Há projetos que começam pela demolição e outros que começam pela escuta. O apartamento de 254 m² localizado na Asa Norte, em Brasília, é do segundo tipo. O edifício que o abriga foi concebido em 1965 e, com o tempo, acumulou alterações que foram apagando o que tinha de melhor: a relação generosa com a luz natural, a fluidez entre os ambientes e o diálogo com a paisagem urbana modernista ao redor. Quando o CODA Arquitetura foi chamado para conduzir a reforma, a primeira decisão foi justamente a de não começar do zero, mas de voltar ao essencial.
O casal paulista que escolheu Brasília como lar trouxe consigo uma demanda clara: um apartamento amplo, bem ventilado, que favorecesse a convivência com os filhos e o acolhimento de amigos. Não era um pedido difícil de entender, mas era um pedido que exigia rigor na leitura do espaço preexistente. E foi exatamente aí que o projeto ganhou profundidade.
A varanda como ponto de partida
A varanda voltada para o nascente estava, na prática, desconectada da sala. Um daqueles erros acumulados pelas reformas mal resolvidas ao longo das décadas: uma abertura que existia, mas não funcionava como deveria.

A decisão de incorporá-la à área social foi o gesto mais preciso da intervenção, porque não se tratava apenas de ampliar metros quadrados. Tratava-se de devolver ao apartamento a sua vocação original: ser um espaço vazado, permeável ao sol da manhã e à ventilação cruzada.
“O resultado é um ambiente vazado e multifuncional, avarandado em toda sua extensão. O gesto espacial de integração dos espaços também responde ao desejo dos proprietários, de habitar um lar amplo, iluminado e ventilado, que favorecesse a convivência diária e o acolhimento de familiares e amigos”, explica a arquiteta Júlia Coutinho, responsável pelo projeto junto aos arquitetos Pedro Grilo e Carolina Piana.

No lado oposto da planta, a cozinha foi reposicionada e aberta para a sala, estabelecendo um eixo contínuo de convivência que percorre o apartamento de ponta a ponta.
O grande erro em projetos desse tipo é tratar a cozinha como um cômodo funcional separado do restante da vida doméstica.

Aqui, ela passa a fazer parte do fluxo social da casa, sem abrir mão da sua função.
O painel verde que unifica tudo
Um dos elementos mais inteligentes do projeto é o painel de marcenaria verde que percorre os ambientes e camufla portas e armários ao longo do caminho. Além do evidente ganho estético, a decisão resolve um problema clássico de plantas com muitos pontos de acesso: a sensação de descontinuidade visual.

Com o painel, o olhar desliza pelo espaço sem interrupções, e o apartamento parece maior do que é, mesmo com seus 254 m². A intervenção artística que integra esse painel reforça o caráter autoral do projeto. Não é decoração aplicada depois do fato, mas parte da concepção desde o início, o que faz toda a diferença no resultado final.
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Concreto, madeira e pastilha: o repertório modernista atualizado
O diálogo entre o modernismo brasiliense e o modernismo paulista aparece nos materiais escolhidos: concreto aparente, madeira e piso em pastilhas cerâmicas. Para quem conhece a obra de Lina Bo Bardi, a referência é imediata, seja na Casa de Vidro, em São Paulo, ou no MASP.

Não se trata de citação direta ou homenagem forçada, mas de um mesmo entendimento sobre como os materiais construtivos podem ser ao mesmo tempo honestos e belos.
A peça que traduz isso com mais precisão é a estante em concreto aparente posicionada na transição entre o setor social e o íntimo. Ela acompanha o ritmo da fachada do edifício, criando uma continuidade entre o exterior e o interior que é, aliás, uma das marcas registradas da arquitetura modernista.

As prateleiras de vidro temperado apoiadas em cunhas de madeira desenhadas especialmente para a obra completam o elemento com leveza, sem competir com a robustez do concreto.





