Uma área de preservação permanente costuma entrar no papel como problema a ser contornado. Na Casa Grota, foi o contrário: a faixa protegida na porção leste do terreno, coberta por vegetação nativa e cortada por uma grota, se tornou o eixo estruturante de todo o projeto. A residência fica em um condomínio de Brasília (DF) e é assinada pela Esquadra Arquitetos (@esquadra_arquitetos).
Um erro bastante comum presente em terrenos com restrição ambiental, é isolar a área verde com muro ou empurrar a construção para o canto mais distante do lote. Aqui a lógica se inverteu. O escritório voltou a arquitetura justamente para essa faixa de mata, fazendo da paisagem nativa parte do desenho interno da casa, e não apenas um pano de fundo visto pela janela.
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Três módulos e implantação térrea
A Casa Grota tem implantação térrea e se organiza em três volumes independentes. Um pavilhão linear concentra os ambientes de uso cotidiano da família. A garagem forma um bloco isolado. E um terceiro volume abriga uma suíte com copa e acesso próprio, funcionando quase como uma unidade autônoma dentro do mesmo terreno.

Essa fragmentação em blocos, em vez de um corpo único de construção, cria enquadramentos distintos da vegetação em cada ambiente. Cada módulo enxerga a grota e o cerrado de um ângulo diferente, o que reforça a sensação de a casa estar dentro da paisagem, e não apenas ao lado dela.
Estrutura mista permite obra em etapas
A escolha estrutural também respondeu a uma necessidade prática da cliente. A Esquadra Arquitetos adotou um sistema misto, combinando concreto e estrutura metálica, o que possibilitou executar a obra em fases, conforme o orçamento e o cronograma da moradora foram avançando.

O concreto garante a base e a resistência dos módulos fixos. Já a estrutura metálica permite ajustes e ampliações sem gerar retrabalho estrutural nas etapas seguintes. É uma solução recorrente em projetos residenciais que precisam conciliar tempo de execução com terrenos irregulares, sobretudo quando há desnível de solo e vegetação protegida por lei, como é o caso aqui.
O laranja como assinatura visual
O que realmente chama atenção na Casa Grota é o tratamento dado à estrutura metálica. Pintada de laranja, ela percorre toda a residência e cria contraste proposital com os tons terrosos e esverdeados do cerrado ao redor. Essa escolha cromática funciona como fio condutor visual entre os três módulos da casa.

A mesma cor laranja aparece nos caixilhos das esquadrias, desenhados pelo próprio escritório. As peças foram pensadas para oferecer diferentes possibilidades de abertura, favorecendo a ventilação cruzada e aproximando o dia a dia da casa da mata que a envolve.

Preservação ambiental como argumento de projeto
A Casa Grota mostra que a legislação de preservação ambiental, quando bem interpretada, pode virar argumento de projeto em vez de apenas uma restrição no memorial descritivo. A grota e a floresta nativa definem o ritmo dos ambientes internos, e a arquitetura entra como moldura dessa paisagem existente.

Para quem projeta em terrenos com áreas de preservação permanente, o caso conduzido pela Esquadra Arquitetos reforça um ponto importante: o desenho da casa pode nascer da restrição, e o resultado tende a ser mais coerente com o entorno do que qualquer solução genérica aplicada sobre um terreno plano e sem vegetação.
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