Uma casa de frente para o lago não precisa de muros de vegetação para ganhar privacidade. Precisa de composição. Foi esse o raciocínio que guiou o paisagismo assinado pelo escritório Depieri Paisagismo, dos irmãos Cleber e Arthur Depieri, em uma residência de Brasília com fachadas envidraçadas e vista privilegiada para a água.
A referência declarada é o clima de resort tropical contemporâneo, mas aqui a palavra “resort” não é usada como metáfora vazia. Ela se traduz em decisões técnicas concretas: massas vegetais amplas, poucas variedades por canteiro e uma seleção de espécies pensada tanto para o impacto cênico quanto para a baixa manutenção. O morador queria um jardim visualmente exuberante, mas sem depender de manutenção intensiva. É uma equação que só funciona quando a escolha botânica é feita com rigor, e não por acúmulo.
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Grandes maciços em vez de variedade excessiva
O grande acerto do projeto está justamente no que ele evita: a mistura de muitas espécies diferentes em um mesmo trecho do jardim. Em vez disso, os paisagistas organizaram a vegetação em grandes maciços, reforçando a unidade visual e criando uma leitura mais limpa da área externa. Costelas-de-adão e filodendros aparecem em volume, dando o acabamento tropical exuberante que os canteiros pedem, enquanto tamareiras, palmeiras e alpínias trabalham as diferentes alturas da composição.
Esse tipo de solução costuma ser mal compreendido por quem está reformando um jardim doméstico. A tentação de plantar “um pouco de cada” espécie bonita acaba fragmentando o espaço e cria uma manutenção mais complexa, já que cada planta tem uma exigência diferente de rega, luz e poda. Aqui, o oposto foi priorizado: menos variedades, mais presença.
Vegetação que emoldura, mas não compete
A arquitetura da casa, assinada por Valéria Gontijo e Ilgner Martins, tem grandes painéis de vidro e uma relação direta com o lago. Isso significa que qualquer decisão de paisagismo precisava lidar com um risco real: esconder a própria razão de existir da casa.

“Um dos grandes diferenciais deste projeto é a forma leve como o paisagismo se integra à arquitetura e à paisagem natural. A vegetação foi pensada para emoldurar a residência, sem competir com ela, valorizando os materiais naturais, as linhas contemporâneas da construção e a vista para o lago”, explica Cleber Depieri.
Na prática, isso aparece na forma como o jardim contorna a área da piscina sem bloquear os ângulos mais importantes de visão. Há vegetação suficiente para criar sensação de recolhimento e privacidade na área de convivência — com sofás, pufes, mesa e fireplace de frente para o lago — mas o desenho evita qualquer barreira visual que interrompa a amplitude do terreno. É um equilíbrio difícil de acertar: fechar demais tira a vista; abrir demais tira a intimidade.
Percursos com diferentes experiências sensoriais
Um jardim de casa grande corre o risco de virar um cenário estático, o mesmo em qualquer ponto do percurso. Para evitar isso, o projeto trabalhou a alternância entre áreas abertas, trechos sombreados e pontos de contemplação ao longo do caminho que liga a entrada da residência à área de lazer.

“Buscamos criar diferentes experiências ao longo do jardim, alternando áreas abertas, espaços sombreados e pontos de contemplação. A combinação entre vegetação tropical exuberante, gramados amplos e arborização elegante reforça essa sensação de conforto e exclusividade”, completa Arthur Depieri.

O gramado amplo e as forrações tropicais cumprem um papel que muitas vezes é subestimado em projetos de paisagismo residencial: dar respiro visual entre os pontos de maior densidade vegetal. Sem essas áreas mais neutras, o jardim tenderia a ficar carregado — bonito em fotos isoladas, mas cansativo na experiência de quem circula pelo espaço todos os dias.
Um jardim pensado para os próximos anos
A escolha das espécies também levou em conta o clima de Brasília, com plantas adaptadas às condições locais e resistentes o suficiente para manter o efeito paisagístico sem exigir intervenções constantes. Isso é decisivo em climas de estações bem definidas, onde nem toda vegetação tropical se sustenta sem cuidados frequentes.

Além disso, o projeto não foi desenhado para o resultado imediato. Segundo os profissionais, o jardim foi planejado para amadurecer com o tempo, o que significa que espécies de crescimento mais lento vão ganhar volume e presença nos próximos anos, tornando a composição ainda mais consistente do que já é hoje. É um raciocínio pouco comum em projetos residenciais, que costumam priorizar o efeito de entrega imediata em detrimento da evolução natural das plantas.
O resultado é uma casa em que o paisagismo não é um acabamento posterior à arquitetura, mas parte da própria experiência de morar — presente no conforto térmico, na sensação de privacidade e na relação diária entre os moradores e o lago que emoldura a residência.
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