Há projetos que nascem de uma encomenda e há projetos que nascem de uma relação. O apartamento no Leblon, bairro nobre da Zona Sul do Rio de Janeiro, é do segundo tipo. A arquiteta Mariana Monnerat, do escritório Monneart Arquitetura, já conhecia o morador há cerca de três anos, quando ele ainda alugava o imóvel. Quando a compra se tornou definitiva, a convocação foi imediata: era hora de transformar aquele espaço no lar de verdade, com tudo o que isso significa em termos de identidade, memória e pertencimento.
Os 53,7 m² disponíveis exigiam precisão no planejamento e não havia margem para desperdício, muito menos espaço e decisões. E foi exatamente essa restrição que deu ao projeto seu caráter mais refinado.
A linguagem já existia antes do projeto
Quando arquiteta e cliente se encontraram para o projeto definitivo, o repertório visual já estava dado. “Desde o primeiro projeto, já existia uma linguagem muito clara: o azul, os azulejos e a atmosfera leve. Esses elementos sempre fizeram parte da história dele e foram fundamentais para o conceito da nova casa”, explica Mariana Monnerat.
O azul não é um recurso decorativo escolhido por tendência, é um marcador afetivo, e essa distinção muda tudo na hora de especificar materiais, decidir onde a cor entra e qual peso ela ocupa na composição geral. Em projetos assim, a paleta não é meramente estética, ela se torna narrativa.
Por isso, os azulejos deixam de ser apenas revestimento cerâmico e passam a funcionar como elemento de continuidade entre o que o morador já vivia e o que ele passou a habitar. Esse é um dos recursos mais sofisticados do design de interiores contemporâneo: usar o material como fio condutor emocional sem tornar o espaço museológico ou pesado.
Demolir para integrar: a lógica da reforma
Com três meses de projeto e seis meses de obra, a reforma foi conduzida com foco em duas frentes principais: ampliar a sensação de espaço e valorizar a luz natural, dois objetivos que, na prática, quase sempre caminham juntos.
A decisão mais estrutural foi a demolição das paredes entre cozinha e sala, criando uma área social integrada que respira melhor e favorece o deslocamento. ;
Em apartamentos compactos, a integração entre esses dois ambientes é uma das intervenções com maior retorno visual e funcional. A cozinha deixa de ser um cômodo fechado e passa a participar ativamente da vida social do imóvel.
Além disso, um dos quartos foi incorporado ao estar, dando origem à nova sala de TV. A decisão revela uma leitura precisa das prioridades do morador: mais espaço para viver do que para receber.
O lavabo também foi repensado, mas com inteligência executiva, mantendo a hidráulica existente para otimizar prazos e reduzir custos. O grande erro em reformas de apartamentos pequenos é mexer em pontos hidráulicos sem necessidade real e, aqui, a escolha foi certeira.
Marcenaria como espinha dorsal do projeto
O que organiza visualmente o apartamento de 53 m² é a marcenaria sob medida, que assumiu um papel muito além do armazenamento. Na área social, ela integra o bar, a cervejeira e o acesso à lavanderia em um único volume, eliminando a fragmentação que costuma comprometer a leitura de ambientes pequenos.
Esse tipo de solução, onde a marcenaria resolve múltiplas funções em uma única peça planejada, é o que separa um projeto bem executado de uma decoração acumulada. O volume ganha coerência, a parede “trabalha” e o espaço livre no centro do ambiente aumenta, mesmo sem nenhuma demolição adicional.
O tanque de pedra na área de serviço reforça essa proposta de unir praticidade e sofisticação. Não é um detalhe decorativo: é uma escolha que afirma que os ambientes de serviço merecem o mesmo cuidado projetual que a sala e o quarto. Em apartamentos de uso cotidiano intenso, essa decisão tem impacto direto na experiência de morar.
Design autoral brasileiro e curadoria afetiva
A curadoria do décor seguiu uma linha clara: design autoral brasileiro, arte contemporânea e objetos com memória afetiva. Essa tríade é, atualmente, uma das formas mais consistentes de construir um interior com personalidade genuína, sem recorrer a peças genéricas ou composições que poderiam existir em qualquer outro apartamento.
O design brasileiro contemporâneo tem ganhado cada vez mais espaço em projetos residenciais, especialmente entre moradores que entendem móveis e objetos como investimento cultural, não apenas funcional. Cadeiras, mesas de apoio, luminárias e esculturas produzidas por designers nacionais carregam uma identidade que importados simplesmente não conseguem replicar.
Aliás, a presença de arte contemporânea nos ambientes reforça a ideia de que o apartamento foi pensado para durar e evoluir. Obras de arte envelhecem bem, criam conversas visuais com os materiais e respondem à luz de formas que móveis padronizados não conseguem. Em 53 m², cada peça precisa ter justificativa. Aqui, todas têm.
