O design de materiais segue em busca do que a indústria convencional insiste em ignorar. Desta vez, a resposta veio dos grãos acumulados nos moinhos da Coreia do Sul — arroz excedente, envelhecido, sem destino. Nas mãos dos estudantes Juwon Kim e Na Hyeon, da Universidade de Hongik, esse descarte virou bloco de construção colorido, biodegradável e com textura controlada.
O projeto se chama SSAL: Rice as Matter, “arroz como matéria”, em tradução direta e parte de uma premissa simples: moer o grão, adicionar aglutinantes para formar uma massa maleável e, então, moldar blocos com corantes naturais. A paleta de cores vem de ingredientes como pimenta em pó, chá-verde e arroz negro, criando uma identidade visual que remete diretamente à cultura alimentar coreana.
A textura como variável de projeto
O que diferencia o SSAL de outros experimentos com materiais alternativos para construção é o controle sobre a granulometria. Ao ajustar o processo de moagem, os criadores conseguem definir a textura final da peça — do acabamento granulado, ideal para superfícies táteis, ao liso, adequado para aplicações mais refinadas.

“Ao moer o arroz, é possívelível controlar o tamanho das partículas para obter diferentes texturas, mais grossas para superfícies granuladas e mais finas para superfícies lisas”, conta Juwon Kim.
Essa variação transforma o material em algo tecnicamente interessante para o design de interiores: a mesma matéria-prima pode gerar peças com comportamentos visuais e táteis distintos, dependendo apenas do processo de fabricação. Não é necessário mudar a fórmula — basta ajustar a moagem.
A forma que veio da mesa
O formato dos blocos não é arbitrário. A geometria côncava foi diretamente inspirada na tigela de arroz coreana tradicional, conhecida como 밥그릇 (bapgeureut). A silhueta foi adaptada o suficiente para permitir o encaixe entre as peças, criando módulos que se conectam de forma intuitiva — um detalhe técnico que amplia as possibilidades de uso em composições modulares, painéis decorativos e estruturas expositivas.
Essa escolha formal carrega uma intenção narrativa clara. O objeto que serviu de inspiração é o mesmo que estava perdendo espaço nas mesas coreanas.
O arroz que deixou de ser comida
O ponto de partida do projeto é um dado cultural preocupante: o consumo de arroz na Coreia do Sul vem caindo de forma consistente, e com ele, o valor simbólico que o grão carregava por gerações. Os blocos SSAL nascem justamente dessa lacuna.
“Observamos uma falta de interesse pelo próprio arroz, levando os coreanos, que tradicionalmente o apreciam, a deixá-lo perder seu valor cultural”, explica Juwon.
A matéria-prima usada no projeto vem, principalmente, do descarte de moinhos locais e das reservas governamentais que se tornam resíduo após o envelhecimento. Não há competição com a cadeia alimentar — o arroz aproveitado é aquele que já seria perdido.
“Começamos esta história nesses moinhos que estão desaparecendo, repensando o arroz não como alimento, mas como matéria-prima para o design”, reforça o designer.
O que o material entrega na prática
Do ponto de vista técnico, o material à base de arroz apresenta algumas qualidades que merecem atenção no contexto do design e da construção leve. Ele é mais leve que o concreto e apresenta resistência compatível com outros materiais já usados em revestimentos para interiores. Além disso, por ser biodegradável, se posiciona como uma alternativa coerente para estruturas temporárias — estandes em feiras de design, instalações cenográficas, ambientações efêmeras em eventos de decoração.

O grande erro seria tratar o SSAL como substituto direto de materiais estruturais de alto desempenho. Essa nunca foi a intenção do projeto. “A prioridade nunca foi competir diretamente com materiais de alto desempenho, mas sim dar ênfase ao desperdício de arroz na cultura coreana”, esclarece Juwon Kim, que não descarta, no futuro, testes de durabilidade e aplicações mais amplas.
O que o material faz com precisão é questionar o que pode ser ressignificado. Um grão que perdeu relevância na mesa encontrou, no laboratório de design, uma segunda função e, com ela, uma nova camada de valor cultural.





