos, ela herdou o conhecimento das mulheres da família e hoje produz peças utilitárias e decorativas com pigmentos naturais, amplamente reconhecidas no circuito do artesanato nacional.

“O artesanato é muito importante para as mulheres da minha comunidade porque, além de gerar renda, permite trabalhar em casa e ter independência financeira. Esse aprendizado precisa ser preservado para que a gente continue tendo essa liberdade”, relata Adriana.
O detalhe que muitas vezes passa despercebido é justamente esse: a possibilidade de gerar renda sem romper vínculos familiares, culturais e territoriais. Em vez de deslocamento forçado, o artesanato permite permanência qualificada, algo essencial para a sustentabilidade social e econômica das comunidades.
Quando tradição, reaproveitamento e design se encontram
No litoral do Piauí, a artesã Nêda Lopes transforma madeira reaproveitada trazida pela maré em pequenas vilas decorativas, além de luminárias e bolsas feitas com fibras naturais. O material que o oceano devolve vira objeto de desejo, carregado de narrativa e identidade.

“Eu aprendi vendo minha avó e minhas tias fazerem artesanato. É dentro de casa que essa cultura é transmitida”, conta. Com apoio do Sebrae em oficinas, eventos e divulgação, o artesanato passou de complemento de renda a atividade principal para diversas famílias da região.
“Comecei nas feiras e hoje consigo viver do artesanato. O incentivo faz a gente enxergar que isso pode ser o sustento da família”, completa.
Aqui, o que realmente faz a diferença não é apenas a técnica, mas o reposicionamento do produto. Quando bem orientado, o artesanato brasileiro deixa de competir por preço e passa a competir por valor — algo essencial também no universo da decoração e do design.
O artesanato como linguagem da casa contemporânea
Existe uma mudança clara na forma como as pessoas constroem seus espaços. Ambientes excessivamente padronizados perdem força diante de interiores que contam histórias. Nesse cenário, o artesanato feminino assume papel estratégico: ele conecta passado e presente, território e mercado, estética e função.
Contudo, para que essa transição seja sustentável, é fundamental qualificação, gestão e acesso a canais mais amplos. Ainda hoje, muitos desafios persistem, como renda média reduzida e dependência de vendas presenciais. É justamente nesse ponto que a atuação estruturada do Sebrae se mostra decisiva, ao promover capacitação técnica, gestão de marca, formalização e diálogo entre designers e artesãs — sem descaracterizar a identidade cultural.
Portanto, quando falamos de artesanato brasileiro feito à mão, não estamos falando apenas de tradição. Estamos falando de decoração com propósito, de design enraizado no território e de mulheres que transformam saber ancestral em autonomia econômica, sem abrir mão da própria história.
Esse é o tipo de valor que não se fabrica em série — e que, cada vez mais, define os espaços onde escolhemos viver.





