Apartamento em Brasília recupera identidade modernista e transforma planta fechada em espaço fluido e acolhedor

Reforma assinada pelo CODA Arquitetura recupera qualidades espaciais originais de um edifício de 1965 na Asa Norte e atualiza a planta com sensibilidade, luz e continuidade entre os ambientes

Apartamento em Brasília recupera identidade modernista e transforma planta fechada em espaço fluido e acolhedor

Foto: Joana França

Há projetos que começam pela demolição e outros que começam pela escuta. O apartamento de 254 m² localizado na Asa Norte, em Brasília, é do segundo tipo. O edifício que o abriga foi concebido em 1965 e, com o tempo, acumulou alterações que foram apagando o que tinha de melhor: a relação generosa com a luz natural, a fluidez entre os ambientes e o diálogo com a paisagem urbana modernista ao redor. Quando o CODA Arquitetura foi chamado para conduzir a reforma, a primeira decisão foi justamente a de não começar do zero, mas de voltar ao essencial.

O casal paulista que escolheu Brasília como lar trouxe consigo uma demanda clara: um apartamento amplo, bem ventilado, que favorecesse a convivência com os filhos e o acolhimento de amigos. Não era um pedido difícil de entender, mas era um pedido que exigia rigor na leitura do espaço preexistente. E foi exatamente aí que o projeto ganhou profundidade.

A varanda como ponto de partida

A varanda voltada para o nascente estava, na prática, desconectada da sala. Um daqueles erros acumulados pelas reformas mal resolvidas ao longo das décadas: uma abertura que existia, mas não funcionava como deveria.

Foto: Joana França

A decisão de incorporá-la à área social foi o gesto mais preciso da intervenção, porque não se tratava apenas de ampliar metros quadrados. Tratava-se de devolver ao apartamento a sua vocação original: ser um espaço vazado, permeável ao sol da manhã e à ventilação cruzada.

“O resultado é um ambiente vazado e multifuncional, avarandado em toda sua extensão. O gesto espacial de integração dos espaços também responde ao desejo dos proprietários, de habitar um lar amplo, iluminado e ventilado, que favorecesse a convivência diária e o acolhimento de familiares e amigos”, explica a arquiteta Júlia Coutinho, responsável pelo projeto junto aos arquitetos Pedro Grilo e Carolina Piana.

Foto: Joana França

No lado oposto da planta, a cozinha foi reposicionada e aberta para a sala, estabelecendo um eixo contínuo de convivência que percorre o apartamento de ponta a ponta.

O grande erro em projetos desse tipo é tratar a cozinha como um cômodo funcional separado do restante da vida doméstica.

Foto: Joana França

Aqui, ela passa a fazer parte do fluxo social da casa, sem abrir mão da sua função.

O painel verde que unifica tudo

Um dos elementos mais inteligentes do projeto é o painel de marcenaria verde que percorre os ambientes e camufla portas e armários ao longo do caminho. Além do evidente ganho estético, a decisão resolve um problema clássico de plantas com muitos pontos de acesso: a sensação de descontinuidade visual.

Foto: Joana França

Com o painel, o olhar desliza pelo espaço sem interrupções, e o apartamento parece maior do que é, mesmo com seus 254 m². A intervenção artística que integra esse painel reforça o caráter autoral do projeto. Não é decoração aplicada depois do fato, mas parte da concepção desde o início, o que faz toda a diferença no resultado final.

Concreto, madeira e pastilha: o repertório modernista atualizado

O diálogo entre o modernismo brasiliense e o modernismo paulista aparece nos materiais escolhidos: concreto aparente, madeira e piso em pastilhas cerâmicas. Para quem conhece a obra de Lina Bo Bardi, a referência é imediata, seja na Casa de Vidro, em São Paulo, ou no MASP.

Foto: Joana França

Não se trata de citação direta ou homenagem forçada, mas de um mesmo entendimento sobre como os materiais construtivos podem ser ao mesmo tempo honestos e belos.

A peça que traduz isso com mais precisão é a estante em concreto aparente posicionada na transição entre o setor social e o íntimo. Ela acompanha o ritmo da fachada do edifício, criando uma continuidade entre o exterior e o interior que é, aliás, uma das marcas registradas da arquitetura modernista.

Foto: Joana França

As prateleiras de vidro temperado apoiadas em cunhas de madeira desenhadas especialmente para a obra completam o elemento com leveza, sem competir com a robustez do concreto.

  • Cláudio P. Filla é comunicador social e especialista em mídias digitais, com mais de 11 anos de atuação na curadoria de tendências para o mercado de arquitetura e decoração. Como editor-chefe do Enfeite Decora, Cláudio lidera um conselho editorial composto por arquitetos, designers de interiores e paisagistas registrados (CAU/ABD), garantindo que cada artigo combine inspiração visual com rigor técnico e normativo. Sua missão é traduzir o complexo universo da construção e do design em soluções práticas, sustentáveis e acessíveis, sempre sob o respaldo de profissionais renomados do setor brasileiro.

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