A Casa que Dança leva ao Ibirapuera uma arquitetura paranaense enraizada no modernismo e no presente

Com 100 m² construídos dentro do Parque Ibirapuera, o projeto revisita residências paranaenses dos anos 1950 e propõe uma arquitetura que muda com o tempo sem perder o que a sustenta.

A Casa que Dança leva ao Ibirapuera uma arquitetura paranaense enraizada no modernismo e no presente

Fotos: Felipe Petrovsky | Adriano Pacelli

Nem todo projeto exposto em uma bienal precisa gritar para ser ouvido. Alguns falam baixo, com precisão, e é exatamente isso que torna A Casa que Dança um dos trabalhos mais interessantes da 1ª Bienal de Arquitetura Brasileira, realizada de 25 de março a 30 de abril no Parque Ibirapuera, em São Paulo.

O projeto é assinado pelo escritório curitibano Boscardin Corsi, comandado pelos arquitetos Ana Carolina Boscardin e Edgard Corsi, e representa o Paraná nessa primeira edição do evento. O ponto de partida é a memória das casas modernistas paranaenses disseminadas pelo estado a partir dos anos 1950, marcadas pela clareza formal, pela integração com a paisagem e por uma elegância sem excessos. Mas o escritório não trata esse repertório como arquivo, trata como matéria viva.

Modernismo paranaense como ponto de partida, não como moldura

Casas com estrutura aparente, volumes retos, varandas generosas e uma relação direta com o entorno marcaram o imaginário residencial paranaense ao longo de décadas. Esse tipo de produção, que tem na obra de nomes como Vilanova Artigas e Lolô Cornelsen algumas de suas referências mais consistentes, não foi tratado pelos arquitetos como homenagem nostálgica. Foi reposicionado no presente.

Fotos: Felipe Petrovsky | Adriano Pacelli

“Nossa intenção foi revisitar uma arquitetura muito presente no imaginário paranaense sem tratá-la como memória estática. A casa muda com o tempo, mas segue capaz de acolher, reunir e refletir a vida de quem passa por ela”, afirmam Ana Carolina Boscardin e Edgard Corsi.

Esse deslocamento é o que diferencia o projeto de uma reconstrução histórica. A linguagem modernista fornece a estrutura, mas os materiais, as escolhas cromáticas e o mobiliário falam do agora, de um modo de viver que exige ao mesmo tempo acolhimento e liberdade de adaptação.

Uma casa de verdade dentro da Bienal

O grande diferencial de A Casa que Dança no contexto expositivo foi a decisão de construir, de fato, uma casa completa dentro do espaço da Bienal. Não uma maquete ampliada, não um recorte de ambiente: uma habitação de 100 m², com planta funcional, percurso definido e experiência espacial coerente do início ao fim.

Essa escolha amplia o alcance do projeto. O visitante não observa a arquitetura de fora, ele atravessa os cômodos, percebe as transições entre interior e exterior, sente a diferença de temperatura tátil entre o concreto pigmentado da varanda e a madeira do interior. É uma experiência que nenhuma imagem substitui.

Fotos: Felipe Petrovsky | Adriano Pacelli

A planta preserva elementos centrais da construção original e organiza os espaços com fluidez. O percurso foi desenhado para que arquitetura, arte e mobiliário convivam com naturalidade, em uma atmosfera que alterna precisão e acolhimento. Não há espaço ornamental no projeto. Cada decisão responde a uma intenção.

O nome que veio de um verso

O título do projeto não é arbitrário. Ele vem de um verso de Paulo Leminski, escritor e poeta curitibano: “Tudo dança hospedado numa casa em mudança”. A frase carrega a essência do que o escritório quis construir: uma casa que se transforma sem se perder. Que recebe novas camadas sem apagar a sua origem.

Em um momento em que a decoração de interiores frequentemente persegue tendências de ciclo curto, essa proposta escolhe o caminho oposto. A permanência como valor. A continuidade como projeto.

Materialidade: concreto, tijolo, inox e mármore paranaense

A escolha dos materiais em A Casa que Dança não é decorativa, é narrativa. Cada superfície foi selecionada pela durabilidade, pela beleza que amadurece com o uso e pela relação com o território paranaense.

A varanda é um dos pontos mais marcantes do projeto. O piso de concreto pigmentado em vermelho evoca a terra fértil do Paraná e cria uma transição calorosa entre dentro e fora. As esquadrias seguem esse gesto cromático, enquanto pilotis e volumes retomam princípios centrais do modernismo brasileiro. Paredes de tijolos pintados de branco e estrutura aparente completam essa base, criando um espaço que não precisa de disfarces para funcionar.

O inox surge na cozinha com precisão cirúrgica, introduzindo contraste e complemento ao mesmo tempo. A frieza do metal dialoga com a memória tátil dos pisos e das madeiras, e esse encontro não é ruptura. É parte da narrativa: o projeto não apaga o antigo para receber o novo. Ele os coloca lado a lado, com intenção.

Fotos: Felipe Petrovsky | Adriano Pacelli

Outro gesto que merece atenção são as sobras de mármore provenientes de jazidas paranaenses, reaproveitadas em peças construídas ao longo do ambiente. A divisória em Mármore Branco da Michelangelo atua como elemento arquitetônico e escultórico. O banco executado com esse mesmo material reafirma a relação entre permanência e reaproveitamento. O grande erro de muitos projetos expositivos é ignorar a procedência dos materiais. Aqui, ela é argumento.

Design autoral e arte paranaense como extensão da arquitetura

A linguagem do projeto não se encerra na arquitetura. Ela se estende ao mobiliário, ao desenho autoral e à arte, sempre a partir de uma mesma origem: o Paraná. A mesa e os puxadores desenhados pelo próprio escritório Boscardin Corsi traduzem em escala menor a mesma visão que conduz o projeto. O banco reforça a unidade do conjunto. Não são peças decorativas sobrepostas à arquitetura: são extensões dela.

A dimensão artística atravessa o projeto com delicadeza. A intervenção em azulejos assinada por Lenzi Jr, inspirada na obra de Poty Lazzarotto, introduz cor ao espaço de maneira gráfica e aquecida. O lavabo é onde essa composição ganha mais força: paredes em azul marinho na parte externa e os azulejos no interior criam um dos momentos mais plásticos do projeto. O banco Toinoinoin, de Jaime Lerner, incorpora ao ambiente uma memória afetiva ligada ao design paranaense, completando o conjunto com uma peça que carrega história e pertencimento.

A suíte como espaço de recolhimento contemporâneo

A suíte master foi redesenhada com um objetivo claro: ganhar privacidade e incorporar um espaço íntimo de leitura e pesquisa. Essa decisão fala do presente com muita clareza. Em um tempo em que concentração e silêncio voltaram a ter valor dentro de casa, o projeto responde com arquitetura.

Fotos: Felipe Petrovsky | Adriano Pacelli

“Existe um interesse genuíno em pensar a continuidade, tanto na arquitetura quanto nos materiais e nas peças que compõem o ambiente. São escolhas que falam de permanência, mas sem rigidez”, completam os arquitetos Ana Carolina Boscardin e Edgard Corsi.

No centro da casa, o núcleo que reúne cozinha, lavanderia e lavabo estrutura a planta com clareza funcional. É a parte mais densa do projeto em termos de material e uso, e também onde o contraste entre inox contemporâneo e tijolos históricos fica mais evidente. Essa tensão controlada é o que mantém o projeto vivo, sem nostalgia e sem superficialidade.

O que A Casa que Dança diz sobre arquitetura hoje

Participar de uma bienal com uma casa construída — não simulada — é, por si só, uma declaração. O projeto do escritório Boscardin Corsi recusa o caminho do espetáculo fácil e aposta em algo mais difícil de alcançar: uma arquitetura que comunica sem precisar explicar, que evoca sem precisar recriar.

A herança do modernismo paranaense está presente, mas não domina. Ela sustenta. O presente entra pelos materiais, pelo desenho, pelas escolhas cromáticas e pela forma como os espaços foram organizados para a vida de hoje. Arte, design de interiores, arquitetura e memória afetiva convergem em um único ambiente com coerência rara.

A Casa que Dança segue em cartaz até 30 de abril, no Parque Ibirapuera, em São Paulo.

  • Cláudio P. Filla é comunicador social e especialista em mídias digitais, com mais de 11 anos de atuação na curadoria de tendências para o mercado de arquitetura e decoração. Como editor-chefe do Enfeite Decora, Cláudio lidera um conselho editorial composto por arquitetos, designers de interiores e paisagistas registrados (CAU/ABD), garantindo que cada artigo combine inspiração visual com rigor técnico e normativo. Sua missão é traduzir o complexo universo da construção e do design em soluções práticas, sustentáveis e acessíveis, sempre sob o respaldo de profissionais renomados do setor brasileiro.

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