Em um endereço onde o horizonte já é um privilégio, a arquitetura precisava ir além da contemplação. Neste apartamento de 150 m² em Ipanema, a vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas e para o Cristo Redentor não foi tratada apenas como pano de fundo, mas como parte ativa da experiência de morar. O projeto de reforma, assinado por Maurício Rebello, do escritório MRG Arquitetura, partiu exatamente dessa premissa: permitir que o olhar percorra os espaços com a mesma fluidez com que percorre a paisagem.
A família, formada por um casal e dois filhos adolescentes, já residia no mesmo edifício, porém em uma unidade mais baixa e voltada para os fundos. A mudança para um apartamento melhor posicionado trouxe a oportunidade de repensar não apenas a planta, mas o modo de viver a casa.
“Todo o apartamento passou por uma reforma completa, que incluiu a substituição de paredes e a renovação integral das instalações”, explica Maurício Rebello. A intervenção estrutural abriu caminho para uma nova lógica espacial, mais conectada, mais funcional e mais sensível ao entorno.
Integração como estratégia de conforto e flexibilidade
Um dos pedidos centrais dos moradores era que os ambientes fossem integrados, mas sem perder a possibilidade de privacidade. A solução veio por meio de uma grande área social contínua, que reúne estar e jantar e se conecta a um estar íntimo do casal — que também funciona como escritório — através de uma ampla porta de correr em madeira.

Essa escolha permite que o espaço funcione como um grande loft quando aberto, ou como ambientes mais reservados quando necessário. A circulação se torna fluida, e a luz natural percorre os cômodos sem obstáculos visuais.
Na ala dos filhos, o desenho foi outro: quartos e banheiro próprios formam um núcleo independente, oferecendo mais autonomia aos adolescentes e reduzindo interferências na dinâmica do dia a dia.
A madeira como fio condutor do projeto
Se a vista organiza o olhar, a madeira organiza a sensação de acolhimento. Presente nos pisos, nas portas, nas marcenarias e nos painéis, ela atua como elemento unificador de todo o projeto. A escolha por espécies e acabamentos naturais reforça a conexão com o entorno verde da Lagoa e cria uma base sensorial quente e tátil.

Na sala de estar, o painel da TV e a estante suspensa recebem aplicações de madeira e palha, criando textura e profundidade. O piso em tábuas de peroba mica amplia a sensação de continuidade entre os ambientes e reforça o caráter atemporal do conjunto.

Segundo Maurício Rebello, a presença desse material foi pensada para dialogar com o estilo de vida dos moradores. “Como as peças de mobiliário e os objetos decorativos já pertenciam à família, nosso foco foi criar uma base arquitetônica que valorizasse materiais naturais, reforçando a identidade afetiva do lar”, explica.
Suíte master como núcleo de bem-estar
As maiores transformações na planta ocorreram na suíte do casal, que passou a concentrar closet, banheiro e a sala íntima/escritório. Um corredor organiza esse percurso, com portas em laca verde de um lado e, do outro, um painel amadeirado que oculta o acesso ao banheiro, mantendo a leitura visual limpa e contínua.

Essa solução cria uma transição suave entre as funções e evita a fragmentação dos espaços, algo fundamental em projetos que buscam integração sem perda de conforto.

No lavabo, o conceito se intensifica: a bancada em madeira maciça e a cuba esculpida em pedra trazem um aspecto quase artesanal, reforçando a sensação de refúgio dentro da própria casa.

Cozinha e copa: funcionalidade com leveza visual

A antiga despensa foi demolida para dar lugar a uma copa integrada à cozinha, pensada para o uso cotidiano da família. Aqui, a escolha dos materiais equilibra praticidade e estética. As bancadas e cubas em corian oferecem resistência, baixa porosidade e fácil manutenção, enquanto a marcenaria em MDF laminado amadeirado, com cantos arredondados, favorece a circulação e suaviza a geometria do espaço.

Para compensar a iluminação natural mais reduzida, foram adotados revestimentos claros, como a cerâmica branca com relevo canelado e o porcelanato de grande formato em tom cinza claro. As cadeiras azuis do acervo dos moradores introduzem pontos de cor que quebram a neutralidade e reforçam a identidade da família.
Detalhes que transformam arquitetura em experiência
Entre os elementos mais marcantes do projeto está o banco sob a janela principal, revestido com azulejos geométricos em tons de azul e branco, do Estúdio Mosaico. Ele funciona como um convite silencioso à contemplação da paisagem, transformando a janela em um lugar de permanência.
O concreto aparente, visível na viga sobre a porta de correr e em parte do teto da sala de jantar, cria contraste com a madeira e acrescenta uma camada contemporânea à composição.
Ao final, o apartamento revela um equilíbrio raro entre arquitetura, memória e paisagem. Fotografias da família, peças trazidas de viagens e móveis reaproveitados constroem uma narrativa afetiva que se sobrepõe ao desenho técnico.
“Não tivemos grandes desafios neste projeto, que fluiu muito bem com a participação ativa dos clientes”, conclui Maurício Rebello. E talvez seja exatamente isso que se percebe nos espaços: um lar que não foi apenas desenhado, mas vivido desde o primeiro traço.





