Existe um elemento vivo que poucos paisagistas incluem no projeto, mas que transforma radicalmente a dinâmica de um jardim: as abelhas nativas sem ferrão. Enquanto a maioria das pessoas pensa apenas em plantas, revestimentos e iluminação na hora de planejar um espaço externo, a meliponicultura urbana — criação das chamadas abelhas sem ferrão — vem ganhando espaço como prática que une paisagismo funcional, conservação ambiental e, surpreendentemente, baixíssima manutenção.
No noroeste do Paraná, o Campus Regional da Universidade Estadual de Maringá (UEM), em Umuarama, é um dos centros mais ativos nessa discussão. O professor Valdir Zucareli, responsável pelos meliponários didáticos da instituição e pesquisador do Laboratório de Estudos em Botânica Aplicada e Sustentabilidade (Lebas), explica que essas abelhas já coexistem com a fauna e a flora brasileira há milênios — e que trazê-las para dentro do jardim é, ao mesmo tempo, um ato de design e de responsabilidade ambiental.
“As abelhas sem ferrão, que são mais de 300 espécies, são todas nativas do Brasil. Já existem aqui há milênios e são adaptadas à nossa fauna e à nossa flora. Elas coevoluíram dentro do nosso ambiente. Criar elas em casa também é uma atividade conservacionista”, afirma Zucareli.
O que a meliponicultura tem a ver com paisagismo
A resposta está na polinização. Jardins com espécies floridas dependem de polinizadores para se desenvolver com vigor, e as abelhas nativas são as grandes protagonistas desse processo para a flora brasileira. Diferente das abelhas do gênero Apis — as africanizadas, criadas em apiários para produção em escala de mel —, as abelhas sem ferrão pertencem à tribo Meliponinos, são menores, completamente dóceis e perfeitamente adaptadas ao clima e às plantas nativas do Brasil.
Na prática, isso significa que uma colmeia de Jataí, Mandaçaia ou Mandaguari posicionada no jardim age como um agente natural de fertilização para flores, ervas aromáticas, frutas e plantas ornamentais. O resultado visível é um jardim mais produtivo, com flores que duram mais tempo e plantas que se desenvolvem com menos intervenção humana. Aliás, esse é um dos princípios mais valorizados no paisagismo bioativo contemporâneo: criar ecossistemas que funcionam de forma autônoma e harmoniosa.
Casinhas ornamentais e colmeias como elemento de projeto
Uma das formas mais elegantes de integrar as abelhas ao design de jardins é por meio das casinhas ornamentais para meliponicultura — pequenas caixas de madeira trabalhada, penduradas em árvores, fixadas em muros ou apoiadas em estruturas de bambu. Elas funcionam como abrigo para as colônias e, ao mesmo tempo, compõem visualmente o paisagismo com um elemento de identidade afetiva.
O grande erro aqui é tratar a colmeia como um simples acessório decorativo sem considerar a orientação solar. As abelhas sem ferrão precisam de sombra, com no máximo incidência do sol da manhã. Zucareli é enfático sobre isso: “Elas têm que ser criadas à sombra, com apenas o sol da manhã, pois o excesso de sol pode matar as crias e derreter a cera”. Logo, a posição da casinha no jardim precisa ser planejada com o mesmo cuidado que se dá à escolha de uma planta que exige meia-sombra.
Árvores de médio porte, pergolados cobertos por trepadeiras ou canteiros com vegetação densa são os melhores cenários para abrigar uma colmeia. Esse posicionamento também cria um microclima mais fresco e úmido, beneficiando tanto as abelhas quanto as plantas ao redor.
Pet de baixa manutenção: o que isso significa na prática?
O termo “pet de baixa manutenção” pode soar informal, mas traduz com precisão o que a meliponicultura urbana oferece para quem não tem tempo nem estrutura para cuidar de animais convencionais. Não há necessidade de alimentação diária, de passeios ou de cuidados veterinários frequentes. A colônia é autossuficiente na maior parte do tempo.
Soraia Santos de Liro Guirão, auxiliar operacional da UEM que se tornou criadora de Jataís e Mandaçaias após um curso com Zucareli, resume bem a experiência: “Elas me ocupam menos tempo e preocupação. Amo acordar e ir vê-las saindo para ir em busca de alimento. Ver como é a organização da colmeia me fascina”.
Ainda assim, observação regular faz diferença. O que realmente faz a diferença no manejo é checar a entrada da colmeia com frequência — o chamado pito de entrada, um túnel de cerume que funciona como porta do ninho. Se a cera estiver ressecada ou a movimentação das abelhas estiver fraca, é sinal de que a colônia precisa de atenção. Em casos de colônia enfraquecida, fornece-se um suplemento energético simples: uma mistura de água, açúcar e limão. Quando a colônia cresce e se fortalece, ela pode ser dividida e dar origem a uma nova.
Espécies para jardins residenciais
Nem toda espécie de abelha nativa se adapta bem ao ambiente urbano. Para quem está começando, a espécie mais recomendada é a Jataí (Tetragonisca angustula), encontrada em praticamente todo o Brasil. Ela é pequena, extremamente dócil e se adapta bem a jardins compactos, varandas e quintais de apartamentos. Sua colmeia produz um mel com alto valor gastronômico e medicinal, mas isso é consequência — não o objetivo principal da criação doméstica.
Na região norte e noroeste do Paraná, também aparecem com frequência as espécies Mandaçaia (Melipona quadrifasciata), Mirim e Mandaguari (Scaptotrigona postica), esta última tão comum na região que deu nome a uma cidade paranaense. Cada espécie tem comportamento, tamanho de colônia e exigências diferentes — e a escolha deve considerar o tamanho do jardim e o clima local.
Como capturar uma colônia para o jardim
A UEM de Umuarama disponibiliza iscas feitas com garrafas pet e ministra cursos e oficinas que ensinam a capturar colmeias de forma segura e ética. A isca é um recipiente preparado com cera e outros atrativos naturais, posicionado em pontos estratégicos do jardim para atrair abelhas exploradoras em busca de novo abrigo.
Após a captura, os especialistas ensinam a transferir a colônia para uma caixa de madeira padronizada ou para casinhas ornamentais que se integram ao projeto paisagístico. Esse processo transforma a captura em uma oportunidade de educação ambiental e observação da natureza — especialmente para crianças.
Vinicius dos Santos Leite da Silva começou nesse caminho aos dez anos, quando a avó o estimulou a abrigar uma colônia de abelhas que havia se instalado no muro de casa. Hoje, aos 12 anos, ele cuida de quatro colmeias de Jataí e uma de Mandaçaia. “Eu gosto muito de mexer com as abelhas. É muito prazeroso para mim ver como é que as bichinhas estão se desenvolvendo. Quando faço o manejo, vejo tudo certinho. Teve um dia que vi até a rainha”, conta.
Legislação: o que é permitido no Brasil
No Paraná, a criação de abelhas sem ferrão é regulamentada pela Lei Estadual 19.152/2017, que reconhece a meliponicultura como atividade de fauna silvestre e autoriza sua prática para fins de conservação, educação ambiental, pesquisa, lazer e consumo familiar de mel. Criadores com até dez colmeias estão dispensados de licença ambiental, o que torna a prática completamente acessível para o uso residencial e paisagístico.
A Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) recomenda o cadastro mesmo para pequenos criadores — e Zucareli reforça a importância disso: “Isso é indicado para que possam fazer o mapeamento de espécies conservadas no estado e número de meliponicultores”. O cadastro é gratuito e pode ser feito na unidade mais próxima da Adapar.
Quem tiver mais de dez colmeias ou intenção de comercializar produtos da meliponicultura é obrigado a se cadastrar formalmente. Para o uso em jardins residenciais e projetos de paisagismo, porém, a burocracia é mínima — e a recompensa, tanto estética quanto ecológica, é real.
