Objetos quebrados, sem par ou acumulados há tempo costumam ter pouca chance dentro de casa, porque acabam no lixo ou esquecidos no fundo de uma gaveta.
A artista Sara Ramo parte exatamente desse material para construir cada trabalho, e foi com ele que a Pinacoteca de São Paulo inaugurou no sábado (7) a exposição “A Fúria dos Restos Vivos”, a maior individual da artista no Brasil.
Sara Ramo rearranja esses objetos descartados em composições novas e, com isso, monta um vocabulário próprio, no qual o cotidiano passa a causar estranhamento.
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Sob a curadoria de Lorraine Mendes, cerca de noventa trabalhos ocupam o quarto andar da Pina Estação, e eles variam bastante na forma.
Vídeos, pinturas e instalações no quarto andar da Pina Estação
A mostra reúne vídeos, pinturas, instalações, fotografias, objetos tridimensionais e colagens, e nem tudo foi pensado para a vitrine do museu.
Parte dos trabalhos vem de diferentes momentos da carreira de Sara Ramo, enquanto outros foram criados especialmente para a ocasião e só ficaram prontos dentro da própria área expositiva.
Esse detalhe pesa porque a relação com o espaço é central na prática da artista, que cria a partir da convivência com o lugar e com os objetos que o habitam.
Finalizar obras no mesmo andar em que elas serão vistas combina com esse jeito de trabalhar, e “Continentes”, de 2026, está entre os trabalhos exibidos.
Uma artista entre Madri e Araxá que trabalha com o que sobra
Sara Ramo nasceu em Madri, em 1975, filha de pai espanhol e mãe brasileira, e passou a infância dividida entre Araxá, em Minas Gerais, e a capital espanhola.
Os materiais que entram nas obras formam um repertório inusitado, com embalagens de doces, caixas de remédios, pedaços de tecido, trouxas de roupas, cabelos sintéticos, chicletes, miçangas, pneus, velas, feltros e sementes.
Todos partem de coisas perdidas, sem par, quebradas, acumuladas ou descartadas, objetos que perderam a função e parecem não ter mais utilidade.
Esse ponto em comum faz com que seja difícil não reconhecer um trabalho dela, e quem convive com uma gaveta cheia desse tipo de sobra encontra na mostra um material bem familiar.
Um Bosque, Uma Mata e a sala escura
Na instalação “Um Bosque, Uma Mata”, o material vem do próprio museu, já que a obra nasce de restos de exposições passadas da Pinacoteca, colhidos ao longo dos últimos dois anos.
Sobras que normalmente seriam descartadas depois da desmontagem de uma mostra ganham, assim, uma segunda vida dentro do mesmo espaço.
Já em “Sombra Vulto Véspera Causa Vigília”, o visitante entra em um ambiente escuro, quase como uma sala de cinema, e as formas se revelam aos poucos, conforme os olhos se acostumam com a pouca luminosidade. O percurso ganha, por isso, um ritmo mais lento, e vale dar tempo para a vista se ajustar antes de seguir adiante.
Serviço: como visitar a exposição de Sara Ramo
A exposição “A Fúria dos Restos Vivos” fica em cartaz até 18 de abril, na Pina Estação, que funciona no Largo General Osório, 66, bairro de Santa Ifigênia, em São Paulo.
- Horário: de quarta a segunda, das 10h às 18h, com entrada permitida até as 17h
- Ingresso: R$ 40, com entrada gratuita aos sábados
- Telefone: 3335-4990
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