Criar um lar vai muito além de organizar ambientes ou escolher bons acabamentos. Em projetos contemporâneos, a arquitetura tem assumido um papel cada vez mais sensível: o de traduzir histórias, hábitos e vínculos afetivos em espaços que acolhem a rotina. É justamente essa premissa que norteia a transformação de um apartamento de 113 m², localizado na Vila Clementino, em São Paulo.
Partindo de um imóvel entregue no contrapiso, o projeto buscou responder às necessidades de um casal com filho, priorizando a convivência, a funcionalidade e uma atmosfera que refletisse a identidade dos moradores. O resultado é um apartamento contemporâneo onde a cor não é apenas elemento estético, mas linguagem emocional.
A cozinha como centro da casa e da convivência
Diferente de plantas tradicionais, nas quais a cozinha ocupa um papel secundário, aqui ela se consolida como o verdadeiro coração do lar. Integrada à área social, o ambiente foi pensado para estimular encontros cotidianos, conversas espontâneas e o uso compartilhado do espaço.

A marcenaria colorida, o piso de ladrilho com desenho marcante e a ilha central funcionam como elementos que organizam e, ao mesmo tempo, convidam. Para a arquiteta Lívia Leite, à frente do Estúdio Maré, a cozinha precisa dialogar com a vida real. “Quando o projeto respeita o modo como a família vive, o espaço naturalmente se torna mais usado, mais vivo e mais afetivo”, destaca.
Área social marcada por identidade e textura

Na área social, o projeto se afasta de soluções neutras e impessoais. Uma estante contínua para livros percorre o ambiente, revelando interesses, memórias e referências dos moradores. O gesto transforma o mobiliário em narrativa visual, reforçando a ideia de casa como extensão de quem a habita.
O tapete kilim, escolhido pela textura e pela força gráfica, acrescenta aconchego e cria contraste com as superfícies lisas, equilibrando cor, materialidade e conforto visual. Assim, o espaço se constrói por camadas, onde cada elemento contribui para uma atmosfera acolhedora e nada parece excessivo.

Lavabo e banheiros: cor como gesto de personalidade
Em vez de seguir padrões prontos, o projeto aposta em soluções autorais também nos ambientes menores. O lavabo se destaca pela cuba moldada em azulejos, uma escolha que une função e expressão estética, trazendo identidade a um espaço normalmente tratado de forma coadjuvante.

Nos banheiros, a estratégia foi diferente. Os revestimentos originais foram preservados, evitando demolições desnecessárias, mas ganharam novas leituras por meio da cor. No banho do casal, o verde surge como elemento de frescor e tranquilidade, adicionando personalidade sem comprometer a harmonia do conjunto. Segundo Lívia, “trabalhar com o que já existe também é uma forma de projetar com consciência e afeto”.
Curadoria, iluminação e a construção de um lar sensível
A seleção de móveis, objetos e têxteis reforça o caráter afetivo do projeto. Peças assinadas convivem com itens carregados de memória, criando um equilíbrio entre design e vida cotidiana. Nada parece excessivamente ensaiado; tudo tem propósito e lugar.

O projeto luminotécnico, desenhado sob medida, contribui para essa atmosfera ao valorizar volumes, cores e texturas ao longo do dia. A luz não apenas ilumina, mas constrói cenários, acompanha a rotina e transforma a percepção dos ambientes conforme o uso.
Arquitetura como extensão da vida
Mais do que um exercício estético, este apartamento contemporâneo demonstra como a arquitetura pode ser uma ferramenta de aproximação — entre pessoas, espaços e histórias. Ao unir cor, funcionalidade e escolhas conscientes, o projeto revela que morar bem não está ligado a tendências passageiras, mas à capacidade de criar ambientes que acolhem, representam e evoluem junto com quem vive ali.





