Arquitetura da lembrança: um lar nascido do afeto e da paisagem

No terreno herdado dos avós, uma residência em formato de “L” recria a conexão com a natureza e transforma o antigo em novo com simplicidade e alma

Arquitetura da lembrança: um lar nascido do afeto e da paisagem

Foto: Juliano Colodeti/MCA Estúdio/Divulgação | Produção: Andrea Brito Velho e Pualani di Giorgio/Divulgação

Há terrenos que guardam mais do que terra: armazenam afetos, histórias e o tempo condensado em lembranças. Foi exatamente assim com o lote em Além Paraíba, interior de Minas Gerais, onde a arquiteta Joana Bronze passou incontáveis almoços de domingo ao lado da família. Décadas depois, ao lado do sócio Pedro Axiotis, ela retornou a esse mesmo lugar — não apenas para construir uma casa, mas para resgatar uma vivência ancestral e transformá-la em arquitetura.

Apesar da força emocional envolvida, a antiga residência da família não pôde ser mantida. A decisão pela demolição não foi simples, mas veio acompanhada de um propósito claro: criar uma nova morada sobre as fundações simbólicas do passado. “Mais do que construir uma nova residência, buscamos ressignificar um espaço que sempre foi ponto de união da família”, explica Joana, fundadora do Fato Estúdio.

O lago como coração da casa

Dentre os elementos do terreno original, um em especial inspirou todo o desenho arquitetônico: o lago, até então subutilizado, se tornou o centro emocional e visual do projeto.

Foto: Juliano Colodeti/MCA Estúdio/Divulgação | Produção: Andrea Brito Velho e Pualani di Giorgio/Divulgação

A implantação em formato de “L” nasceu do desejo de abraçar a paisagem e permitir que a natureza ditasse o ritmo dos espaços. “Queríamos que a casa abraçasse a paisagem, permitindo que a natureza tivesse protagonismo”, destaca Pedro.

Com cerca de 760 m², a casa foi idealizada como refúgio de fim de semana, distribuída em dois blocos: um dedicado às áreas sociais — integradas à varanda sobre o lago — e outro reservado para os quartos de hóspedes. No pavimento superior, a suíte principal oferece uma vista 360 graus para o entorno, mergulhando o morador em uma atmosfera de contemplação constante.

Estética natural e sensorial

A linguagem arquitetônica mescla o bruto e o delicado, com uso de materiais como pedra moledo, madeira cumaru e concreto aparente. O objetivo, segundo os arquitetos, era fazer com que a casa parecesse brotar da própria terra, respeitando o relevo e a vegetação nativa. “Usamos pedras com acabamento mais bruto para dar a sensação de que a construção emergiu naturalmente dali, como se fosse uma extensão do terreno”, conta Pedro.

Foto: Juliano Colodeti/MCA Estúdio/Divulgação | Produção: Andrea Brito Velho e Pualani di Giorgio/Divulgação

A paleta de cores neutras — em tons de areia, verde musgo, barro e cinza quente — reforça o vínculo com o exterior, convidando a luz a revelar texturas e volumes ao longo do dia. Persianas de junco, estofados naturais e madeira aparente conduzem uma narrativa de simplicidade sofisticada que não busca ostentar, mas sim acolher.

Interiores que contam histórias

A decoração da casa segue o mesmo princípio afetivo que orientou o projeto. Peças herdadas dos pais da arquiteta, como sofás e poltronas de couro, convivem com mobiliários garimpados em feiras de artesanato e objetos de design assinado. Tudo parece estar ali não apenas por estética, mas por memória.

Foto: Juliano Colodeti/MCA Estúdio/Divulgação | Produção: Andrea Brito Velho e Pualani di Giorgio/Divulgação

A cozinha, marcada por azulejos inspirados nos antigos pisos coloniais e armários verdes vibrantes, resgata a tradição dos encontros ao redor da mesa.

Foto: Juliano Colodeti/MCA Estúdio/Divulgação | Produção: Andrea Brito Velho e Pualani di Giorgio/Divulgação

A varanda, com piso e forro em madeira, se desdobra como extensão da sala e flutua sobre o espelho d’água — cenário onde o café da manhã se repete diariamente como um ritual quase sagrado. “É nesse espaço que o café da manhã acontece religiosamente, enquanto o sol da manhã se reflete na superfície da água e rebate no forro de cumaru”, compartilha Joana.

Lazer com vista e propósito

Foto: Juliano Colodeti/MCA Estúdio/Divulgação | Produção: Andrea Brito Velho e Pualani di Giorgio/Divulgação

No ponto mais alto do terreno, o anexo de lazer oferece uma pausa generosa. Piscina de borda infinita, sauna, forno de pizza e uma mesa para doze pessoas reforçam a vocação social da casa, sem romper com a linguagem natural do conjunto. O paisagismo, assinado pela Semear Paisagismo, costura a vegetação existente com novas espécies, criando uma ambiência fresca, orgânica e silenciosa.

  • Cláudio P. Filla é comunicador social e especialista em mídias digitais, com mais de 11 anos de atuação na curadoria de tendências para o mercado de arquitetura e decoração. Como editor-chefe do Enfeite Decora, Cláudio lidera um conselho editorial composto por arquitetos, designers de interiores e paisagistas registrados (CAU/ABD), garantindo que cada artigo combine inspiração visual com rigor técnico e normativo. Sua missão é traduzir o complexo universo da construção e do design em soluções práticas, sustentáveis e acessíveis, sempre sob o respaldo de profissionais renomados do setor brasileiro.

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