A argila poronosa que sai da impressora 3D do Serame Studio não chega pronta. Ela continua mudando depois disso, porque foi desenhada para receber musgo, insetos, luz e ar ao longo do tempo, numa lógica mais próxima da biologia do que da marcenaria ou da cerâmica decorativa comum.
A arquiteta e designer Rameshwari Jonnalagedda, à frente do estúdio londrino Serame Studio, batizou essa linha de pesquisa de Minimal Matter. A natureza funciona para ela como uma biblioteca de referências, e o projeto recorre a princípios vistos em películas de sabão, membranas celulares e cupinzeiros para repensar como um objeto cerâmico se comporta dentro de um ambiente.
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Minimal Matter: a peça cerâmica pensada para ser colonizada
No Minimal Matter, a impressão 3D em argila gera formas abertas, com poros e cavidades espalhados pela superfície. Essas aberturas não são falha de acabamento: são o ponto de partida para que musgo, insetos e luz ocupem a peça com o tempo, numa relação entre objeto e entorno que só se completa depois que ela sai da impressora.

A profundidade e a textura de cada peça foram calculadas para abrir espaço a diferentes tipos de interação. Por isso, a estrutura responde ao entorno de formas distintas segundo o ponto da peça, e não é tratada como algo fechado e definitivo assim que fica pronta.
Superfícies mínimas: a mesma matemática da folha e da bolha de sabão
A linguagem de Rameshwari trabalha com o que a arquitetura chama de superfícies mínimas: geometrias com alta relação entre área superficial e volume, somadas a uma porosidade celular distribuída de forma regular.
Esses mesmos princípios matemáticos aparecem nas películas de sabão, nas membranas celulares e na curvatura das folhas, campos que a biomimética observa há décadas em busca de formas mais eficientes do que as desenhadas apenas pelo olho.
A partir dessas formas, o estúdio demonstra como um edifício pode regular a própria temperatura, melhorar a circulação do ar e reduzir o consumo de energia só com o desenho da superfície, sem depender de sistemas mecânicos adicionais.
É um raciocínio que já apareceu antes em obras conhecidas por imitar a ventilação de cupinzeiros, mas que aqui aparece em escala de objeto, não de edifício inteiro.
TerraMound: o cupinzeiro que virou resfriador de mesa
O segundo projeto do estúdio, o TerraMound, aproxima a pesquisa do design de produto. Trata-se de um dispositivo de resfriamento para mesas, modelado a partir dos sistemas de ventilação dos cupinzeiros, estruturas que usam galerias, cavidades e poros para fazer o ar circular e trocar gases com o ambiente externo.

Na peça, um corpo de cerâmica porosa é combinado a um vaso de plantas. A água evapora através da argila e resfria a superfície, enquanto um ventilador de baixo consumo movimenta esse ar já mais frio pelo entorno.
O resultado é um pequeno sistema fechado, em que planta, água e cerâmica trabalham juntas para criar um microclima sobre a mesa, sem recorrer a um aparelho de ar-condicionado convencional.
Entre a peça que vira abrigo para musgo e a que copia o cupinzeiro para refrescar o ambiente, o Serame Studio deixa um recado direto para quem decora: a forma de um objeto pode fazer o trabalho que hoje se deixa só para a tecnologia.
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