Pontes pequenas sobre um igarapé seguram o lixo que desce com a água, e foi esse cenário que Maria Cristina encontrou no bairro Redenção, em Manaus: garrafas plásticas acumuladas no leito, em quantidade suficiente para ela descrever o curso d’água como um rio de garrafa descartada. A resposta dela começou na sala da própria casa, com aulas de crochê, e hoje inclui oficinas de artesanato, um ponto de coleta seletiva e uma sede própria.
A seguir, o percurso de um trabalho que saiu de casa, conquistou espaço no bairro e conta com voluntárias e com o apoio de um programa voltado a lideranças femininas para seguir crescendo. Tudo começou com uma conversa em família.
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Da sala de casa à sede própria
Quem sugeriu o primeiro passo foi a filha de Maria Cristina, então adolescente e já trabalhando, ao lembrar que a mãe sabia crochê e fazer sandália. O comentário veio depois do encontro com o igarapé, que a moradora relembra assim:
“Eu me deparei com esse igarapé, que as pontes eram muito pequenas e era muita garrafa descartada. Era um rio de garrafa descartada. Só que eu já tinha uma filha que era adolescente, ela já estava trabalhando. Então ela começou a falar: ‘Mãe, a senhora sabe crochê, a senhora sabe fazer sandália, chame essas mulheres, saia de casa’”.
A convocação das vizinhas deu resultado em poucos dias. Em apenas uma semana, o projeto de crochê já tinha dez alunas, e o crescimento levou Maria Cristina a procurar um espaço para as atividades, que mais tarde ganhou sede própria.
Crochê, garrafa PET e papelão nas oficinas
As oficinas de crochê ensinam a trabalhar com agulha e fio e também o reaproveitamento de materiais, como garrafa PET, papelão e revistas. Em casa, esse repertório conversa bem com a decoração artesanal: o crochê aparece em sousplats, capas de almofada e cestos, enquanto garrafas cortadas, papelão e papel de revista, com acabamento cuidadoso, rendem vasos, organizadores e porta-objetos.

Quem acompanha o dia a dia das turmas é Célia Bentes, que entrou no projeto em 2016 e hoje atua como voluntária, repassando às novas alunas o que aprendeu. Ela já viu a transformação de perto:
“Eu já vi muitas das meninas daqui que chegaram sem saber pegar na agulha do crochê, sem fazer nada de garrafa PET, nem de papelão, revista, essas coisas. Hoje em dia já até conseguem vender esses produtos, fazer e vender e já ajudar na sua renda familiar, né?”
Vender o que se produz já faz parte da rotina de muitas alunas, e a geração de renda entra no orçamento da casa. Para quem pensa em decoração sustentável, o exemplo mostra que garrafas e caixas que seriam descartadas podem virar matéria-prima de peças úteis.
Acolhimento para quem chega em momento difícil
A procura pelas oficinas continua grande, e as turmas reúnem perfis bem diferentes. Maria Cristina descreve quem costuma chegar à sede:
“As mulheres que nos procuram, algumas delas chegam com depressão, com uma doença que elas estão ali com a cabeça bagunçada, estão querendo ajuda. Algumas mulheres recém-separadas, algumas viúvas e algumas vêm só para aprender o ofício do crochê e do artesanato”.
O grupo convive na mesma mesa, com a agulha na mão. Quem busca apoio e quem busca apenas o ofício encontram o mesmo ambiente de acolhimento.
Coleta seletiva e o lixo que deixou de ir para a janela
O trabalho passou das oficinas para a rua com a instalação de um ponto de coleta para papelão, plástico e garrafas PET, pensado para que os moradores separem e deem o destino adequado aos resíduos. A coleta seletiva só vira rotina quando o material tem para onde ir, e um ponto dentro do próprio bairro encurta o trajeto entre a cozinha e o descarte correto.
O lixo doméstico ganhou destino à parte, em uma lixeira na frente da comunidade, construída pelos próprios moradores. Maria Cristina descreve a mudança de comportamento:
“Eles não jogam o lixo no igarapé. Quando você vê o lixo, é que desce de lá. Garrafa PET não vai pro igarapé, vem pro PET, eles trazem no saquinho deles, depositam aí. O lixo doméstico vai para outra lixeira lá na frente, que nós da comunidade construímos. Então esse hábito deles mudou muito de jogar o lixo pela janela”.
Um legado de autonomia e vínculos
Aos 64 anos, Maria Cristina trata o projeto como herança. O trabalho que nasceu com dez alunas hoje ajuda mulheres a conquistar autonomia, aproxima vizinhas e estimula o cuidado com o meio ambiente do bairro. Sobre o destino dessa construção, ela é direta:
“Hoje eu tenho 64 anos, então é um legado que eu vou deixar para minha filha e para minha comunidade. Então é isso que me move”.
Programa Icamiabas e a vontade de multiplicar a ideia
Atualmente, o Programa Icamiabas financia a realização das oficinas de capacitação, e a expectativa é ampliar o alcance do trabalho e levar a experiência a outras comunidades. Maria Cristina defende que a ideia se repita:
“Que tenha mais em outros lugares, em outros bairros, em outras comunidades, que isso se faça mais, que é uma coisa muito boa, que ajuda, ajuda o meio ambiente, ajuda as famílias, e é assim, é muito bom. Seria bom que isso acontecesse em outros bairros, em outras comunidades”.
O programa é uma iniciativa da Manauara Associação Comunitária (MAC), com apoio da Fundação Rede Amazônica, e atende mulheres que atuam como lideranças comunitárias e trabalham em benefício de outras mulheres em comunidades vulneráveis de Manaus. O ponto de partida são as experiências e os projetos das próprias participantes, o que fortalece ações que já acontecem nos territórios e amplia o impacto social dessas lideranças.
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