Painel que cobre a parede inteira, spots espalhados pelo forro inteiro e boa parte do orçamento gasta só no piso: cada um desses itens, isolado, soa como sinal de uma casa bem planejada. Juntos, puxam o ambiente para o lado oposto, deixando o espaço carregado e mais caro do que precisava ser.
A arquiteta Clarice Maggi reuniu os três hábitos que não repetiria em um projeto próprio. Nenhum deles envolve falta de dinheiro ou de cuidado técnico. O problema está em gastar energia, metro quadrado e orçamento no lugar errado, enquanto o restante da decoração fica sem espaço para acontecer.
Marcenaria até o teto cobre a parede, mas esvazia a decoração
Fechar a parede de armário a armário virou sinônimo de projeto resolvido, mas o resultado costuma ser o oposto. Quando a marcenaria avança do chão ao teto, o painel engole o espaço que sobraria para quadro, objeto ou qualquer respiro visual, e a sala passa a girar em torno do móvel, não da vivência de quem mora ali.

Para Clarice Maggi, “lotar a casa de marcenaria, marcenaria até o teto, marcenaria cobrindo tudo, fechando tudo, é painel, é armário que não acaba mais, e acabou aí a decoração, acabou aí, não tem espaço para mais nada”.
Afinal, decoração não é sinônimo de armário embutido em todo canto. É o conjunto de escolhas que vem depois dele, e que só cabe quando sobra parede livre para receber.
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Iluminação em excesso cansa mais do que ilumina
Gesso com spots a cada poucos centímetros e fita de LED acompanhando cada friso de marcenaria parecem detalhes de acabamento refinado, mas a repetição desse recurso satura o ambiente. Luz em excesso achata a percepção de profundidade, elimina o contraste entre áreas de destaque e de descanso visual, e torna qualquer cômodo mais cansativo do que acolhedor.

A arquiteta reforça que o erro está na falta de critério, não na quantidade de pontos de luz em si: “a gente tem que pecar é pela cautela, não pelo excesso na iluminação, quanto mais, pior”.
Ela também observa um fator recente nesse exagero, o uso de ferramentas de inteligência artificial para gerar referências de projeto: “agora a gente tá na era do chat GPT que todo mundo entende de iluminação, o chat GPT ama iluminação em excesso e fica muito ruim”. O alerta serve como lembrete de que referência pronta não substitui projeto luminotécnico pensado para a rotina de quem usa o espaço.
Gastar tudo no revestimento deixa o resto da casa sem verba
Investir a maior fatia do orçamento em piso, bancada e revestimento é decisão recorrente em obras e reformas, mas consome recursos que fariam falta no restante do projeto. Mármore, porcelanato especial e pedra importada cobrindo a casa inteira elevam o custo sem necessariamente elevar a qualidade do resultado final, já que a base é só o ponto de partida da arquitetura de interiores, não o seu destino.

Segundo Clarice Maggi, “casa não é só base, a base é só um início, é claro que tem que ser bem feito, mas não precisa gastar horrores, não precisa botar todo o seu recurso lá”.
A recomendação é apostar em revestimento neutro como fundo e reservar parte do orçamento para o que vem depois dele: “você precisa ter orçamento para todo o resto, que é muito mais importante até do que piso e revestimento e painel”, completa a arquiteta.
Mobiliário, iluminação pontual, têxteis e objetos de composição são os responsáveis por dar personalidade ao ambiente. Sem verba reservada para essa etapa, a casa termina com acabamento impecável e nenhuma camada de identidade por cima dele, como resume a própria arquiteta: a decoração é muito mais do que a base da casa.
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